A explosão dos preços das casas levou a um aumento muito significativo do valor médio dos empréstimos à habitação.De acordo com dados do Banco de Portugal (BdP), em apenas dez anos, desde 2015, o primeiro ano completo após o programa de ajustamento e resgate da República, o valor médio contratado dos novos empréstimos hipotecários praticamente duplicou, de 90 mil euros para 175 mil euros em 2025, um aumento superior a 93%, pelas contas do DN a partir do novo Relatório de Acompanhamento dos Mercados de Crédito, divulgado esta segunda-feira. Aquela referência média é o maior valor de que há registo nesta última década analisada.Não é que o mercado tenha sofrido uma enorme expansão. Pelo contrário, sofreu nos preços e está mais concentrado, havendo menos oferta de casas e muito menos contratos celebrados por ano, por exemplo.O novo estudo do BdP mostra que o número de contratos celebrados caiu de forma muito expressiva, de 43 mil em 2015 para apenas 11 mil agora (2025), tendo o valor global de novos créditos concedidos para compra de casa afundado de 3,9 mil milhões de euros em 2015 para 1,9 mil milhões de euros no ano passado.Ou seja, há menos negócio, mas cada negócio imobiliário feito com recurso a crédito bancário é agora muito mais valioso do que no passado, o que está em consonância com os valores explosivos de alguns mercados (sobretudo nas zonas urbanas de Portugal e do litoral), refletindo subidas imparáveis nos preços das casas e o ambiente de crise habitacional, que continua a agravar-se, alimentada pela entrada de estrangeiros, que procuram e compra casas numa lógica de investimento, de ativo financeiro.O próprio banco central governado por Álvaro Santos Pereira aponta esse problema.Há quinze dias, o BdP assinalou, no Relatório de Estabilidade Financeira, que os estrangeiros residentes e não residentes em Portugal conseguem, em média, pagar mais 43% por uma casa do que os portugueses, o que começa a ser visto como um fator problemático que está a inflacionar o mercado da habitação, para a sua "sobrevalorização" e para o aumento de obstáculos no acesso a uma casa condigna, um dos direitos fundamentais.Com preços elevados e um choque inflacionista em curso, que fará subir mais as taxas de juro (já estão a subir há uns meses, aliás) e efeitos nefastos previsíveis na atividade da economia, o Banco de Portugal (BdP) sinaliza que está preocupado com uma possível "correção" dos preços do imobiliário e ajustamentos "abruptos" nos mercados (financeiros internacionais, do risco soberano, do crédito bancário), que podem por em xeque a estabilidade financeira do país, disse a autoridade monetária.Aliás, o governador Santos Pereira e a vice-governadora Clara Raposo indicaram que "o contexto atual propicia a materialização simultânea de choques de diferentes naturezas — macroeconómica, financeira, geopolítica e climática —, constituindo um fator de risco particularmente relevante para o sistema financeiro nacional, dada a potencial amplificação dos seus efeitos".Esta segunda-feira, o BdP assinalou que o valor médio dos novos créditos à habitação vendidos pela banca portuguesa, em 2025, disparou mais de 21% face a 2024, tendo o valor médio da hipoteca superado a fasquia histórica dos 175 mil euros.Um cocktail de taxas de juro baixas, casas caras e garantias públicas"A evolução do crédito à habitação no ano de 2025 registou um crescimento muito significativo impulsionado pelo contexto económico caraterizado pela descida das taxas de juro de referência e resiliência do mercado de trabalho, a que se juntaram a subida dos preços da habitação e a vigência da Garantia do Estado destinada a facilitar o acesso à habitação por parte dos jovens com idade até aos 35 anos", acrescenta a autoridade.Esta última medida pública da garantia jovem "constitui uma garantia a favor das instituições, de até 15% do valor da transação, que permite viabilizar a concessão de crédito à habitação própria e permanente com LTV, loan-to-value [rácio entre o valor do empréstimo e o valor da casa], mais elevado".Assim, continua o BdP, "em média, foram celebrados 11.134 contratos de crédito à habitação por mês, aos quais correspondeu um montante médio mensal de crédito concedido de 1.949,9 milhões de euros, valor que superou o anterior máximo observado em 2024"."Face a 2024, o número de contratos celebrados apresentou um aumento de 11,5% e o montante de crédito concedido aumentou 34,9%, tendo registado aumentos homólogos em todos os trimestres de 2025, contudo, sucessivamente menos expressivos", revela o banco central.Há dez anos, quando o país começou a reerguer-se do duro plano de ajustamento da troika, que provocou desemprego e cortou rendimentos dos salários e pensões, "o mercado do crédito à habitação registou em 2015 uma forte recuperação, face ao ano anterior, tendo aumentado o número de novos contratos e o montante de crédito concedido em 51% e 65%, respetivamente", indicou na altura o regulador da banca..Alta pressão nos preços. Estrangeiros têm capacidade de pagar mais 43% por uma casa que os portugueses.Riscos financeiros pioraram muito e Estado, famílias e empresas em Portugal estão demasiado "vulneráveis".Valor médio dos créditos à habitação em Portugal dispara mais de 20% e chega a 175 mil euros