Há cerca de um ano que o conflito israelo-árabe recrudesceu, mas os mercados financeiros só agora parecem estar a reagir. Os mercados só agora “acordaram” para os riscos geopolíticos do que se passa no Médio Oriente. Porquê?Porque o que é relevante, e ainda não estava e não está totalmente descontado nos preços, é o alastrar do conflito ao Irão. Isto é particularmente relevante porque tem mais impactos em termos de mercado do petróleo, dado que pode implicar restrições nas exportações iranianas, e porque há o potencial de envolver a Rússia, Turquia e outros Estados do Golfo [Pérsico] . Em rigor, o mercado não está a descontar este cenário. Claro que, por exemplo, se Israel bombardear poços ou portos iranianos, a situação poderá mudar completamente de figura..Após o ataque do Irão a Israel, em resposta à ofensiva de Telavive sobre o Líbano, os preços do petróleo começaram a subir. No entanto, tanto o petróleo Brent, que serve de referência para Portugal e o resto da Europa, como o WTI, que é a referência do petróleo norte-americano, estão pouco acima dos 70 dólares. Qual o motivo para a situação no Médio Oriente não provocar um sobressalto maior no preço do petróleo, sendo que houve períodos não tão graves que levaram os preços a escalar bem mais?O mercado de petróleo tem estado deprimido devido a vários fatores - à cabeça, a procura não está forte, o que decorre sobretudo da desaceleração económica global e também de alguma substituição por renováveis. O mercado está muito bem abastecido em termos de oferta e, inclusivamente, a Arábia Saudita, o maior produtor, deu a entender que poderia reverter os cortes de produção autoimpostos. Por outro lado, até agora o conflito no Médio Oriente tem estado circunscrito a regiões que não são produtoras de petróleo, com produtores do Golfo a assumirem um papel algo neutral, pelo que o impacto no mercado em termos de oferta tem sido irrelevante..A situação no Médio Oriente pode pressionar ainda mais seriamente os mercados financeiros, nas próximas semanas e meses? Pode, mas depende se o conflito alastra ou não, incluindo uma participação direta do Irão, Rússia, Turquia e países do Golfo. Ou, com referi, se Israel bombardear poços ou portos iranianos, a situação poderá mudar completamente de figura. De momento, o mercado não encara esse cenário como o mais provável..A guerra entre Israel e Palestina, que se alastrou ao Líbano e envolve agora o Irão, coloca sob pressão uma zona muito relevante para as rotas comerciais de várias matérias-primas. Pelo estreito de Ormuz, que ainda está aberto e liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, passa cerca de um terço do petróleo comercializado no mundo. Também o canal do Suez, cuja crise no Mar Vermelho levou o tráfego comercial naquela zona - um dos mais importantes do mundo - a cair mais de 50% no primeiro trimestre. Como estão os mercados a observar e a reagir à instabilidade que existe nas rotas comerciais? Para já com cautela, no sentido em que os mercados estão atentos, mas sem ainda incluir nos preços os piores cenários. Também temos de ter presente que o peso do petróleo do Golfo no mercado mundial é hoje muito menor. O maior consumidor mundial, os EUA, importam agora 5 mbpd [milhares de barris por dia, unidade de medida no comércio de petróleo] e já chegaram a importar 13 mbpd. E grande parte do que importam não vem do Golfo..Este complexo quadro geopolítico, que tem efeitos comerciais, já está a influenciar o preço do petróleo. A situação poderá alastrar-se a outras matérias-primas? Quais são as mais expostas, além do petróleo? Poderá haver dificuldades nas cadeias logísticas caso o conflito alastre para a zona do Canal do Suez, o que não é esperado, ou se a navegabilidade do Mar Vermelho for condicionada, como já tem acontecido, pelos ataques [houthis] com origem no Iémen. Ou seja, receio mais constrangimentos logísticos do que o alastrar a outros mercados que não sejam os de energia..Que ativos poderão captar a atenção dos investidores, enquanto refúgio? O ouro, por exemplo, tem-se valorizado desde o início do ano, mas quais são as perspetivas? Nos últimos meses, tem sido noticiado o interesse de bancos centrais em comprar ouro para manter ou aumentar a diversificação das suas reservas e os investidores também têm sido atraídos pelo histórico de segurança do ouro, num contexto de incerteza e de algumas dúvidas em relação ao dólar americano, bem como pela perceção de taxas de juro mais baixas a prazo, o que reduz o custo de oportunidade de deter ouro, que é um ativo que não gera rendimento por si só. A médio e longo prazo, é expectável que continuem a ser atingidos novos máximos na cotação, mas não sem volatilidade. Não será um caminho de sentido único..A oscilação que se começa a observar nos mercados, devido ao Médio Oriente, poderá repercutir-se nos preços praticados junto do consumidor final? Para já não vejo motivos para tal. Os preços da energia em geral, e dos refinados em particular, não estão em alta, pelo contrário. Por outro lado, não estão ainda à vista constrangimentos políticos. As forças desinflacionistas parecem ser mais fortes, por agora..O aumento de riscos geopolíticos nos mercados financeiros vão comprometer os planos dos bancos centrais, sobretudo do Banco Central Europeu, para diminuir e estabilizar as taxas de juro? Só se viermos a assistir a um regresso da inflação, o que poderia acontecer se os preços da energia subissem muito, mas não há para já qualquer indicação de que isso vá acontecer. Na verdade, maior aversão ao risco até poderá resultar em taxas de juro mais baixas das obrigações soberanas.