Não vão “cheios de pica”, nem para “o sol da Caparica”. Mais de quatro décadas depois do êxito dos Peste & Sida, o destino de verão de muitos turistas este ano não será o principal polo balnear da margem Sul do Tejo. O receio da falta de água está a levar centenas de famílias com férias marcadas para a região a optar por uma mudança de planos de última hora, originando uma vaga de cancelamentos nos estabelecimentos de alojamento turísticos da zona.“Gostaria de o informar que hoje não havia água na casa de banho, nem para descarregar a sanita, nem para lavar as mãos ou escovar os dentes. Partilhar uma casa de banho e não ter água é insuportável”. Esta foi uma das mensagens que Francisco Ribeiro recebeu de um dos seus hóspedes no início do mês, quando as torneiras ficaram completamente secas.O proprietário, que gere 15 unidades de alojamento local (AL) com capacidade para 80 pessoas, entre a Charneca da Caparica e a Costa de Caparica, ainda está a fazer os cálculos aos prejuízos. “Entre reembolsos, cancelamentos e ofertas de noites, contabilizei mais de 10 mil euros nas últimas numa estimativa inicial, mas será, certamente, um valor superior ”, conta ao DN. Apesar de o abastecimento ter sido regularizado entretanto, e não se terem verificado novos cortes, o impacto continua a sentir-se diariamente através da anulação das reservas.“Uma hóspede que vinha, no início de agosto, com os filhos, preferiu cancelar porque não há garantias de que água não volte a falhar e nós, enquanto proprietários, não as conseguimos dar. Outro caso é de uma senhora que vinha acompanhada de uma pessoa com problemas oncológicos e não quis arriscar”, ilustra.Estes são apenas alguns dos exemplos partilhados pelo empresário que aponta o efeito mediático na atividade. Além do protagonismo negativo que a cidade ganhou, através das notícias que encheram jornais e peças nas televisões, pesam ainda os comentários públicos nas plataformas de marcação online e cuja repercussão é maior junto dos clientes estrangeiros. Os turistas que visitaram o território no início de julho levaram nas malas, como souvenir, a má experiência de umas férias onde, à exceção dos mergulhos no mar, o contacto com a água foi escasso.“Temos avaliações com a pontuação de um valor (numa escala de um a 10) e, por exemplo, um comentário a dizer ‘horrível devido à falta de água’”. Como é que isto vai afetar o negócio nos próximos tempos? Não sei, são coisas difíceis de calcular”, desabafa Francisco Ribeiro.As dúvidas sobre o futuro são partilhadas por Cláudia Fernandes, que gere seis imóveis de AL na Costa de Caparica. Se as últimas semanas se fizeram de desafios na operação, as próximas desenham-se de incerteza. “Recebi um turista dos Estados Unidos que escreveu na plataforma, num comentário que é visível a qualquer outro hóspede, que se está a viver este pesadelo. Naturalmente que quem lê aquilo se calhar pensa duas vezes antes de marcar a sua estadia”, diz. A proprietária não tem dúvidas de que este será “um efeito multiplicador”.“Geralmente recebemos famílias que vêm sempre de um ano para o outro e, provavelmente, quem veio este ano e se confrontou com estes constrangimentos não irá repetir”, aposta.Mesmo que nos próximos meses de época alta o abastecimento de água não volte a ser um transtorno, os danos à reputação estão feitos, concordam em uníssono os empresários, uma visão defendida também pela Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP).“O que aconteceu é um problema gravíssimo num destino, principalmente de praia, e que estava já a ganhar alguma projeção. Este quadro prejudica bastante a imagem”, refere o presidente da associação, Eduardo Miranda. Na hotelaria, o cenário não difere. O quatro estrelas Tryp Lisboa Caparica Mar confirma ao DN que “lamentavelmente” os cancelamentos de reservas no seguimento dos acontecimentos recentes tem sido uma realidade.“É um tema mediático de conhecimento público que impacta com o conforto básico de quem se hospeda num hotel, inevitavelmente há uma retração do mercado. A nossa principal preocupação é que a publicidade negativa acabe por afetar a imagem e a atratividade do destino”, explica o diretor da unidade, Gonçalo Proença. Os cancelamentos vêm pressionar ainda mais a operação de um verão onde a procura já estava a arrefecer. “Verifica-se um decréscimo visível no número de turistas nas praias da frente marítima da Caparica”, indica ainda Gonçalo Proença.Contrariando os argumentos da autarquia de Almada, que justificou as complicações no abastecimento de água com o aumento do consumo, Francisco Ribeiro relembra que as falhas não são um problema novo nem exclusivo do verão. “Acontece todos os anos e o argumento do incremento da afluência não é justificação. Este ano estou a ter menos reservas e só entre maio e junho faturei menos 45 mil euros face a 2025”, retrata..Reservas de água em Almada recuperam para 46% e SMAS lança dashboard de monitorização