As faturas a pagar ao final do mês continuam a subir e há cada vez mais famílias com a corda ao pescoço na hora de pagar as despesas correntes. O aumento do custo de vida aliado à crescente pressão com a habitação tem empurrado muitos portugueses para o endividamento, que veem nos créditos pessoais e nos cartões de crédito a única via para colocar comida à mesa e assegurar um teto para viver. O número médio de créditos por agregado voltou a aumentar até ao início de junho: em média, cada família sobre-endividada tem seis créditos contraídos, que compara com os cinco registados no mesmo período do ano passado, de acordo com os dados da Deco cedidos ao DN. “A habitação é ainda o grande sufoco que assume um enorme peso nos orçamentos das famílias, seja para quem tem créditos à habitação ou arrendamento. A isto somam-se os aumentos dos custos energéticos e do cabaz alimentar, que dispararam desde o início do ano e à boleia da guerra no Médio Oriente. Há famílias numa situação muito, muito preocupante do ponto de vista financeiro. A média é de seis créditos por família, mas temos casos de agregados com 15 responsabilidades financeiras”, relata a coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da associação, Natália Nunes.Contas feitas, e excluindo o crédito à habitação, entre créditos pessoais e cartões de crédito, as famílias acompanhadas pela Deco apresentam, atualmente, responsabilidades de crédito na ordem dos 27.500 euros, refletindo um aumento de 80 euros em comparação com o mesmo período de 2025. A associação recebeu cerca de 15 mil pedidos de ajuda até meio de junho, um número em linha com o ano anterior, o que se traduz num “grande motivo de preocupação”. “Estes valores são já de uma ordem de grandeza muito elevada e mostram que existe um problema estrutural de dificuldade já enraizado nas famílias”, refere.Apesar de o rendimento médio dos portugueses que recorrem à Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor ter subido ligeiramente para os 1400 euros, a verdade é que a margem para liquidar os encargos mensais está mais curta, principalmente devido ao crescente peso das despesas com a casa. No fim, sobra pouco ou nada para pagar as restantes necessidades. A taxa de esforço destes sobre-endividados ultrapassa os 57%, ou seja, 800 euros por mês são alocados ao pagamento de prestações de créditos. “A finalidade dos créditos e dos cartões de crédito é clara: estão a ser usados para pagar despesas básicas, as contas do dia a dia e, em muitos casos, a renda da casa”, assegura Natália Nunes. São muitos os casos de quem, em dificuldade, bate diariamente à porta do GPF. “Compreende-se que as famílias, em desespero, estejam a optar por esta via. Quando analisamos os orçamentos dos agregados e vemos o que pagam de habitação ficamos, de facto, incrédulos. Como é que estas pessoas conseguem sobreviver?”, questiona.Natália Nunes aponta ainda o dedo à banca a quem pede uma maior responsabilização. “O crédito deveria ser concedido de forma mais responsável. Continuamos a ver famílias com rendimentos mensais de 1400 euros que têm cartões de crédito de seis mil euros, alguma coisa está a falhar”, acusa..Famílias unipessoais, solteiros e trabalhadores por contra de outem são os mais endividados.Olhando para o perfil dos consumidores acompanhados pelo GPF, destacam-se “níveis elevados de endividamento”, taxas de esforço “excessivas” e uma crescente concentração de situações de vulnerabilidade entre pessoas mais jovens, trabalhadores no ativo e agregados unipessoais. A maioria dos endividados (43,1%) é trabalhador por conta de outrem no setor privado, sendo que os reformados e desempregados assumem a mesma expressão (18,6%). Já os trabalhadores do setor público representam 13,5% dos processos da associação enquanto que os trabalhadores por conta própria são os com menor representação (6,2%).É na faixa etária entre os 35 e os 49 anos que se situa o maior número de pedidos de ajuda (33,7%), seguindo-se a franja entre os 50 e os 64 anos (31,3%) e dos maiores de 65 anos (18,6%). Apesar de os mais jovens surgirem em quarto lugar, o número de sobre-endividados entre os 18 e 34 anos subiu para os 16,4% até 15 de junho (12,6% em 2025). No que respeita ao estado civil, as dificuldades apertam mais para quem está sozinho: os solteiros lideram (43,9%) e os divorciados ocupam a segunda posição (21,9%). Os casados são os terceiros mais endividados (16,8%) sucedidos pelos casais em união de facto (11,9%) e os viúvos (5,4%). A leitura à composição do agregado familiar confirma que são as famílias unipessoais, com apenas um elemento, quem mais enfrenta dificuldades com uma quota de 81,7%, sendo que os agregados com duas pessoas representam 12,3% dos casos que a Deco acompanha. As famílias mais numerosas, de três e quatro elementos, assumem pesos de 3,1% e 1,7%, respetivamente.Por fim, numa análise ao mapa nacional, conclui-se que é nas grandes cidades que o sobre-endividamento mais salta à vista. O ranking é encabeçado por Lisboa (38,8%), seguindo-se o Porto (17,8%) e Setúbal (12,1%). Na cauda, surgem cidades do interior como Vila Real (0,9%), Guarda (0,3%) e Bragança (1,2%)..Crise energética e na habitação faz aumentar pedidos de ajuda alimentar. Idosos e famílias com filhos lideram