António Ramalho tem uma vasta experiência no setor financeiro. Licenciado em Direito, desenvolveu grande parte da sua carreira na banca, tendo desempenhado funções de liderança em várias instituições de referência. Destacou-se como Presidente Executivo do Novo Banco, onde liderou um complexo processo de reestruturação e estabilização da instituição. Ao longo do seu percurso, assumiu também cargos de elevada responsabilidade noutras organizações financeiras nacionais e internacionais, sendo reconhecido pela sua visão estratégica, capacidade de gestão e liderança em contextos de transformação. Foi o primeiro orador no Fórum Atlântico Futuro, onde partilhou a sua experiência sobre liderança, mudança e desafios económicos.“O mundo está com um nível de incerteza muito menor do que aquilo que nós poderíamos pensar.” Foi assim que António Ramalho abriu a sua intervenção, no arranque do Fórum Atlântico Futuro, iniciativa que reúne mensalmente, no Hotel Farol Design em Cascais, cerca de quatro dezenas de personalidades de áreas diversas — economia, justiça, setor social, saúde, agricultura, segurança, artes e comunicação — para refletir sobre a sociedade e o mundo. A ambição é criar um espaço de pensamento plural, sem vocação partidária ou movimento cívico, onde se possam discutir, de forma franca, os dilemas estratégicos de Portugal e da Europa.António Ramalho desafiou a ideia instalada de que vivemos um tempo excecionalmente volátil. Para o gestor, criou-se “uma espécie de narrativa consensual de que estamos num mundo de incertezas terríveis”, mas essa narrativa não encontra correspondência plena nos indicadores económicos nem no comportamento das empresas.“A incerteza é a imprevisibilidade daquilo que vai acontecer aos eventos futuros que nós desconhecemos”, começou por enquadrar. No entanto, acrescentou, “temos um mundo que é razoavelmente previsível. Previsível na sua imprevisibilidade”. Ou seja, a sucessão de declarações disruptivas, tensões geopolíticas e choques políticos deixou de surpreender verdadeiramente os agentes económicos. “Essa imprevisibilidade de tão natural que se tornou acabou por não trazer particulares reflexos imediatos na nossa sociedade”, afirmou.Para sustentar esta tese, António Ramalho percorreu vários indicadores. Referiu que o crescimento do PIB mundial em 2023 e 2024 foi idêntico, “cerca de 3%”, com uma estimativa de 3,1% para 2025. “Nem se pode dizer que o crescimento seja diferenciado”, observou. Também a dívida pública global tem oscilado entre 94% e 95% do PIB mundial, sem ruturas abruptas. Nos mercados financeiros, apesar das crises sucessivas narradas no espaço mediático, os índices acionistas acumularam valorizações relevantes na última década..“Parece existir aqui uma estranha disfuncionalidade entre aquilo que é a maneira como os mercados avaliam, a maneira como o crescimento da economia se verifica, e aquilo que é a nossa perceção sobre as narrativas dominantes”, resumiu. Na sua leitura, os mercados parecem “desconhecer totalmente aquilo que se passa com o mundo político e geopolítico”, reagindo mais a fundamentos económicos do que a declarações inflamadas.A análise avançou depois para o impacto das políticas económicas associadas a Donald Trump. António Ramalho identificou no recurso às tarifas aduaneiras o “único verdadeiro modelo ideológico” da administração norte-americana recente: através do aumento de taxas sobre importações, procurar simultaneamente reforçar o mercado interno e reduzir a dívida pública.Contudo, considerou que essa estratégia parte “de um horrível erro técnico”: assumir que uma mesma taxa pode travar importações e, ao mesmo tempo, criar incentivos suficientes para substituir rapidamente esses bens por produção interna. “Há deferimento no tempo entre aquilo que é uma taxa sobre o consumo e aquilo que é o resultado do investimento”, sublinhou. Na sua perspetiva, o risco é que o efeito imediato seja apenas o encarecimento dos bens, sem uma resposta produtiva equivalente.Esta dinâmica, defendeu, acelera uma transformação estrutural: “Quer queiramos quer não, a globalização terminou.” Para António Ramalho, o modelo assente numa confiança crescente, numa moeda dominante e em cadeias globais altamente integradas está a dar lugar a uma organização macrorregional. “Hoje a solução vai ser o mercado macrorregional”, afirmou, antecipando um mundo dividido em grandes blocos económicos com maior autonomia estratégica.Essa transição implicará, segundo o gestor, um esforço significativo de reindustrialização em várias geografias. Regiões que abandonaram setores considerados não estratégicos terão de recuperar capacidades produtivas, ainda que isso implique custos acrescidos. Ao mesmo tempo, a transição energética continuará a ser determinante. “Não se consegue competir com custos de base muito diferentes”, observou, referindo-se ao impacto dos preços da energia na competitividade europeia.A Europa foi outro dos focos centrais da intervenção. António Ramalho descreveu a Europa como “um paraíso total” em termos de Estado Social, equilíbrio e coesão, representando cerca de 17% do PIB mundial e mantendo um perfil superavitário nas trocas externas. Porém, acrescentou, “está estagnado há 25 anos”. O continente vive, na sua leitura, um drama de crescimento anémico quando comparado com outras regiões.O gestor referiu o debate suscitado pelo relatório de Mario Draghi, que identifica um forte “innovation gap”, problemas de descapitalização, dificuldades na competitividade e dependências estratégicas. António Ramalho reconheceu mérito em vários diagnósticos, mas sublinhou que a diferença face aos Estados Unidos resulta sobretudo da revolução tecnológica que ali se consolidou nas últimas duas décadas. “O que distinguiu os Estados Unidos nos últimos 25 anos da Europa foi o crescimento tecnológico”, afirmou.