A Ericsson Portugal realizou na última semana o Imagine Live, evento que serviu para apresentar as mais recentes inovações tecnológicas da multinacional de origem sueca, mas também para alertar que o atual clima geopolítico coloca em risco a soberania e o futuro tecnológico dos diferentes países e economias. Juan Olivera, presidente executivo da Ericsson Portugal, defendeu, primeiro em palco, que “é tempo de tomar decisões” e, mais tarde em conversa com o DN, que há o risco de “o mundo se dividir em standards [tecnológicos] diferentes”..Numa primeira intervenção, Juan Olivera afirmou que “a situação geopolítica que se vive merece uma resposta robusta por parte da Europa”, argumentando que essa resposta pode ser “a oportunidade” para assumir uma “liderança” tecnológica que garanta “um crescimento económico sustentável e um desenvolvimento digital” de vanguarda..O impacto do clima geopolítico no mundo tecnológico também se sente em Portugal. Há um ano, foi determinado que qualquer fornecedor não ocidental, que representasse um risco à cibersegurança, não poderia participar no desenvolvimento das redes 5G. Ainda que a decisão não identificasse qualquer entidade, a Huawei acabou afastada do 5G. Agora, o Governo pretende alargar o âmbito daquela decisão a outros setores críticos, para banir investidores e fornecedores estrangeiros..Questionado pelo DN, o CEO da Ericsson Portugal lembrou que “Portugal não está sozinho no bloqueio [à Huawei]” e que a famigerada caixa de ferramentas do 5G, uma recomendação da União Europeia (UE), está a suscitar “decisões diferentes” pelos países da UE. "Não comentamos isso”, declarou..“Somos um fornecedor de tecnologia, e vamos continuar a fornecer [serviços e equipamentos] no mundo todo. O que posso afirmar é que sempre que a política interfere no negócio há um risco”, reconheceu..“Vimos isso na Suécia, que tomou uma abordagem mais ou menos idêntica à de Portugal. Como consequência, se sairmos da China, acredite, o impacto para o grupo é bem maior do que estar na Suécia. Percebe onde quero chegar?”, argumentou..“A situação geopolítica é complexa”, prosseguiu, lembrando que ainda não se sabe “o que esperar da nova administração dos EUA, em termos de comércio ou tecnologia. “O risco é que, em algum momento, por causa da situação geopolítica, incluindo algumas decisões como a caixa de ferramentas do 5G, o mundo se divida em standards diferentes. E isso é um risco para a tecnologia”, afirmou, lembrando que países como a Coreia do Norte têm demonstrado vontade de desenvolver soluções próprias, com critérios diferentes dos atuais..Qual será a consequência de uma polarização de padrões e critérios? “Se isso se verificar, e o mundo [tecnológico] se dividir em diferentes standards, haverá um bloqueio à investigação e desenvolvimento [I&D], esse é o risco”, respondeu, reiterando que todos os players (fornecedores, big tech, telecom) “estão a mover-se” num cenário em que há “uma polarização política, na Europa, no mundo”..“A guerra tecnológica vai aparecer sempre atrás [nos choques geopolíticos atuais]”, disse, mencionando que nos atuais cenários de guerra, como na Ucrânia ou Médio Oriente, há também uma componente tecnológica..Poderá o agudizar de posições levar empresas como a Ericsson a ter de escolher em que mercados operar? “Espero que não”, sublinhou, explicando que empresas como a Ericsson vingam por terem uma presença global..“Se temos 150 anos de história [com operação em 180 países] não é porque somos seletivos, é porque somos globais. E se somos globais precisamos de escala. No negócio da infraestrutura a escala é crítica e com o investimento que temos em I&D precisamos de ser globais. Se o foco não for global vamos estar em perigo. Não acho que a Ericsson vá sair de mercados”, argumentou..O clima de incerteza, por outro lado, poderá representar oportunidades. Juan Olivera, que lidera o negócio da Ericsson em Portugal há dois anos, explicou que a empresa está a apostar na evolução das redes de telecomunicações “num ambiente aberto”. Acredita que essa é a tendência do setor, mencionando acordos já conhecidos entre a Ericsson e a MasOrange, em Espanha, e a AT&T, nos EUA..“Estamos a dar os primeiros passos como indústria. Vai levar tempo, mas a Ericsson está a contribuir”, disse, apostando que “o 6G vai surgir num ambiente completamente aberto”..Durante o evento Imagine Live, que se realizou em Lisboa, os responsáveis da Ericsson defenderam que o relatório Draghi sugere o “reforço dos fornecedores de equipamento e de software de telecomunicações oriundos da UE para apoiar a autonomia estratégica aberta da UE”..Quanto a Portugal, os mesmos responsáveis afirmaram “manter um diálogo” com as autoridades nacionais para o país apostar mais em conectividade, nomeadamente com recurso a fundos europeus, “tal como tem sido feito em Espanha e Itália”, que aprovaram auxílios específicos para o desenvolvimento do 5G e redes de telecomunicações. O país, segundo a Ericsson, está linha com a média europeia, no desenvolvimento tecnológico. “No caso de Portugal, a conectividade traz um vasto número de possibilidades em matéria de desenvolvimento social ou em matéria de segurança”, afirmou em palco o CEO da Ericsson Portugal, pedindo um “plano sustentado e transversal”..Questionado também sobre a entrada da Digi no mercado português, Juan Olivera disse que “ainda está por saber como irá o mercado reagir, mas mostrou-se certo de que o novo operador terá um efeito de “game changer” no mercado nacional.