A cotação do barril de petróleo Brent que o governo usou para fazer o Orçamento do Estado de 2026 (OE 2026) está, atualmente, 25% acima do valor inscrito no documento aprovado pela Assembleia da República, e atualmente em vigor.A hipótese assumida pelas Finanças, que interfere em componentes chave do cenário macroeconómico deste ano -- como a receita fiscal (ISP, IVA, IRC), a capacidade de despesa e poder de compra de famílias e empresas, a força do consumo ou do investimento, as exportações -- está claramente desatualizada, passara apenas cinco dias (até este quinta-feira) desde que EUA e Israel atacaram o Irão, com este último a retaliar contra vários países árabes, seus vizinhos.Esta quarta-feira, o barril de Brent, a referência principal para Portugal e muitos países europeus, fechou colado aos 82 dólares, depois de ter tocado um máximo de 85 dólares durante a sessão. Na terça-feira foi parecido.A hipótese assumida pelo governo de Luís Montenegro e do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, é 65,4 dólares em 2026.Fazendo a média do ano até agora, o problema parece menos agudo: de 1 de janeiro deste ano até 4 de março, a cotação do Brent vai em 67,8 dólares. Ainda assim, já ultrapassa em dois dólares (em quase 4%) a tal média inscrita no OE 2026.Há tempo para alinhar esta variável, mas também há margem para piorar. Faltam dez meses para terminar o ano e não há data para o filme da guerra terminar.Na segunda-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que a ofensiva contra o Irão pode durar "quatro ou cinco semanas, mas temos capacidade para prolongar a operação por muito mais tempo".A economia portuguesa é hoje muito menos dependente de matérias primas fósseis como petróleo e gás do que era há cinco, dez ou vinte anos, mas, ainda assim, em 2025, não sendo produtor, teve de importar dez mil milhões de euros destes produtos minerais, segundo cálculos do DN a partir dos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).O governo diz que 70% da energia consumida em Portugal vem de fontes não petrolíferas, vem renováveis, assegurou o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida.Mas o curso dos preços do crude e do gás, se for para subir, além da corrosão do poder de compra que impacta diretamente no consumo de gasolinas e gasóleos, pode e deve conduzir a uma ação por parte do Banco Central Europeu (BCE): subida de taxas de juro.É o efeito indireto que teve e continua a ter repercussões negativas nas famílias endividadas, nas empresas que precisam de financiamento para investir e no Estado, que tem uma dívida de quase 90% do Produto Interno Bruto (PIB) que procura resolver, reduzir.Petróleo mais alto, combustíveis mais caros, mais receita em ISP, é o que o passado recente nos diz.O pior é o resto. Se o preço dos combustíveis nas bombas subir em flecha, como aconteceu na sequência da guerra da Rússia contra a Ucrânia, o governo vai ser pressionado a apoiar a economia, subvencionando o custo da energia, como aconteceu.A economia também tenderá a vacilar. Mesmo menos dependente de combustíveis de origem fóssil, há sectores e vastos grupos da população que continuam a depender muito deste tipo de energia.Mesmo que as contas públicas venham a derrapar para uma situação de "pequenos défices", sobretudo na sequência do aumento de despesa corrente e de investimentos públicos que vão ocorrer no âmbito do PTRR (o plano Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência), o país e o governo vão poder continuar a dizer que "as finanças públicas estão equilibradas", afirmou o primeiro-ministro, Luís Montenegro. Sobre as repercussões adicionais que podem advir desta nova e grave crise no Médio Oriente, o chefe do governo ainda nada disse.Michiel Tukker, economista do grupo financeiro ING que segue taxas de juro, considere que "de repente, a boa posição do BCE está a ser posta em causa, e duvidamos que isso se resolva num futuro próximo". "A narrativa mudou e os mercados estão a descontar um