Dona da Glovo dá ‘luz verde’ a compra de 12,8 mil milhões de euros pela Uber
O tabuleiro global das entregas ao domicílio prepara-se para uma profunda reorganização. A Uber está a um passo de adquirir a alemã Delivery Hero – a dona da Glovo –, numa operação avaliada em 12.770 milhões de euros (14.800 milhões de dólares) que recebeu ‘luz verde’ da administração da cotada alemã, na passada quarta-feira, 2 de setembro, mas que deixará de fora o mercado português.
A recomendação aos acionistas é inequívoca: aceitar a contrapartida de 41,50 euros por ação em dinheiro. Para viabilizar a transação junto dos reguladores, a Delivery Hero acordou em paralelo a venda das suas operações em 14 países onde compete diretamente com a compradora – incluindo a Glovo em Portugal e em Espanha – ao fundo norte-americano SSW Partners por cerca de 1.400 milhões de euros.
Ainda assim, a consumação do negócio fecha o cerco da gigante norte-americana ao mercado internacional, unindo operações para criar um colosso com presença em 99 países e um volume de negócios combinado projetado em mais de 206 mil milhões de euros já em 2025.
“O conselho de administração e o conselho de supervisão da Delivery Hero analisaram e avaliaram de forma independente o documento da oferta publicado pela Uber, bem como os termos e condições da oferta”, justificaram as lideranças da empresa alemã em comunicado citado pela Europa Press. A conclusão foi de que a transação serve “o melhor interesse da empresa, dos seus acionistas, trabalhadores e restantes partes interessadas. Por isso, apoiam a oferta e recomendam aos acionistas da Delivery Hero que a aceitem”.
A administração da Delivery Hero alinha-se, deste modo, com os argumentos da Uber, que antecipa que a integração acelerará o desenvolvimento de produtos e criará sinergias comerciais sem paralelo no setor à escala global.
Os investidores da cotada alemã terão até ao dia 5 de novembro para validar a venda junto das respetivas entidades bancárias. Para que a operação avance, a Uber estabeleceu como condição mínima a adesão de 50% do capital mais uma ação.
A contrapartida integralmente em dinheiro de 41,50 euros por ação representa um prémio de 8% face ao fecho bolsista da Delivery Hero na sessão de terça-feira. A investida final surge depois de um cerco gradual: antes de avançar para a OPA, a Uber já detinha 24,77% dos direitos de voto da dona da Glovo e assegurava uma exposição económica adicional de 11,74% através de instrumentos derivados.
Quem é a Delivery Hero e o que muda nas entregas?
Embora a marca passe despercebida à maioria dos consumidores, a alemã Delivery Hero é a verdadeira casa-mãe de uma vasta teia internacional de plataformas de entrega rápida, incluindo a Glovo espanhola, comprada em 2022. Sediada em Berlim e cotada na Bolsa de Frankfurt, a multinacional construiu a sua dimensão através da aquisição de operadores locais de relevo, como a Talabat (no Médio Oriente) ou a PedidosYa (na América Latina).
A estratégia do grupo nunca passou por impor um nome único global, mas antes por deter os operadores mais fortes em cada geografia: além da Glovo, a Delivery Hero controla marcas como a Talabat (no Médio Oriente e Norte de África), a PedidosYa (na América Latina) e a Foodpanda (na Ásia). É precisamente esta infraestrutura logística dispersa por dezenas de países que a Uber pretende absorver para consolidar a sua liderança mundial no quick-commerce.
No mercado português, o desfecho do negócio não implicará a união do Uber Eats e da Glovo sob a mesma dona. No âmbito da transação, a Delivery Hero acordou em paralelo a venda das operações em 14 mercados onde compete diretamente com a multinacional norte-americana – incluindo a atividade da Glovo em Portugal e em Espanha – ao fundo de investimento SSW Partners por cerca de 1.400 milhões de euros. Como a Uber não assumirá o controlo destas geografias, a operação portuguesa da Glovo passará a ser gerida de forma independente pela SSW Partners, mantendo no terreno a rivalidade comercial com o Uber Eats e com a Bolt Food.
*Com retificação acerca da situação no mercado português

