Portugal deu um salto económico e social enorme ao longo destes 51 anos, desde o 25 de Abril de 1974, o dia da Liberdade que se celebra esta sexta-feira.Depois de décadas de ditadura e quase paralisia económica, de emigração crónica, de repressão interior e de uma guerra dilacerante e incapacitante (sobretudo da sua juventude) nas antigas colónias africanas, de analfabetismo esmagador, de pobreza vil, de quase total obliteração das mulheres no espaço público e no contributo (invisível) para a economia, os indicadores e as grandes análises históricas mostram que boa parte do século XX não foi, de facto, de feição para o país.Mas com a Liberdade e resolvidos certos eventos que podiam ter encaminhado Portugal para outro modelo que não fosse o da integração europeia e internacional e da economia de mercado (à la FMI e Comissão Europeia), esses indicadores mudaram. Quase todos.Muitos para melhor, outros, para patamares que suscitam dúvidas atualmente, como a falta de habitação, os salários que não chegam para acompanhar o aumento do custo de vida, os empregos insuficientes e pagos abaixo do par para quem, por exemplo, investiu nos estudos e é mais qualificado. O recrudescimento da emigração no tempo da troika, e que depois persistiu em níveis demasiado elevados (ou que não reverteu o suficiente face à perda de talentos) fez soar este alerta.Como recordou Paul Krugman, o economista e laureado Nobel norte-americano, que esta semana veio a Portugal, a convite do Banco de Portugal para celebrar, justamente, os 51 anos do 25 de Abril, "o país atrasado" que conheceu na década de 70, era ele um estudante do MIT com apenas 23 anos, "a economia retrógrada, sem infraestruturas, pobre" já não lhe é visível.Hoje, Krugman diz estar "muito contente" por aqui se ter alcançado a liberdade e a democracia e, por isso, considera que Portugal é caso para dizer: "viveram felizes para sempre, mas claro, não totalmente felizes, nem para sempre, porque nada é para sempre", atirou com alguma graça.“Não totalmente” porque hoje os desafios são outros: o custo e a inacessibilidade de habitação a preços decentes, consentâneos com os níveis salariais; o maná do turismo (que cria empregos) e a pressão que dele advém (caso da habitação); os fortes constrangimentos dos serviços públicos de educação e saúde; o envelhecimento acelerado da população.Várias instituições, universidades, o Instituto Nacional de Estatística (INE), os próprios governos, a Pordata, historiadores económicos, têm feito a atualização dos progressos e retrocessos neste meio século.Mais recentemente, é de relevar o extenso e aprofundado trabalho feito pelo Banco de Portugal (BdP), que fez o levantamento dos dados disponíveis, boa parte atualizados até 2024.O dossiê digital está todo no site do banco central titulado "Como éramos e como mudámos". Escolheram-se 12 dimensões para contar a História do Portugal em democracia. "Mulheres, salário mínimo nacional, demografia, segurança social, saúde, educação, habitação, comércio internacional, empresas, finanças públicas, mercado de trabalho e setor financeiro".Esta semana, o trabalho foi vertido num novo livro com a chancela do BdP.O país estrutural avançou"Nos últimos 50 anos houve muito que mudou na sociedade portuguesa. Uma transformação profunda que aconteceu de forma paulatina, mas firme, nem sempre devidamente percecionada".A frase é uma ideia várias vezes repetida pelo governador do BdP, Mário Centeno, desta feita usada para lançar as conclusões sobre as grandes mudanças sócio-económicas trazidas pela Liberdade.Algumas são enormes, são mudanças estruturais, e parece que deixam definitivamente para trás o país pobre, fechado, censurado e até triste que perdurou até 1974.No mercado de trabalho, por exemplo, logo na década de 70, “houve uma diminuição substancial da emigração, o retorno de centenas de milhares de portugueses de Angola e Moçambique e, com fim da guerra colonial, uma redução do contingente militar”, observa o BdP.A agricultura “absorvia grande parte da força de trabalho (superior a 30% durante a década de 1960 e ainda um pouco mais de 20% em 1974), contribuindo para o baixo desemprego, mas indiciando a existência de um significativo subemprego económico”.No entanto, “à medida que a qualificação aumentou, a atividade agrícola, que, entretanto, também se mecanizou e desenvolveu, deixou de ter esta capacidade de absorção de desemprego”, refere o estudo do banco central.No período do Programa de Assistência Económica e Financeira (da troika, de 2011 a 2014) o desemprego deu um salto, atingindo “um máximo de 17% em 2013”, mas entretanto aliviou e hoje está perto de 6% da população ativa. Muito baixo em termos comparativos e históricos. “É importante notar que a redução recente da taxa de desemprego para valores na ordem de 6,5% se verificou num contexto de imigração significativa — dos quase um milhão de empregos criados nos últimos dez anos, 60% são trabalhadores estrangeiros”. São os nómadas digitais, muitos deles inspirados e que deram à costa por via da enorme corrente do turismo.Na habitação, “os bairros de lata praticamente desapareceram” e o saneamento e a água canalizada é a norma, indica o BdP. Mas certo é que muitas casas, sobretudo nos grandes centros urbanos, não estão disponíveis para habitar porque o turismo dá maior e melhor retorno.Na educação, “o analfabetismo foi praticamente erradicado e uma em cada cinco pessoas com mais de 25 anos tem ensino superior”. E, mais relevante, “entre os jovens em idade de entrar no mercado de trabalho (25 aos 34 anos), a proporção com ensino superior passou de pouco mais de um em cada 100 em 1970 para 38 em 2021”, segundo os Censos do INE.A aposta em infraestruturas e na estabilização do setor financeiro (salvando bancos, basicamente), surtiram efeito. Portugal é hoje mais dotado e estável deste ponto de vista, é uma economia aberta e com um peso significativo das suas indústrias exportadores (mesmo sem contar com o turismo, um serviço exportado), mas o legado é enorme e reflete-se na dívida pública: em 1974, o fardo do endividamento a cargo dos contribuintes era 14% do produto interno bruto (PIB), no final do ano passado estava em quase 95%.A dívida tem vindo a descer, mas é uma vulnerabilidade grave do país porque está na Europa e é obrigado a cumprir o Pacto de Estabilidade que dita uma dívida de 60%, máximo. É um dos preços a pagar por estar na bolha protetora da Zona Euro e do Banco Central Europeu.Quanto à vulnerabilidade que advém do facto de ser uma pequena economia muito aberta ao mundo, o desafio ou perigo está à vista: a guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos, do Presidente Donald Trump, virou o tabuleiro das regras comerciais estabelecidas e lançou o caos e a incerteza sobre o futuro, o próximo e o outro, a mais longo prazo.