Elena e o dia dos vivos

A mexicana Elena Puentes cruzou a fronteira dos EUA nos braços do pai e, desde então, não mais deixou de ser imigrante. Há 25 anos em Lisboa, ensina inglês para lisboetas, assim como ela, vindos de fora, e mantém viva as suas origens, celebrando a vida em cada Dia dos Mortos.

A mexicana Elena Puentes guarda boas memórias da avó, "Guadalupe, como a santa", uma santa vaidosa, a passear pelo pueblo de El Ojo de Agua equilibrando-se em salto alto, vestido desfraldado pelo vento, argolas, colares, a peineta presa ao cabelo, mais do que um adereço, a certeza do penteado intacto. Foi assim até ao último suspiro e é assim que a neta mantém viva a imagem da abuela, a cada 2 de novembro, pousando as argolas, colares e, claro, a peineta, no pequeno altar doméstico do Dia dos Mortos. A tradição provoca estranheza nos amigos portugueses de Elena, mas, com a serenidade de quem viveu 25 dos seus 51 anos em Lisboa, diz-se acostumada com o espanto. "Os europeus veem a morte com o olhar de morbidez, mas para nós o Día de Muertos é a celebração da vida."

Foi num Dia dos Mortos que a conheci, numa festa organizada pelo grupo folclórico de que faz parte, o Alebrije, ao lado de outros mexicanos de Lisboa. Por algumas horas, o Liceu Camões transformou-se num rancho, com bandeirolas a cruzarem o teto, barraquinhas de comidas típicas e dezenas de rostos com caveiras pintadas. As mulheres rodopiavam os vestidos, rodeadas por muchachos de sombrero, a fazerem tremer o chão com o seu sapateado. De vez em quando, o frenético dedilhar dos mariachis era cortado por um estridente "arrrrííííííbaaaaa, Mérrico!", ecoando pelas grossas paredes da cave. Ao lado do palco, erigia-se um enorme altar onde os presentes depositavam as lembranças dos parentes que partiram em corpo, mas não, nunca, em afeto. Apesar dos laços latinos que unem brasileiros e mexicanos, tudo me parecia estranhamente belo, deslumbrante, intenso e apaixonante, mas, ainda assim, estranho.

Elena percebe o que é isso e conta que algumas das pessoas que frequentam a mesma igreja batista dela também estranharam a celebração aos mortos, as caveiras, o sapateado, sombreros e mariachis, e chegaram a mencionar com ela o assunto. O impasse foi resolvido de forma insólita. "Um dia, assistiram ao filme Coco e passaram a perceber do que se tratava. Tudo na vida tem dois lados e, dessa vez, os americanos ajudaram-me", diz, achando piada a que o conflito cultural tenha sido mediado por uma produção de Walt Disney.

A estranheza é uma companheira antiga de Elena. Estava lá quando os pais cruzaram a fronteira para os Estados Unidos como imigrantes ilegais, quatro filhas a tiracolo, entre elas Elena, um bebé de 6 meses num território estranho. Foi sua confidente quando se viu uma estranha aos olhos dos norte-americanos e sentiu cólera e tristeza diante do racismo. A estranheza também esteve presente quando percebeu que na América Latina não falavam apenas a sua língua. "Só na faculdade descobri o português. Quando o professor escreveu na lousa São Paulo, pensei que havia errado a grafia de San Pablo", lembra. O idioma estranho levou-a a aprendê-lo, a concorrer à uma bolsa de intercâmbio e, finalmente, à Lisboa, em 1990.

Foi a primeira escala de Elena numa Lisboa ainda fechada para o mundo, assim como ela, pérola no interior da concha. Aluna da Universidade Nova, hospedou-se na zona das Avenidas Novas, até hoje sua Lisboa afetiva. Literalmente, afetiva. Estranhamente, a mexicana em terras de benfiquistas e sportinguistas acabou guiada por uma amiga ao QG dos adeptos do... FC Porto, na Avenida da República. Lá, entre névoas de fumo e o tilintar de tacos e bolas de bilhar, conhecera o portista que seria, primeiramente, um namoro de intercâmbio, mas que se transformaria no marido e pai do seu filho.

Elena ainda voltaria aos Estados Unidos antes de regressar, de uma vez por todas, em 1995. No período em que esteve na "América", flagrava-se, distraidamente, a cantarolar os versos de Cheira Bem, Cheira a Lisboa, aprendido na voz de Amália. "Era isso mesmo, parecia que Lisboa se entranhava na pele. Mesmo longe, às vezes sentia o cheiro de Lisboa pelos sítios", conta. Um quarto de século depois, a lisboeta que veio de fora refere-se aos portugueses na terceira pessoa, "nós gostamos disso, nós fazemos aquilo", e não esconde sentir-se hoje mais "em casa" do que nos 26 anos de sua vida norte-americana. "Os portugueses estão mais preparados para o diferente, conhecem mais o mundo que os americanos, leem mais do que os americanos, interessam-se mais em saber sobre outras culturas", avalia.

Isso não impediu o estranhamento de alguns alunos em Lisboa, no primeiro dia de aula de inglês, ao depararem-se com uma professora mexicana. "Não é comum, realmente, e no início, quando ia às entrevistas de emprego, apesar de saberem que vivi nos Estados Unidos por mais de duas décadas, era preciso provar mais do que os demais candidatos." Há 20 anos, porém, Elena não precisa provar nada a ninguém, tem a sua própria escola de idiomas, a Linguagest, com sede no Cais do Sodré, em sociedade com uma italiana, que, para não deixar a estranheza de lado, dá aulas de francês. Além dos cursos corporativos, a instituição gerida por lisboetas que vieram de foram catalisa estudantes nas mesmas condições. "São turmas inteiras de brasileiros e de africanos", explica. Imigrantes que se sentem mais à vontade na companhia da latina que praticamente nasceu em diáspora.

Para Elena, Lisboa praticamente não tem defeitos. Comparada às metrópoles de México e Estados Unidos, é uma cidade com dimensões pequenas para uma capital, um trânsito calmo, uma rede satisfatória de transporte público e, ainda, relativamente segura. Outro ponto positivo é o serviço público de saúde. No ano passado, um problema obrigou-a a passar três semanas no hospital. "Sei que as pessoas reclamam, mas nos Estados Unidos, se estivesse internada pelo mesmo período, a conta rondaria os cem mil euros", diz, sem reduzir o tema ao financeiro, elogiando ainda a forma com os portugueses lidaram com a pandemia. "Basta ver a situação dos norte-americanos com Trump..."

Apesar dos esforços portugueses, a pandemia deve impedir que os Alebrije se reúnam em 2 de novembro próximo para mais um Día de Muertos. Em tempos de confinamento e distanciamento social, a celebração não terá os gritos de "arrrrííííííbaaaaa, Mérrico!" e será mais silenciosa, intimista. Mesmo assim, estarão sobre o altar o colar, as argolas e o pente da abuela. Os tempos podem não ser dos mais otimistas, mas, apesar dos 25 anos de vida lisboeta, Elena mantém-se distante da visão "mórbida" europeia e insiste em olhar para tudo como uma forma de celebrar a vida. Para essa lisboeta vinda de fora, todo o dia é o dia dos vivos.

Escritor, jornalista e lisboeta vindo de fora

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