Calculadora na mão, pouco otimismo e muita incerteza. Este é o quadro traçado pelos empresários da restauração que, às portas do verão, dizem estar “em modo sobrevivência” e com a espada encostada à garganta. A época alta já não é sinónimo de balão de oxigénio para a atividade que está, este ano, ameaçada pelo aumento dos custos e pela quebra da procura. “O cenário está mais complexo para a restauração, as dificuldades que já se sentiam há um ano agudizaram-se. Estamos num período de enorme incerteza e existe uma grande incógnita para este verão. Os empresários precisam de uma atividade forte durante estes meses para colmatar os períodos menos bons, mas, neste momento, há muita apreensão devido a toda a conjuntura”, explica ao DN o presidente da ProVar, Associação Nacional de Restaurantes, Daniel Serra.A saúde financeira do setor tem vindo a deteriorar-se nos últimos anos: à pandemia, somaram-se a guerra na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente e os embates sucessivos têm colocado em causa a viabilidade dos negócios. “É a tempestade perfeita. Temos custos cada vez mais altos, seja com matérias-primas, energia ou trabalhadores, e o cliente a consumir cada vez menos. É um cocktail realmente muito mau para a restauração”, garante.O peso do aumento das faturas a pagar ao final do mês sente-se na mesma proporção com que a procura refreia. A margem para refletir custos nos preços finais é praticamente inexistente e a pressão nas tesourarias tem vindo a agravar-se. “A grande maioria dos empresários está em modo de sobrevivência, está a trabalhar para pagar os custos, muitos deles já nem conseguem tirar os salários. Estão todos os dias a fazer contas, nunca os empresários usaram tanta calculadora como agora, a situação é de muita apreensão”, enquadra Daniel Serra.A época em que os meses quentes de férias se traduziam numa maior procura e em receitas mais robustas para os restaurantes é agora uma miragem. Basta recuar ao verão “anémico” de 2025, explica o presidente da ProVar, para perceber que a conjuntura virou. As perspetivas para este ano não são melhores. “Já não há aqueles fins de semana previsíveis, que eram habitualmente fortes e de casa cheia. Hoje em dia os restaurantes podem ter um dia forte e depois dois ou três muito maus. A situação agravou-se ainda mais este ano com a perda do poder de compra do consumidor que tem vindo a adensar-se”, aponta.A atividade turística no país tem atingido novos máximos este ano, mas os números recorde não se têm refletido nas mesas dos espaços de restauração. Com o orçamento mais apertado para as férias, também os estrangeiros que visitam Portugal estão a gastar menos dinheiro em refeições fora. Os habituais almoços e jantares em restaurantes tradicionais estão a ser substituídos por alternativas mais baratas, como os supermercados e as cadeias de fast food. “Os turistas que chegam vão uma ou duas vezes ao restaurante só para terem a experiência gastronómica. Deixam uma parte do valor que disponham para as férias nos hotéis e nas viagens e a restauração fica em último plano”, ilustra o representante.Se o panorama se mantiver nos próximos meses, o desfecho será fatal para muitos empresários que não terão outra alternativa a não ser fechar portas. “Os proprietários acabam por deitar a toalha ao chão, a esperança vai-se desvanecendo. Se não houver uma resposta urgente, do Governo e das autarquias, não há luz ao fundo do túnel e os empresários desistem”, afiança..Restauração pede taxas turísticas a financiar promoção da gastronomia.O presidente da ProVar defende ser urgente uma resposta concertada entre o Executivo e as autarquias para assegurar a sobrevivência do setor. Às câmaras municipais pede que apliquem, no imediato, uma parte das receitas provenientes das taxas turísticas na promoção da gastronomia nacional. “Estas receitas são, muitas vezes, direcionadas para festivais de música e para outras atividades que não estão relacionadas com o turismo. Estes investimentos deveriam, em muitos casos, ser realizados pelos privados e as autarquias estão a assumir esse papel”, critica. O dirigente sugere que os municípios aloquem estes recursos à criação de festivais locais destinados à restauração regional que contribui “de forma inegável para toda a economia local e nacional”. “É uma medida fácil de implementar e que teria um efeito imediato, é uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada e pode ser concretizada já este verão e permite que a restauração tenha um novo direcionamento dos recursos e uma ajuda no imediato”, justifica.Já ao Executivo, Daniel Serra reitera as propostas defendidas ao longo dos últimos anos pela associação, como o IVA diferenciado que visa a redução do imposto para os 6% nas categorias de produtos alimentares. A revisão fiscal ao nível da Taxa Social Única (TSU), contribuição paga pelas empresas à Segurança Social sobre os salários dos trabalhadores, é outra das bandeiras. A ProVar defende a isenção desta taxa sobre os montantes pagos acima dos valores previstos nas tabelas salariais dos contratos coletivos de trabalho. O presidente da associação apela ainda ao Governo para acelerar a implementação do pacote de apoios prometido ao setor no início do ano, que prevê incentivos ao investimento até 60 mil euros, dos quais 30% a fundo perdido, bem como o alargamento dos prazos de pagamento dos empréstimos contraídos durante a pandemia. .Ana Jacinto: “Restaurantes estão com muitos problemas. Qualquer sopro serve para abanar a estrutura”.Famílias sobre-endividadas estão a pedir cada vez mais créditos pessoais para pagar despesas básicas