A Inteligência Artificial (IA) generativa não é um instrumento de escritório ou uma ferramenta restrita ao setor tecnológico. A conclusão é do primeiro relatório do estudo ATLAS (Activity, Task, Landscape, and Adoption Study), publicado esta quinta-feira, 23 de julho, pela Google com base na análise de 15 milhões de interações em mais de 150 países: 86% da utilização da tecnologia ocorre fora do ambiente laboral.No entanto, apesar de a maioria das interações se focar em tarefas do quotidiano pessoal e cívico, o estudo demonstra também uma ligação matemática direta entre a adoção individual de IA e o desenvolvimento económico nacional. Em média, um aumento de 1% no Produto Interno Bruto (PIB) per capita está associado a um crescimento de 0,9% na utilização da tecnologia, revelando que a riqueza nacional continua a ditar o ritmo de penetração destas ferramentas na sociedade.A análise revela que os utilizadores recorrem massivamente à IA para simplificar processos burocráticos. As consultas sobre serviços governamentais – como o pagamento de impostos, a obtenção de licenças e a liquidação de coimas – superam 20 vezes a proporção de tempo que os cidadãos habitualmente dedicam a estas matérias no seu dia a dia.Estes dados sugerem que a IA está a gerar valor económico indireto ao reduzir o tempo e o custo de contexto gastos em tarefas administrativas pessoais, libertando disponibilidade para atividades de maior valor acrescentado na economia informal e familiar.Dentro do ecossistema profissional, onde a tecnologia já está presente em funções que representam quase 90% do emprego nos Estados Unidos, o relatório ATLAS contradiz os cenários mais alarmistas sobre a substituição total de trabalhadores. A aplicação da IA revela-se altamente seletiva, com o trabalhador mediano a recorrer a estes sistemas em apenas 21% das suas tarefas diárias.A investigação aponta ainda para uma concentração clara em tarefas de elevado valor cognitivo. Cerca de 65% das interações profissionais focam-se em atividades não-rotineiras, como a resolução estratégica de problemas, o planeamento e o design. Em contrapartida, as intenções de automação integral de processos situam-se abaixo dos 10%, demonstrando que a ferramenta é adotada maioritariamente como um parceiro colaborativo de apoio à decisão e não como um substituto do trabalho humano.Mecânicos e técnicos lideram adoçãoOutra das surpresas do estudo é o forte crescimento da IA em profissões operacionais e manuais.Técnicos automóveis e mecânicos industriais estão a utilizar assistentes de IA em tempo real para diagnosticar avarias, inspecionar maquinaria e interpretar esquemas elétricos complexos. Nestes contextos profissionais, o recurso a funcionalidades multimodais, como o envio de fotos e vídeos, é duas vezes superior à média global.A distribuição global da IA reflete, contudo, as assimetrias económicas existentes. Os países situados nos 20% mais pobres do planeta representam apenas 2% das conversas globais com IA. Mas economias de rendimento médio na América Latina – como Brasil, Peru, Colômbia e Argentina - e no Médio Oriente, designadamente a Turquia, quebram esta tendência ao apresentarem taxas de adoção comparáveis às de nações mais ricas.O estudo ATLAS foi desenvolvido por uma equipa interna independente de investigação da Google, liderada por Zanna Iscenko e Scott Strand, e contou com a revisão metodológica dos economistas David Autor, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), e Diane Coyle, da Universidade de Cambridge.