aumento de 25 pontos base [0,25% mais na taxa de juro do BCE, hoje em 2%]", com 50% de probabilidade de tal acontecer em 2026.Além disso, "a possibilidade de subidas das taxas de juro do BCE representa um sério risco", podendo "desencadear um alargamento significativo dos spreads das obrigações soberanas dos países do euro", remata Michiel Tukker.Para o departamento de estudos do Banco BPI, há dois grandes cenários em cima da mesa. Se a tensão dos preços se mantiver refletida nos futuros, "o cenário para a Zona Euro e Portugal ficaria mais debilitado, mas, com o apoio das reservas energéticas acumuladas a nível global e expectativas de inflação estabilizadas, não deverá sofrer uma mudança profunda. O crescimento do PIB poderá ser algumas décimas inferior e a inflação poderá sofrer um aumento temporário, mas sem alterar a estratégia do BCE."Já um cenário de "preços persistentemente mais elevados ameaçaria com perturbações mais significativas e efeitos indiretos sobre a inflação que poderiam pressionar as expectativas. Seria provável um tom mais hawkish [a favor da subida de taxas de juro] por parte da Reserva Federal e do BCE, com aumentos das taxas que se somariam ao peso exercido pelas perturbações da oferta sobre a atividade", diz o BPI.Também do ING, Rico Luman, especialista e Transportes e Logística, lembra que o petróleo já vai nos 80 dólares por barril."Os custos com combustível de aviação podem representar 20% a 30% dos custos operacionais totais das companhias aéreas, especialmente em voos de longo curso. Quando os preços do combustível de aviação sobem, isso leva rapidamente a custos mais altos" e "os preços do jet fuel [vulgo, querosene] de aviação estão muito mais ligados à evolução do preço do petróleo do que os preços dos combustíveis dos automóveis porque não existem impostos especiais de consumo", indica o mesmo analista.Assim, "as companhias aéreas terão de ajustar preços para manter as receitas". Segundo Luman, "no início do ano, os preços do petróleo rondavam os 60 dólares por barril e agora, início de março, já estão em 80 dólares". "Esperamos que baixem ainda este ano, mas tudo depende da evolução do conflito."Ásia sob stressNa Ásia, o nível de ansiedade parece ser ainda maior.De acordo com o departamento da Energia dos EUA, os fretes que saem do Médio Oriente pelo Estreito de Ormuz, que atualmente ainda é controlado pelo Irão, transportam (transportavam) 30% de todo o petróleo mundial escoado por via marítima, ou seja, sem contar com o crude enviado por oleodutos. Esses 30% equivalem a um fluxo de saída de 20,3 milhões de barris por dia. A maioria deste petróleo tem como destino a Ásia.A mesma fonte do Departamento da Energia do governo dos EUA mostra que o Estreito de Ormuz também é a porta de saída para 20% do gás LNG produzido a nível global (os maiores produtores são Qatar e Irão). Estamos a falar de 290 milhões de metros cúbicos de gás por dia, por aquela via do golfo. A maioria deste gás (80%) é expedido para a Ásia; o resto (20%) tem como destino a Europa.Citado pelo The Economic Times, o maior jornal financeiro da Índia, Alan Gelder, da consultora petrolífera Wood Mackenzie, diz que "os preços do petróleo podem ultrapassar os 100 dólares por barril se o tráfego de petroleiros através do Estreito de Ormuz não for rapidamente restabelecido".Ajay Bagga, um analista especializado nestes mercados, disse, esta segunda-feira, à agência de notícias indiana ANI, que "interrupções neste ponto crítico de estrangulamento [Ormuz] elevam os prémios dos seguros, os custos dos fretes e os preços do crude".Mesmo no caso de "uma escalada limitada, o Brent poderá subir para 100 a 115 dólares por barril", "no caso de interrupção do tráfego marítimo, os preços poderão subir para 120 a 140 dólares" e, assumindo que há "encerramento prolongado do canal o preço do barril de petróleo pode subir até 150 dólares ou mais"..Combustíveis terão aumento certo e elevado: seria de 13 cêntimos se a atualização fosse esta terça-feira