As empresas portuguesas apresentam, ainda, uma “reduzida maturidade em sustentabilidade”, indica um estudo do BCSD Portugal - Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável que é hoje, quarta-feira, divulgado. O trabalho, que representa um retrato agregado 2021-2023, contou com respostas de 143 empresas e conclui que a maioria delas está ainda nas fases de definição de prioridades estratégicas e de planos de ação em termos de sustentabilidade e só uma “percentagem reduzida” está já nas fases subsequentes, envolvendo os stakeholders e dando a conhecer o que estão a fazer.Assim, e se é verdade que 85% das empresas que responderam em 2024 assume já ter definido prioridades estratégicas de sustentabilidade, a verdade é que só 49% o fez com base numa análise de materialidade. “Esta fase de análise e planeamento estratégico é, ainda, realizada de forma incompleta e com reduzida informação de base (ex.: estudos, análises, referenciais). Esta fragilidade pode dificultar a correta identificação dos principais impactos da empresa e as respetivas oportunidades de melhoria, o que poderá resultar na implementação de ações que não estejam a endereçar as questões mais prioritárias ou com maiores benefícios para a empresa e para a sustentabilidade”, pode ler-se no estudo.No que à implementação diz respeito, “a maioria das empresas” já desenvolve práticas e iniciativas de sustentabilidade. Contudo, “as ações implementadas correspondem, maioritariamente, a melhorias nos processos existentes, a chamada inovação incremental, por oposição a ações de inovação ao nível disruptivo e de completa integração da sustentabilidade no modelo de negócio da empresa”. Ou seja, 90% diz já implementar melhorias nos processos existentes, mas só 30% dizem ter estabelecido ou transformado o seu modelo de negócio de acordo com os critérios de sustentabilidade.“Esta interpretação também se faz através dos temas ESG (ambientais, sociais e de governança) mais trabalhados pelas empresas, os quais correspondem a questões já comummente endereçadas pelo mercado e cujas oportunidades de melhoria permitem, no curto prazo, às empresas tornarem-se mais eficientes, reduzindo custos, designadamente ao nível dos resíduos ou da água”, refere o BCSD no relatório. Que destaca ainda que as ações de sustentabilidade ainda se restringem aos seus processos internos e atividades diretas, “havendo apenas um reduzido número de empresas que já exercem influência na sua cadeia de valor”. Saúde e segurança, resíduos e conduta ética são o top 3 dos temas ESG que as empresas auscultadas em 2024 dizem estar a trabalhar. Em 2022 eram os resíduos, a saúde e segurança e a água. Recorrendo apenas às empresas que fizeram análise de materialidade em 2023 e 2024, os temas mais abordados são a descarbonização, economia circular, ética, saúde e segurança e igualdade e diversidade.A dimensão das empresas acaba por se revelar determinante neste caminho e, por isso, o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável pretende ser um agente facilitador nesta matéria, diz a secretária-geral do BCSD Portugal. “Há aqui uma relação direta, quanto menor é a dimensão da empresa, menor é a sua maturidade em sustentabilidade, pelo que vamos lançar um kit de estratégia, um manual elucidativo que ajude as empresas a implementarem boas práticas de gestão compatíveis com uma sociedade mais sustentável, que é aquilo que todos queremos”, explica Filipa Pantaleão. O guia deverá ser lançado em maio. Com “ampla representação setorial”, o BCSD Portugal agrega e representa mais de 190 empresas, de diferentes dimensões, das cotadas no PSI a outras de menor dimensão, e que, conjuntamente, asseguram um volume de negócios correspondente a cerca de 10% do Produto Interno Bruto nacional. E há três anos que vem auscultando as empresas associadas para perceber em que ponto se encontram naquilo que designa por Jornada 2030, composta por seis etapas: Despertar para a necessidade de ser sustentável e para as oportunidades associadas; Conhecer, com diagnóstico e estabelecimento de prioridades estratégicas; Construir, definindo planos de ação; Comunicar, envolvendo os stakeholders e dando a conhecer o desempenho; Consolidar, reavaliando a trajetória e reforçando medidas e, por fim, Coliderar, alcançando os objetivos de 2030 e definindo a ambição para 2050.“Sentimos que o maior problema das empresas continua a ser o desconhecimento de como trilhar este caminho. Não é tanto a falta de vontade, ou a dúvida que antes existia sobre se este é ou não o caminho certo, é mesmo como implementar, em termos práticos, uma estratégia de sustentabilidade”, refere a secretária geral do BCSD Portugal.