O anúncio de que a União Europeia (UE) e a Índia tinham chegado, após 18 anos de negociações, a acordo para “o maior de todos os acordos comerciais” foi genericamente aplaudido por todos os países do bloco económico. Em Portugal, há vários setores que deverão ser beneficiados, ainda que a Índia não tenha sido, ao longo dos anos, um óbvio mercado de exportação para os produtos nacionais.O anúncio de que a União Europeia (UE) e a Índia tinham chegado, após 18 anos de negociações, a acordo para “o maior de todos os acordos comerciais” foi genericamente aplaudido por todos os países do bloco económico. Em Portugal, há vários setores que deverão ser beneficiados, ainda que a Índia não tenha sido, ao longo dos anos, um óbvio mercado de exportação para os produtos nacionais.No que diz respeito aos vinhos, Portugal vende atualmente um valor praticamente residual para a Índia - em 2024, o ano mais recente para o qual há números definitivos foram cerca de 300 mil euros, de entre um total de €9 milhões que o país exporta - mas poderá haver, com este novo incentivo, espaço para crescer.O acordo agora firmado prevê que as taxas sobre vinhos europeus caiam dos atuais 150% para 30%, num prazo de sete anos - podendo chegar aos 20% nos produtos mais premium. “Naturalmente, congratulamo-nos quando há este tipo de acordos entre UE e outros países. O Chile e a Austrália, por exemplo, usam muito os seus vinhos como bandeiras dos seus países e a União Europeia também está a seguir esse caminho, e também se lembra dos vinhos e isso é positivo”, adianta Frederico Falcão ao Diário de Notícias. Este acordo, continua, “vai permitir-nos competir com outros países” que já tinham condições mais favoráveis para exportar para Índia, reconhece. “Como princípio, claro que é bom, mas a Índia é um mercado pequeno para Portugal”, salienta. “E não podemos esquecer de que 80% da população é hindu e, portanto, não bebe bebidas alcoólicas. Estima-se que haja 10 milhões de habitantes que consomem bebidas alcoólicas - potencialmente podem chegar a 50 milhões - mas isso ainda é menos de 5% da população ativa”, salienta.“É um mercado para vinhos relativamente pequeno, para Portugal tem uma importância relativamente baixa”, até porque o consumo de bebidas alcoólicas está mais ligado ao whisky, graças ao “papel que os ingleses tiveram a promove-lo e a levá-lo, ao longo da História”, recorda. De qualquer forma, “é um mercado que se pode tornar mais interessante”, acredita Frederico Falcão.“No entanto, não acredito que nos próximos 10 ou 15 anos vá ser um mercado interessante para os vinhos, globalmente falando, e para os portugueses, em particular”, admite..Tarifas de 200% sobre vinho nacional é cenário “altamente preocupante”.Portugal tem estado a fazer cada vez mais esforços para promover as suas referências além-fronteiras, e tem estado a conquistar mercados em redor do mundo, com particular incidência nas Américas. Antes dos solavancos provocados pela guerra comercial iniciada por Donald Trump, os EUA eram mesmo o principal mercado internacional para os vinhos portugueses - o Brasil ficou, entretanto, com o primeiro lugar do pódio, graças à quebra do mercado americano.Por isso mesmo, continua Frederico Falcão, todos os acordos que possam ser feitos entre a UE e outros países são de saudar. O presidente da ViniPortugal considera mesmo que “com a China devíamos fazer igual”. Com o “Canadá e o Japão já temos alguns, mas é bom que a UE vá fazendo estes acordos e abrindo outras portas para um setor que tem sido muito impactado. É sempre positivo”, remata.A “mãe de todos os acordos”A “mãe de todos os acordos”, como o definiu Ursula von der Leyen, ainda não é uma realidade legal. O que foi anunciado é uma “conclusão política” das negociações. Agora começará um processo de revisão jurídica e a tradução para todas as línguas oficiais da UE.Na prática, o acordo põe um fim ao histórico protecionismo dos indianos ao seu mercado. Cerca de 96,6% das exportações europeias deixam de ser tão afetadas por barreiras tarifárias erguidas pelo governo da Índia.A UE e a Índia acordaram quotas para a exportação de automóveis, 160 mil unidades para carros com motores a combustão e 90 mil elétricos. Os exportadores automóveis europeus vão poder vender para a Índia com uma taxa aduaneira que se reduzida gradualmente até aos 10%.Por seu lado, a Índia conseguiu obter alterações na mobilidade dos seus cidadãos que já pretendia há muito tempo: vai ser posto em prática um sistema de “via verde” para talento tecnológico e científico. Ou seja, mais vistos para cidadãos indianos, cuja mobilidade para a UE visa diminuir o défice de engenheiros na Europa. Os investigadores indianos vão poder participar em programas como o “Horizonte Europa”.E riscos, há? Sim, o acordo tem de ser aprovado pelos 27 Estados-membros e pelo Parlamento Europeu. O que faz lembrar o acordo com o Mercosul, fechado politicamente em 2019, mas que foi congelado legalmente durante anos. Também aqui se pode repetir o cenário.