O cenário global da Inteligência Artificial (IA) em 2025 revela um paradoxo: os cidadãos da União Europeia (UE) estão a adotar ferramentas de IA generativa mais rapidamente do que os norte-americanos, mas as grandes empresas dos EUA continuam a liderar a integração profunda desta tecnologia para aumentar a produtividade.Dados do Eurostat (dezembro de 2025) indicam que 32,7% da população da UE utiliza ferramentas de IA, superando os 28,3% da população ativa nos EUA (segundo o Oliver Wyman Forum). Países como Dinamarca (48,4%) e Estónia (46,6%) lideram. Portugal, no entanto, situa-se entre os 20% e os 25%, abaixo da média comunitária.O contra-ataque corporativo americanoA liderança inverte-se, no entanto, quando se olha para as organizações. Segundo a OCDE e o AI Economy Institute, o investimento privado massivo permite que as grandes corporações americanas implementem a IA como infraestrutura crítica. Nos EUA, a utilização de IA nas grandes empresas chega aos 80%, contra 55% na UE.Em Portugal, o cenário é mais contido: dados do INE revelam que apenas 11,5% das empresas utilizam IA, com um crescimento modesto de 0,8 pontos percentuais. O país enfrenta barreiras de investimento e dimensão crítica que dificultam a passagem da experimentação individual para a produtividade organizacional.Para compensar a falta de dinamismo privado, a Europa aposta no setor público. No entanto, a OCDE sugere que o foco na eficiência administrativa não cria o “efeito de volante” económico do modelo americano.Adicionalmente, o AI Act europeu, focado no rigor e conformidade, contrasta com a cultura de “experimentação rápida” dos EUA, tornando a adoção organizacional mais lenta no Velho Continente.Talento europeu, capital americanoApesar de os números demonstrarem ser um ‘celeiro’ de talento científico, a Europa padece de uma incapacidade crónica de transformar ideias em gigantes globais. Segundo o Relatório Draghi (2025) e a Science Business, quase 30% dos “unicórnios” europeus fundados entre 2008 e 2021 mudaram a sede para o estrangeiro, maioritariamente para os EUA.O fosso de investimento é abismal: o AI Index Report 2025 (Stanford) aponta que o mercado americano atraiu 109 mil milhões de dólares (81% do total global), enquanto a UE captou apenas 8 mil milhões (7%).O capital existe, mas está “preso” em depósitos bancários conservadores. O Relatório Draghi defende a União dos Mercados de Capitais e a reforma dos fundos de pensões para redirecionar poupanças para ativos de risco..As grandes corporações americanas implementam a IA como infraestrutura crítica: 80% utilizam-na, contra 55% na União Europeia. E em Portugal? Segundo dados do INE, só 11,5% das empresas utilizam sistemas de Inteligência Artificial na sua atividade. À frente deste importante dossier está a Comissária Europeia Maria Luís Albuquerque, mas o desafio é hercúleo: vencer a fragmentação do mercado e a resistência política a reformas estruturais, como a da Segurança Social.Nos últimos 50 anos, a Europa não criou uma única empresa do zero que valha mais de 100 mil milhões de euros. No mesmo período, os EUA criaram seis gigantes que valem hoje mais de um bilião (milhão de milhão) de dólares cada.Com isto, a Europa continua a ser um laboratório de ideias que gera lucro noutras geografias. E Portugal enfrenta o desafio duplo de convergir com a média europeia no uso individual e garantir que o seu tecido empresarial não perde a competência básica de sobrevivência que a IA representa.