Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal.
Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal.Foto: Reinaldo Rodrigues

Banco de Portugal revê crescimento em alta até 2027 e melhora ponto de partida para o Orçamento do Estado

Inflação média deve furar os 3% este ano, com o BdP a manter as previsões de agravamento do custo de vida até 2027. Mas prevê abrandamento mais suave do emprego. Diz que a economia está "resiliente".
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A economia portuguesa deve crescer mais neste ano e no próximo do que o esperado há cerca de três meses, e o ritmo do emprego – uma variável crucial para a atividade e que muito tem sustentado as contas públicas nos últimos anos – vai abrandar, mas bastante menos face ao que se estava a antecipar em junho, indica o Banco de Portugal (BdP), no novo boletim económico, uma publicação trimestral, divulgada esta quarta-feira (7 de outubro).

"As projeções deste boletim revêem em alta o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 (mais 0,5 pontos percentuais) e 2027 (mais 0,2 p.p.), enquanto a inflação anual se mantém inalterada face ao exercício de junho", com os preços no consumidor a subirem, em média, 3,1% este ano e 2,4% no ano que vem, diz o BdP.

"A revisão do PIB reflete principalmente a incorporação dos dados mais recentes das contas nacionais", nomeadamente, o facto de, no segundo trimestre, a taxa de variação em cadeia (trimestral) do PIB ter sido de 0,9%, mais do dobro da "projeção de 0,4%" assumida no boletim de junho.

"Este maior dinamismo concentrou-se sobretudo no consumo privado e refletiu, em parte, uma evolução mais positiva do emprego e dos salários", diz o banco central governado por Álvaro Santos Pereira.

"Adicionalmente, projeta-se agora um dinamismo superior do consumo privado no final de 2026 e início de 2027, associado às medidas orçamentais recentemente anunciadas, nomeadamente o suplemento extraordinário das pensões e a redução do IRS", enumera o BdP.

Apesar do clima tenso e negativo a nível global, por causa do choque petrolífero e das guerras em curso na Europa (Ucrânia) e no Médio Oriente, entre outros conflitos, "o impacto da revisão das hipóteses de enquadramento externo em 2027-2028 é diminuto, dado que o efeito negativo da subida das taxas de juro é compensado pela revisão em alta da procura externa dirigida a Portugal, num contexto de resiliência dos principais parceiros comerciais ao choque energético", indica o novo estudo, relembrando que, "nas projeções de setembro, o Banco Central Europeu (BCE) reviu em alta o crescimento da área do euro em 2026 (mais 0,1 p.p.) e 2027 (mais 0,2 p.p.)".

Ainda sobre este ano, "após a forte recuperação da atividade económica no segundo trimestre, projeta-se um crescimento mais moderado no terceiro trimestre e uma nova aceleração no final do ano", acrescenta o BdP.

O Ministério das Finanças e o atual Governo têm, assim, um ponto de partida visivelmente mais favorável para o ano orçamental de 2027.

A proposta de Orçamento do Estado (OE 2027) será conhecida, em princípio ainda esta semana, eventualmente até sexta-feira (9 de outubro).

O OE 2026, ainda em curso, foi feito com o pressuposto de a economia crescer 2% em termos reais. Afinal, pode vir a avançar 2,3%, aponta agora o banco central.

No boletim, a autoridade monetária indica ainda que a economia portuguesa está a ser "impulsionada pelos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), pelas medidas orçamentais e por um desempenho mais positivo das exportações" em 2026.

Depois, nos anos seguintes, "projeta-se que a atividade cresça 1,8%", ainda assim, "acima do projetado para a área do euro" até 2028, ou seja, Santos Pereira continua a ver o país a convergir com a Europa.

"A inflação deverá aumentar para 3,1% em 2026 e diminuir nos anos seguintes para valores próximos da estabilidade de preços (2,4% em 2027 e 2% em 2028), beneficiando da dissipação dos efeitos do choque energético e da moderação dos custos laborais".

"A situação do mercado de trabalho permanecerá favorável, mas antevê-se um crescimento menos acentuado do emprego, num contexto de fluxos migratórios inferiores aos observados em 2021–2024", pelo que "o emprego deverá aumentar 1,7% em 2026, 0,7% em 2027 e 0,3% em 2028, enquanto a taxa de desemprego deverá situar-se em 5,6% [da população ativa]", indica o comunicado do BdP.

"A composição do crescimento deverá alterar-se, com uma redução do contributo do consumo privado e um maior contributo das exportações", ao passo que "o rendimento real das famílias deverá abrandar, refletindo a desaceleração das remunerações e, em 2026, também o impacto da subida não antecipada dos preços".

Seja como for, o ambiente é arriscado e pode reverter-se em perdas e dificuldades para a economia, algo que tem sido contido até agora.

O BdP repete o que dizem as principais instituições económicas e outras entidades sobre Portugal e a zona euro. Diz que "os riscos são predominantemente em baixa para atividade e em alta para a inflação, sendo condicionados principalmente pela evolução das tensões geopolíticas no Médio Oriente".

Avisa ainda que "a intensificação ou o prolongamento do conflito poderão gerar novos aumentos dos preços da energia, perturbar as cadeias de abastecimento e deteriorar a confiança, penalizando a atividade e aumentando as pressões sobre os preços".

E alerta que "existe ainda a possibilidade de uma correção abrupta dos mercados financeiros, desencadeada por uma reavaliação das expectativas de rendibilidade dos investimentos em inteligência artificial ou por receios relativamente à situação orçamental de diversas economias".

Por fim, mas não menos importante, o governador deixa o habitual recado ao ministro das Finanças e ao Governo sobre o que espera da gestão orçamental do próximo ano e seguintes. "A recente instabilidade nos mercados internacionais de dívida reforça ainda a importância de preservar o equilíbrio orçamental e a trajetória de redução do endividamento público em Portugal".

Este boletim não atualiza projeções para as variáveis orçamentais (saldo e dívida), algo que só ocorre nas edições de junho e dezembro.

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