O ritmo das exportações de mercadorias portuguesas para os Estados Unidos da América (EUA) está num dos piores momentos desde 2018, o segundo ano do primeiro mandato de Donald Trump, período que foi marcado por uma escalada da hostilidade comercial contra a Europa, algo que parece estar em vias de acontecer novamente.Por exemplo, o Presidente norte-americano anunciou, no domingo passado, que todo o aço e alumínio importados pelos Estados Unidos serão tributados a uma taxa de 25%. Isto depois de ter já imposto tarifas contra a China e de, dentro de poucas semanas, atingir dois grandes vizinhos (México e Canadá) com um agravamento alfandegário dessa proporção.Trump ameaçou a Europa numa conversa a bordo do avião presidencial (Air Force One), mas Portugal e os restantes países europeus já decidiram esperar por um anúncio mais formal e fundamentado para depois verem o que podem fazer.No caso de Portugal, a relação com os Estados Unidos, que durante décadas foi bastante boa e frutífera, com momentos de grande crescimento no plano comercial, sofreu uma travagem muito forte em 2023 e abrandou ainda mais no ano passado.Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), que ontem divulgou o balanço final do ano comercial (balança de mercadorias) de 2024, as vendas para os EUA cresceram apenas 1,5% em termos nominais, naquele que é o segundo pior registo desde 2018, o segundo ano de Trump no poder.Antes deste aumento ligeiro de 1,5% (que contrasta com um crescimento médio de 9% nas últimas três décadas), o pior registo dos tempos mais recentes aconteceu em 2020, o primeiro ano da pandemia. Mas não foram apenas as vendas para os EUA que ficaram mal, quase todos os mercados entraram em contração.Por ano (2024 é a nova referência), Portugal está a vender mais de 5,3 mil milhões de euros para os Estados Unidos, sendo que os grandes mercados são, por esta ordem: medicamentos e preparações farmacêuticas (1,2 mil milhões de euros); produtos petrolíferos refinados (mil milhões de euros); borrachas e plásticos; produtos metálicos (como aço e alumínio, no valor de 418 milhões de euros); têxteis e vestuário (465 milhões de euros).Mesmo com as complicações da pandemia e o abrandamento que acontece desde 2023, os EUA lograram subir para quarto lugar no ranking dos maiores mercados de Portugal, absorvendo 7% das vendas portuguesas de bens. Os três maiores mercados são Espanha (26% do total), Alemanha (13%) e França (12%).Ainda no mercado norte-americano, é certo que as vendas de medicamentos e substâncias farmacêuticas são o principal produto vendido aos EUA, mas este segmento também é, em valor, dos que mais caiu em 2024 (quebra de 8%) e o que mais contribuiu para o abrandamento na relação com a economia norte-americana.Segundo contas do DN com os dados do INE, estes produtos de farmácia sofreram um apagão de quase 110 milhões de euros no ano passado.A dupla madeira e cortiça também sofreu um revés importante de 27 milhões de euros.O valor faturado nos produtos e minérios metálicos (onde estão aço e alumínio) afundou 15 milhões de euros.Comissão e BCE reagemA resposta de Portugal será coordenada com o resto da Europa. Para já, fonte da Comissão Europeia (CE) diz apenas que “até à data, não recebemos qualquer notificação oficial sobre a imposição de tarifas adicionais sobre os produtos da EU” pelo que “não responderemos a anúncios gerais sem detalhes ou esclarecimentos por escrito”.Seja como for, Bruxelas diz que a Europa “não vê justificação para a imposição de tarifas sobre as suas exportações” e avisa que “reagiremos para proteger os interesses das empresas, dos trabalhadores e dos consumidores europeus de medidas injustificadas”.“A imposição de tarifas seria ilegal e economicamente contraproducente, especialmente dadas as cadeias de produção profundamente integradas que a UE e os EUA estabeleceram através do comércio e investimento transatlânticos” e “as tarifas são essencialmente impostos” pois ao impor tarifas, “os EUA estão a taxar os seus próprios cidadãos, a aumentar os custos das empresas e a alimentar a inflação”, argumenta a CE que é presidida por Ursula von der Leyen.Esta segunda-feira, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), avisou que “uma maior fricção no comércio mundial torna as perspetivas de inflação da zona euro mais incertas”, isto é, pode tornar as descidas esperadas nos juros mais lentas e curtas.Num pior cenário, em que a inflação volta a subir com o aumento tarifário, as taxas de juro podem mesmo ter de subir novamente, complicando a recuperação das economias e o alívio do peso da dívida, sobretudo nos países mais endividados, como Portugal, Grécia, Itália.Recuperação global de 2,5%Seja como for, a relação com os EUA pode já ter começado a esfriar, até mesmo antes de Trump ser confirmado como vencedor das eleições (no início de novembro passado), mas as exportações totais portuguesas até tiveram um ano menos mau em 2024.Depois de uma quebra nominal de 1,4% em 2023, em boa parte explicada pela correção em baixa dos preços do petróleo e das matérias primas, o valor das vendas portuguesas ao estrangeiro subiram 2,5% no ano passado, atingindo um recorde de 79,3 mil milhões de euros anuais.O ano foi bastante bom para os setores de “produtos farmacêuticos e preparações farmacêuticas de base”, “produtos alimentares”, “produtos petrolíferos refinados” e “produtos informáticos, eletrónicos e óticos” e a indústria do papel e cartão, só para citar os cinco maiores contributos anuais para o crescimento: neste grupo, o ganho anual ascendeu a mais de 2,5 mil milhões de euros.O ano não correu tão bem aos fabricantes de “artigos de vestuário”, “veículos automóveis”, “máquinas e equipamentos”, produtos de couro e mobiliário. Estes cinco ramos de atividade faturaram menos 900 milhões de euros no mercado externo, de acordo com cálculos do DN.Défice sobe para 28 mil milhões de eurosSegundo o INE, “os primeiros resultados anuais de 2024 apontam para aumentos nas exportações e importações de 2,5% e 1,9%, respetivamente (-1,4% e -4% em 2023, pela mesma ordem), tendo o défice da balança comercial registado um agravamento de 78 milhões de euros, para os 27,887 milhões de euros”.Isto é, o país compra ao exterior mais quase 28 mil milhões de euros do que exporta, por ano, algo que não costuma ser bem visto pelos economistas por ser um sinal de dependência externa que pode ter de ser financiado por mais dívida.O INE explica ainda que, excluindo a rubrica de combustíveis e lubrificantes, por ser uma das mais voláteis pois as cotações do petróleo e do gás costumam oscilar muito, “as exportações e as importações aumentaram 2% e 3%, respetivamente, em 2024 (+0,7% e +1,7% em 2023, pela mesma ordem)”.Da mesma forma, excluindo combustíveis e lubrificantes, “o défice da balança comercial atingiu 21,909 milhões de euros, agravando-se em 1,328 milhões face a 2023”, ou seja, o desequilíbrio comercial da economia portuguesa ainda piorou mais..Trump anuncia tarifas de 25% a importações de alumínio e aço.O impacto das tarifas Trump em Portugal deve ser levado a sério