“As grandes empresas tecnológicas dominam estruturalmente toda a bolsa norte-americana e não existiam há 20 anos”, acrescentou. Para António Ramalho, a Europa falhou essa revolução, apesar de formar quadros altamente qualificados. “Toda esta inteligência tecnológica que foi desenvolvida e que deu crescimento é europeia”, disse, defendendo que o problema reside nos incentivos, na escala e na capacidade de assumir risco..A proposta de maior federalização europeia, com decisões por maioria e mutualização de dívida, foi apresentada como uma das respostas possíveis. O gestor reconheceu que a fragmentação, nomeadamente na defesa, reduz eficiência e escala. Ainda assim, deixou uma interrogação de fundo: “Estão vocês todos disponíveis para serem europeus e não serem portugueses?” Para António Ramalho, a integração não deve significar a diluição das especificidades nacionais.“Criar os Estados Unidos da Europa apenas porque tivemos a gerir pior o nosso crescimento do que os Estados Unidos nos últimos anos não sei se é uma decisão completamente refletida”, afirmou. Defendeu antes um modelo em que existam “layers de decisão que sejam totalmente europeus” coexistindo com “layers de decisão que sejam totalmente e especificamente de um determinado país”.No caso de Portugal, o dilema é particularmente sensível. “Portugal vai ter de decidir se quer, pura e simplesmente, ser uma província europeia”, disse, ou se prefere encontrar “os seus desígnios de diferenciação”. Entre esses desígnios apontou o mar e a economia azul, lembrando que o país possui um dos maiores espaços marítimos do mundo.“A economia azul é hoje muito mais do que pescas”, afirmou, enumerando áreas como shipping, cabos submarinos, comunicações e data centers. Para o gestor, não faz sentido que um país com esta dimensão marítima não transforme esse ativo num eixo estratégico. A par disso, destacou uma vantagem menos tangível: a capacidade histórica portuguesa de estabelecer pontes e relações amplas, numa lógica de abertura e de soft skills internacionais.“Os portugueses não encontrarão vantagens competitivas naquilo em que são iguais aos outros. Encontram naquilo em que são diferentes”, sublinhou. E um desígnio estratégico, acrescentou, implica escolhas claras: “Passa, não pelo mérito de dizer sim, mas pelo mérito de saber que para certas coisas há que dizer não.”Na parte final da intervenção, António Ramalho centrou-se nos desafios demográficos e orçamentais. O envelhecimento, disse, é uma inevitabilidade europeia, americana e asiática, com custos elevados. “Nós vamos viver mais tempo”, afirmou, lembrando os avanços na investigação tecnológica e farmacêutica que prolongam a longevidade.Esse prolongamento da vida tem consequências financeiras evidentes. A par do aumento das despesas com defesa, da transição energética e do investimento em competitividade, torna irrealista qualquer expectativa de redução estrutural da despesa pública. “Esqueçam a possibilidade de isso significar uma redução da importância e dos custos do funcionamento do Estado. É impossível”, declarou.A questão central passa, por isso, pela eficiência. “O Estado somos nós”, lembrou, defendendo que a transferência de recursos para financiar deveres de solidariedade estruturante tem de ser feita com sensibilidade, competência e transparência. Num contexto em que a dívida pública portuguesa desceu para níveis inferiores à média europeia e mundial, o recurso adicional ao endividamento significaria transferir encargos para as gerações futuras.António Ramalho alertou ainda para o risco de tensões geracionais num sistema democrático em que a estrutura etária do eleitorado tem peso crescente. A sustentabilidade do modelo social dependerá da capacidade de equilibrar direitos adquiridos com oportunidades para os mais novos. “Nós neste momento, pela primeira vez na vida, não temos a certeza de oferecer aos nossos filhos um mundo melhor do que aquele que nos ofereceram”, afirmou. “Isto vai obrigar a abdicar de direitos presentes que serão dificeis de preservar no futuro”.A intervenção terminou com um apelo à reflexão coletiva. “A soma da vontade coletiva é sempre a soma das vontades individuais”, recordou, sublinhando que a democracia exige participação consciente nas escolhas estratégicas. O objetivo, disse, não é proclamar certezas, mas abrir espaço a dúvidas fundamentadas. “Nenhuma certeza, muitas dúvidas.”Foi nesse espírito que António Ramalho deixou uma mensagem de exigência e responsabilidade. Num mundo em transformação — menos incerto do que parece, mas mais complexo do que se admite — as escolhas estratégicas não podem ser adiadas. Entre a integração europeia, a redefinição da globalização e a afirmação de um projeto nacional distintivo, o gestor convocou os participantes a pensar o futuro com realismo. Não para alimentar alarmismos, mas para assumir que, como disse, “um desígnio estratégico passa por saber o que queremos ser — e por ter coragem para escolher”..António Ramalho: Alterações no consumo podem causar disrupções em algumas empresas.António Ramalho: Ainda há riscos em torno do crédito malparado