Portugal e mais três países da Zona Euro, que é composta por 21 Estados-membros, foram os únicos a não sentir o alívio temporário na inflação registado em junho, mês que foi bastante marcado por um recuo nos preços do petróleo e outras matérias-primas e pelo aparente progresso nas negociações entre os EUA e o Irão para alcançar um cessar-fogo, instaurar a paz duradoura no Golfo Pérsico e abrir, sem margem para dúvidas, o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e do gás a nível mundial. Espanha, Lituânia e Chipre também estão sob aperto de uma inflação que não desarma, mostra o Eurostat.Segundo a informação oficial revelada na passada sexta-feira (17 de julho de 2026) pelo gabinete de estatísticas da União Europeia (UE), o ritmo de subida dos preços na Zona Euro quebrou a tendência de forte subida que vinha a registar desde janeiro (no início do ano, a inflação estava em 1,7%), tendo atingido uns proibitivos 3,2% em maio (o BCE zela por uma inflação que deve estar em 2%). Este valor foi o mais elevado em cerca de dois anos e meio (desde setembro de 2023).Em junho, diz agora o Eurostat, os preços da Zona Euro arrefeceram na sua ascensão de quase seis meses, que parecia imparável, e finalmente, a inflação geral da área da moeda única lá caiu com o esboço de cessar-fogo no Golfo, dos referidos 3,2% para 2,8%.A agência oficial europeia mostra que o alívio de junho chegou à esmagadora maioria dos europeus que partilham o euro, mas deixou alguns de fora, como os portugueses e os espanhóis.De acordo com o Eurostat, o custo de vida em Portugal manteve-se bastante elevado, com a inflação colada nos 3,1%, a medida harmonizada da variação dos preços que permite a comparação entre países e que inclui, por exemplo, as despesas de consumo dos não residentes, como os turistas).Há uma semana (10 de julho), o Instituto Nacional de Estatística (INE) indicou que a inflação de junho foi de 3,2% (em maio fora 3,3%), com o preço da energia a subir mais de 9%.Em todo o caso, o INE refere que "a variação do índice relativo aos produtos energéticos diminuiu para 9,1% (13,1% no mês anterior), refletindo uma redução dos preços dos combustíveis".Governo aponta para "distorções graves" nos preços das bombas de combustívelIsto acontece numa altura em que o governo começa a mostrar sinais de inquietação sobre a grande dificuldade ou resistência que as empresas vendedoras de combustíveis que operam em Portugal estão a ter para refletir os alívios registados no custo do petróleo, e que marcaram todo o mês de junho, por exemplo.Já o aumento do preço do crude tem sido passado rapidamente e de forma significativa aos consumidores, com subidas nos preços nos combustíveis.Segundo o JN, o governo diz que pediu à entidade reguladora do sector em Portugal (ERSE) um novo estudo sobre o problema porque detetou "distorções graves" na formação de preços no consumidor e que está inclinado a limitar temporariamente margens dos combustíveis, pela primeira vez.Seria também uma forma de começar a poupar diretamente no Orçamento do Estado a nível desconto do ISP, por exemplo, embora governo e Finanças ainda não admitam isto, oficialmente.Aperto em junho e em julho deve ir pelo mesmo caminho ou piorA subida de 3,1% nos preços em Portugal foi a segunda mais elevada deste ano; antes disso, só o máximo de 3,3% registado em abril, antes de EUA e Irão terem chegado a um pseudo acordo de cessar-fogo (o memorando de entendimento assinado a 17 de junho) que entretanto fracassou com o reacendimento da guerra no Golfo.O preço do petróleo, que chegou a aliviar para perto de 70 dólares por barril, está desde a semana passada no patamar dos 85/86 dólares e não desarma. Na passada sexta, furou a barreira dos 87 dólares.O Eurostat mostra que a punição da inflação elevada, que reduz o poder de compra das famílias, também se manteve em Espanha (inflação de 3,6%). Pior estão os consumidores da Lituânia, que viram a inflação nacional galgar ainda mais entre maio e junho, de 5,1% para 5,4%, e de Chipre, de 3,5% para 4,1%.O Eurostat explica que "a taxa de inflação anual da área do euro foi de 2,8% em junho de 2026, ficando abaixo dos 3,2% registados em maio".No entanto, este panorama contrasta com o que acontecia há ano, antes de Donald Trump, ter decidido atacar o Irão com a ajuda de