Além do Estreito de Ormuz, que é vital para o fluxo de petróleo e gás entre os países do Golfo Pérsico e o resto do mundo, há outro estreito que pode vir a ser barrado pelas forças do Irão com a ajuda dos guerrilheiro Houtis, do Iémen, alertou Ali Akbar Velayati, um alto-conselheiro para assuntos internacionais junto do Líder Supremo e da cúpula dos aitaolas do Irão. É um homem do regime profundo, tendo sido ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) durante mais de 15 anos.Através de Ormuz flui cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e gás, e a esmagadora maioria do escoamento do gás do Qatar e do Irão para o resto do mundo, sobretudo para a Ásia.Mas pelo Estreito de Bab al-Mandeb -- a rota que liga o Oceano Índico ao Mar Vermelho e depois ao Canal do Suez e, ato contínuo, ao Mediterrâneo e ã Europa -- flui quase 15% do comércio mundial de mercadorias, e não é só petróleo. É quase de tudo um pouco. Repartindo estes 15%, estamos a falar de 10% em comércio global de bens não energéticos e 5% de petróleo.Se ambos os estreitos ficarem encerrados, o corte no abastecimento mundial de petróleo agravar-se à dos atuais quase 20% para 25%, basicamente.Numa altura em que se vive um choque de proporções históricas nos preços da energia (esta segunda-feira, o barril de Brent subiu novamente até aos 111 dólares, tendo já superado os 119 dólares há escassas semanas), que começa a refletir-se no custo dos alimentos e em muita inflação, que pode levar e deve levar a uma nova subida de taxas de juro, a ameaça Bab al-Mandeb só vem agravar ainda mais a atual crise mundial.Em cima da interrupção de Ormuz, surge agora um cenário de choque duplo na economia mundial se se concretizar o fecho de Bab al-Mandeb, uma faixa marítima exígua com cerca de apenas 30 quilómetros de largura, entre o sul do Iémen e o norte de Djibuti e Eritreia.Este estreito é, há anos, efetivamente controlado pelas forças militares Houtis, do Iémen, aliados do Irão, sendo totalmente apoiados pelo regime dos aiatolas. Esta nova ameaça é, assim, mais um passo na escalada entre o regime do Irão e os EUA. Donald Trump, o Presidente norte-americano, fez um ultimato a Teerão, exigindo a reabertura de Ormuz até à 1h da manhã desta quarta-feira (hora portuguesa).Na sua conta na rede social X (antigo Twitter), Ali Akbar Velayati, político veterano e altamente respeitado na liderança do regime iraniano, escreveu, este último domingo, que "atualmente, o comando unificado da Frente de Resistência olha para Bab al-Mandeb da mesma forma que olha para Ormuz"."Se a Casa Branca ousar repetir os seus erros tolos, depressa perceberá que o fluxo global de energia e comércio pode ser interrompido com um único golpe", acenou o conselheiro.“O insensato presidente dos Estados Unidos ameaçou atacar as infraestruturas elétricas do Irão! Os governantes dos países árabes deveriam, para evitar que a região fique às escuras, fazer Trump compreender que o Golfo Pérsico não é lugar para jogo”, acrescentou.O alto-responsável diz que “Os Estados Unidos aprenderam História com o Irão, mas ainda não compreenderam a geografia do poder", declarando ainda que "houve um tempo em que os antepassados dos anglo-saxónicos procuravam fogo nas grutas, enquanto Dário, o Grande, ligava o Mediterrâneo ao Mar Vermelho através de um canal para facilitar a navegação — quando o conhecimento iraniano lançava as bases do progresso científico global", defendeu o também professor da Universidade de Ciências Médicas Shahid Beheshti.Velayati foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante mais de 15 anos, de dezembro de 1981 a agosto de 1997, nos governos do primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi e dos Presidentes Ali Khamenei e Akbar Hashemi Rafsanjani.Corte no fluxo de petróleo e gás podia subir de 20% para 25%Segundo a Al-Jazeera, a rede de televisão global com sede no Qatar, o Estreito de Bab al-Mandeb "é uma rota vital através da qual a Arábia Saudita envia o seu petróleo para a Ásia".Mesmo quando Ormuz está aberto, Bab al-Mandeb é também "uma passagem crucial para outros países do Golfo, para além da Arábia Saudita, exportarem petróleo bruto, gás e outros combustíveis para a Europa através do Canal do Suez ou do Oleoduto Sumed (Suez-Mediterrâneo), na costa egípcia do Mar Vermelho".Segundo a Al-Jazeera, "em 2024, cerca de 4,1 mil milhões de barris de petróleo bruto e derivados passaram pelo estreito – o que representa 5% do total mundial", ou seja, se ambos os estreitos (Ormuz e Bab al-Mandeb) ficarem encerrados ao mesmo tempo, o bloqueio mundial de fornecimento de petróleo e gás sobe para 25% do total, como referido."Não se trata apenas de petróleo: cerca de 10% do comércio global passa pelo Bab al-Mandeb, incluindo contentores enviados da China, Índia e outros países asiáticos para a Europa", sendo que, estando o Estreito de Ormuz encerrado, a importância do Bab al-Mandeb só aumenta, por ser a única rota alternativa mais próxima.O desvio de navios (tanques petrolíferos e porta-contentores) por rotas mais afastadas da guerra, como por exemplo, pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, custaria mais 11 a 20 dias de viagem, o que elevaria os custos de transporte e das mercadorias para a Europa ou América, por exemplo, para valores eventualmente estratosféricos e impraticáveis.