Até que ponto a Inteligência Artificial (IA) está a ser devidamente usada nas empresas, em termos de estratégia económica, ética e política de recursos humanos? A resposta a esta pergunta não tem uma resposta simples, mas está a dividir as opiniões entre os gestores. Com efeito, 61% dos presidentes executivos (CEOs), a nível global, alertam que os seus administradores estão a precipitar-se na adoção de IA, de acordo com um estudo da Boston Consulting Group “Split Decisions: The BCG CEOs and Boards Survey”, a que o DN teve acesso.Quase 40% dos líderes das grandes empresas afirmam que os seus administradores não têm uma visão suficientemente informada sobre a forma como esta tecnologia está a transformar as estratégias de crescimento, e “um terço considera que estão a sobrestimar as capacidades humanas que a IA pode substituir”. Mais de metade dos CEOs consideram mesmo que o entusiasmo em torno da IA está a condicionar as decisões dos conselhos executivos, segundo o estudo da consultora de gestão internacional.As lacunas de conhecimento sobre esta tecnologia e o fenómeno de FOMO (fear of missing out: receio de ficar para trás) poderão estar a contribuir para esta dinâmica.O estudo baseia-se num inquérito global realizado a 625 líderes, incluindo 351 CEOs e 274 membros de conselhos de administração de empresas com, pelo menos, 100 milhões de dólares de receita anual. E é divulgado num momento em que destacadas figuras dos universos tecnológico, filosófico ou religioso - o mais recente foi o Papa Leão XIV _ têm alertado para a necessidade de avaliar os impactos da IA nas diferentes esferas da sociedade.Apesar de grandes avanços nos últimos anos, Portugal continua abaixo da média europeia na adoção destas tecnologias. Segundo o Digital Decade Country Report 2025 , a Comissão Europeia identifica a adoção de IA pelas empresas como o principal défice digital do país, indicando que Portugal atingiu apenas 11% da meta europeia para 2030.Embora tanto os presidentes como os seus administradores reconheçam a importância da IA, divergem quanto ao ritmo da sua implementação e ao nível de preparação das organizações para gerar resultados concretos.Aquele desalinhamento parece estar sobretudo relacionado com uma ausência de políticas estruturadas e estratégicas ao nível das empresas para potenciar o uso da Inteligencia Artificial. É para isso mesmo que apontam as conclusões de um outro estudo, da Sesame HR, divulgado esta segunda-feira, segundo o qual “87,8% das empresas em Portugal já utilizam IA em Recursos Humanos, mas maioria ainda não definiu o seu papel nas decisões”.“Quase 88% das empresas portuguesas já usam IA, nos seus processos de RH, mas só menos de 20% têm regras claras para a sua utilização. Mais de metade fazem-no de forma pontual ou experimental, enquanto apenas cerca de 34% indicam uma utilização estruturada e integrada”, disse ao DN Tiago Santos, Vice-Presidente de Comunidade e Crescimento da Sesame HR, uma empresa que desenvolve plataformas de IA para recursos humanos em várias geografias e fornece mais de cem empresas em Portugal.O estudo da Sesame HR, que reuniu contributos de 535 gestores de recursos humanos, para traçar um retrato de um setor em transformação tecnológica, mas também estratégica e humana, revela uma adoção acelerada da Inteligência Artificial, mas conclui que esse percurso é marcado por desafios de confiança, ética e governance, sendo que o seu papel nas decisões críticas continua por definir.“Estamos a assistir a uma adoção muito rápida da IA nas organizações, mas sem uma maturidade estratégica que acompanhe esta evolução. As empresas já utilizam estas ferramentas no dia a dia, mas ainda não definiram claramente o seu papel na tomada de decisão, sobretudo quando estão em causa decisões que impactam diretamente as pessoas”, explica Tiago Santos.Cerca de 85% dos profissionais utilizam IA para redação de conteúdos, como descrições de funções ou comunicações internas, e aproximadamente 33% recorrem a estas ferramentas para triagem de currículos. Já em áreas mais sensíveis, como avaliação de desempenho ou decisões estratégicas, a adoção é ainda residual, aponta o estudo.Competência sobre IA passa a ser requisito de gestãoVoltando ao inquérito da BCG, “o ponto mais revelador da nossa investigação é, provavelmente, este: os conselhos de administração sentem-se confiantes em relação à IA, mas os CEOs não confiam na capacidade dos seus conselhos. É essa lacuna de perceção - e não de tecnologia - que irá definir quais as organizações que liderarão a era da IA e quais terão muitas dificuldades pelo caminho. Por trás de uma ilusão de alinhamento, existem cinco divisões críticas: o ritmo, a responsabilidade, a literacia em IA e o que a IA pode realmente entregar”, refere José Koch Ferreira, Managing Director & Partner da BCG Lisboa.Cerca de 80% de ambos os grupos consideram que os candidatos a membros dos Conselhos de Administração devem demonstrar uma compreensão mensurável de como a IA pode transformar o setor de atividade da empresa, um sinal de que a fluência em IA está a deixar de ser um diferenciador para se tornar um requisito mínimo de exercício do cargo.Para facilitar o uso da IA na gestão de pessoal, a Sesame HR acabou de lançar uma plataforma que “permite, pela primeira vez, a qualquer gestor navegar e conversar em tempo real com todos os dados da empresa, sobre rotatividade, assiduidade, etc e pedir ajuda para resolução de problemas”.Tiago Santos considera que a IA não subsitui o pensamento crítico e que continua a ser necessário sempre garantir a privacidade dos dados e vigiar as decisões enviesadas do algoritmo a partir do histórico aculumado. Mas lembra que “esse viés”, que tem prejudicado, por exemplo, a contratação de mulheres ou de minorias étnicas, quando é feita pelo algoritmo, “é um viés que já existe na sociedade, não é inventado pela máquina”.