Israel, em 28 de fevereiro passado. Em junho do ano passado, a subida dos preços da Zona Euro estava normal (2%) e em linha com o objetivo de estabilidade do Banco Central Europeu (BCE), que assim não sentia necessidade de subir juros, como agora acontece."Na União Europeia, a inflação anual foi de 2,9% em junho de 2026, também abaixo dos 3,3% observados em maio. Um ano antes, a taxa era de 2,3%", acrescenta o Eurostat.Inflação acima de 5% em dois países do euroDe acordo com o serviço estatístico da União Europeia, em junho de 2026, as taxas anuais (homólogas) mais baixas "foram registadas na Suécia (1%), Chéquia (1,1%) e Dinamarca (1,8%)"; as mais elevadas foram observadas na Roménia (9,2%), Lituânia (5,4%) e Bulgária (5,2%)". Estes dois últimos países pertencem à zona euro, onde a inflação devia ser de 2%."Em comparação com maio de 2026, a inflação anual diminuiu em 22 Estados-Membros, manteve-se em três e aumentou em dois".Por grandes categorias de bens, "em junho de 2026, o sector dos serviços foi o que mais agravaram os preços na Europa, com um contributo de "+1,51 pontos percentuais, p.p.", logo seguido do mercado da energia (+0,77 p.p.), dos alimentos, álcool e tabaco (+0,29 p.p.) e dos bens industriais não energéticos (+0,18 p.p.). Todos "contribuíram positivamente para a taxa de inflação anual da área do euro".Mesmo com este alívio, que os analistas acreditam que seja "temporário" porque a situação no Golfo e nos mercados de matérias primas está totalmente indefinida, não havendo garantias de nada nem de desfechos, a inflação está em níveis intoleráveis para os grandes banco centrais do mundo, que perseguem o objetivo dos 2% ou à volta disso.Como referido, o mês de junho foi marcado por um alívio generalizado na pressão dos preços e também nas expectativas de subida dos preços na Zona Euro, o que levou o Banco Central Europeu (BCE) e outras autoridades monetárias a suavizarem de forma evidente a agressividade do seu discurso anti-inflação elevada (acima dos 2%), ou seja, abaixaram o grau de ameaça de subir juros.Esta sexta-feira, o Eurostat confirmou essa acalmia, mas o que se sabe do mês de julho é que o fogo da inflação e da guerra voltou.Assim é desde 8 de julho, quando Trump decidiu anunciar, na cimeira da NATO, em Ankara, na Turquia, que o cessar-fogo com o Irão "acabou".Já na ressaca das ameaças e dos ataques mútuos de EUA e Irão, o negrume voltou aos mercados.Segundo uma análise do departamento de estudos do BPI, "a geopolítica traz a inflação de volta ao centro da narrativa do mercado"."A retoma das hostilidades entre o Irão e os EUA impulsionou os preços da energia, com um impacto particularmente intenso no gás natural europeu (contrato TTF holandês)" e foi "pressionada tanto pela decisão do Qatar de suspender os seus planos para retomar a produção após o ataque a um dos seus navios de carga, como pela forte procura face às elevadas temperaturas na Europa e na Ásia".BCE volta a temer escalada de preços e isso reativa subida dos jurosSegundo os mesmos economistas, o agravamento dos preços da energia provocou um "aumento das expectativas de inflação em ambos os lados do Atlântico, com o mercado a aumentar novamente a probabilidade atribuída a novos aumentos das taxas, descontando, nos próximos 12 meses, duas subidas adicionais do BCE" e "também duas da Reserva Federal (Fed)".O receio em Frankfurt está seriamente instalado, revelam os analistas."As atas da reunião de junho do BCE, realizada poucos dias antes do anúncio do acordo EUA-Irão e na qual aumentou a taxa depo [taxa de juro principal, a facilidade de depósito] de 2% para 2,25% (primeira alteração em um ano), mostram uma preocupação crescente com as consequências inflacionistas do conflito no Médio Oriente".Sendo certo, como têm repetido a presidente Christine Lagarde e os governadores, que Frankfurt "não quer comprometer-se previamente com um percurso específico de taxas e que continuará a decidir, reunião após reunião, dependendo da evolução dos dados", no entanto, os mercados monetários estão a sinalizar nos seus preços "mais de 80% de probabilidade de um novo aumento de 0,25 p.p. em setembro".Quanto a um aperto no custo dos empréstimos já na próxima semana, a probabilidade existe, mas é relativamente baixa. "Na reunião de 23 de julho, é inferior a 15%".