A Arábia Saudita deu, no passado mês de junho, mais um passo na estratégia de reforçar a presença económica em Portugal com a formalização de uma holding sediada em Vila Nova de Gaia, da Strategic Deals Company for Investment (SDCI), que pretende investir em áreas como habitação, turismo, construção, energia e indústria, ao mesmo tempo que servirá de ponte para a internacionalização de empresas portuguesas no mercado saudita. Durante uma recente visita a Portugal, marcada por encontros com associações empresariais, entidades públicas e empresas, o presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal e CEO do Albaltan Group, Alwalid Albaltan, defendeu que o objetivo passa por estreitar as relações económicas entre os dois países, nos dois sentidos."A SDCI nasce como uma holding de investimento dedicada a identificar oportunidades estratégicas em Portugal. O seu âmbito é bastante mais vasto do que o investimento imobiliário", afirma o empresário em entrevista ao DN. O responsável acrescenta que a empresa pretende "estruturar joint ventures entre empresas portuguesas e sauditas, apoiar a internacionalização de empresas de Portugal para a Arábia Saudita, facilitar exportações, identificar parceiros locais e acompanhar investimentos nos dois sentidos". A agenda de Albaltan em Portugal incluiu reuniões com entidades como a Associação Empresarial de Portugal (AEP), a Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), o Banco Português de Fomento, a AIMMAP, a Produtech e o CATIM, além de encontros com empresas como Revigrés, Grupo ACA, Grupo SANA, Tecnimede, LSI Stones, AM Furniture e Adyta. "O nosso foco não é adquirir essas empresas portuguesas. O grande objetivo é criar oportunidades para que estas empresas participem nos grandes projetos que estão a transformar a Arábia Saudita", sublinha. Para Albaltan, Portugal tem competências que podem ser relevantes numa fase em que o país do Golfo investe em construção, turismo, infraestruturas, desenvolvimento urbano e indústria."Portugal tem empresas com enorme experiência em engenharia, construção, materiais, arquitetura, hotelaria e indústria transformadora, e acreditamos que esse conhecimento pode desempenhar um papel relevante no mercado saudita".Mercado em ascensãoA ambição saudita tem sido acompanhada de perto por investidores internacionais, mas também por dúvidas sobre a execução de alguns dos seus projetos mais emblemáticos, como a The Line - a megacidade futurista inicialmente apresentada como símbolo máximo do projeto Neom, e que caiu por terra - num contexto em que Riade, capital do país, e outras cidades, continuam a correr contra o tempo para cumprir os objetivos da Vision 2030, projeto que prevê colocar o Reino como principal destino turístico do mundo. Albaltan rejeita, no entanto, que os atuais desafios representem um recuo na estratégia."A Saudi Vision 2030 é, naturalmente, um projeto muito ambicioso. Mas também é um processo de transformação sem precedentes e é normal que, ao longo da sua execução, alguns projetos sejam ajustados em função das necessidades, dos prazos ou das prioridades", afirma. "O que permanece inalterado é a estratégia de diversificação económica e de desenvolvimento de novos setores, como o turismo, a indústria, a tecnologia e as cidades inteligentes", sublinha em relação ao projeto que pretende diversificar a economia da Arábia para outras áreas que não o petróleo, e sim o turismo, por exemplo. O turismo, aliás, é outra das áreas em que o grupo identifica potencial para uma relação mais estreita com Portugal. A agenda de Albaltan em Portugal incluiu reuniões com o Grupo SANA e contactos ligados ao Portugal Fashion, depois de a organização portuguesa ter recebido, no ano passado, três jovens designers sauditas. "As duas dimensões são igualmente importantes", responde Albaltan, questionado sobre se o objetivo é trazer capital saudita para Portugal ou levar o conhecimento português para os novos destinos turísticos sauditas. "Por um lado, queremos que empresas portuguesas participem no desenvolvimento dos grandes destinos turísticos sauditas, levando a sua experiência em hotelaria, arquitetura, engenharia, gestão turística e serviços. Por outro, queremos também atrair investimento saudita para Portugal, sobretudo em áreas onde o país tem vantagens competitivas, como o turismo, a habitação, a construção e outros setores estratégicos".Os dados mais recentes do Trading Economics, relativos a 2025, dão conta de que os negócios entre Portugal e a Arábia Saudita representam atualmente cerca de 200 milhões de dólares por ano em exportações portuguesas. Com este novo movimento, é expectável que aumentem embora ainda seja difícil perspetivar para que dimensão.O 'Efeito Ronaldo' Para Albaltan, é evidente que a relação entre Portugal e Arábia Saudita ganhou ainda maior visibilidade desde a chegada de um certo futebolista ao futebol saudita em 2023. "O Cristiano Ronaldo teve e tem um papel muito importante na aproximação entre Portugal e a Arábia Saudita. A sua presença contribuiu para dar maior visibilidade internacional ao país e despertou também a curiosidade de muitos empresários portugueses para um mercado que está a viver uma transformação profunda", pontua, explicando no entanto que o avanço das relações empresariais dependerá do sucesso das parcerias noutros campos."As relações económicas constroem-se sobretudo com confiança, conhecimento e resultados concretos. Quando os projetos têm como objetivo gerar desenvolvimento económico, criar emprego, promover inovação e melhorar a qualidade de vida das pessoas, as diferenças culturais deixam de ser um obstáculo e passam a ser uma oportunidade de aprendizagem mútua", finaliza..Leoa na economia, Arábia Saudita ainda gatinha enquanto destino turístico.Bolsa da Arábia Saudita abre portas ao mundo. Qualquer estrangeiro passa a poder investir