O choque petrolífero continua a ganhar forma, com o barril de petróleo Brent, a referência para Portugal e a maioria dos países europeus, a negociar já acima dos 85 dólares, mais 18% do que antes do início da guerra contra o Irão (no sábado).Perfila-se um aumento pronunciado do custo dos combustíveis já na próxima segunda-feira, mas há outro encargo que está a ganhar dimensão: o custo dos fertilizantes (adubos), uma matéria prima que irá imputar diretamente na produção dos bens agrícolas e na exploração animal.Depois do petrolífero, um choque alimentar parece também estar a formar-se.Alguns dos maiores produtores de fertilizantes agrícolas (alguns derivados da matérias primas como o azoto) estão localizados no Médio Oriente e grande parte destas mercadorias é expedida por via marítima através do Estreito de Ormuz, atualmente fechado (ou quase), que é controlado pelo Irão.Portugal e muitos países da Europa estão em maus lençóis. O preço dos alimentos importados deve disparar, avisam vários analistas.A economia portuguesa tem uma débil soberania alimentar há décadas. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o país teve de importar 5,1 mil milhões em produtos agrícolas no ano passado, mais 8% do que em 2024, segundo cálculos do DN/DV.Nos fertilizantes, essenciais para a produtividade das culturas, a dependência também é enorme e crescente: em 2025, os produtores portugueses importaram 342 milhões de euros em adubos, mais 8% do que no ano precedente.E o problema estende-se ao mercado da carne, no qual Portugal também é altamente deficitário. É problemático na medida em que a criação de nimais depende largamente de rações que são feitas de cereais, gorduras e óleos vários, tudo matérias que dependem muito da capacidade de fertilizantes.No ano passado, Portugal importou um equivalente a 2,1 mil milhões de euros em carne, valor que traduz um aumento anual expressivo de 22%. O valor gasto em animais vivos comprados ao exterior também subiu (4%), totalizando 263 milhões de euros.Europa em maus lençóisA equipa de economistas da agência de ratings Morningstar DBRS, que segue a agroindústria, mostra-se preocupada e, alerta, desde logo, que os países europeus, sobretudo os mais dependentes em termos agrícolas, serão dos mais afetados do mundo com um cenário destes.Se este conflito no Médio Oriente continuar "podemos ter um impacto significativo em cadeia, com os consumidores a pagarem o preço, uma vez que a menor aplicação de azoto [um dos principais componentes dos adubos] se traduz geralmente em rendimentos agrícolas inferiores e, consequentemente, em preços mais elevados dos alimentos", dizem os analistas da DBRS."Esta perturbação no fornecimento representa um obstáculo adicional para o mercado de fertilizantes, depois de a China ter imposto regras rigorosas às exportações de ureia em 2024 para dar prioridade ao fornecimento aos agricultores nacionais".Pior: "A União Europeia (UE) exporta fertilizantes da Bélgica e dos Países Baixos; no entanto, obtém 15% do potássio e 11% do fosfato que necessita de Israel e 30% do azoto vem do Egito". Há pouca margem para dúvidas, aqui: "as exportações de ambos os países serão provavelmente afetadas negativamente e de forma significativa pelo conflito"."A exposição da UE a fornecedores de países do Golfo Pérsico torna-a vulnerável a flutuações de preços e restrições na cadeia de abastecimento" e "a escassez dessas matérias-primas para fertilizantes pode levar os agricultores europeus a utilizarem menos fertilizantes nas culturas, o que pode conduzir a preços mais elevados dos alimentos e até mesmo à escassez de alimentos se o conflito persistir", alertam."Os EUA, por outro lado, obtêm a maior parte dos seus fertilizantes internamente ou do Canadá, sendo que apenas 13% do seu fosfato provém do Médio Oriente", pelo que, "os agricultores e os consumidores americanos estão, portanto, mais protegidos".Segundo o mesmo estudo, "a indústria de fertilizantes poderá ser materialmente afetada devido à interrupção regional na produção e no transporte de amoníaco e azoto, elementos essenciais em muitos fertilizantes", dizem os mesmo analistas.Atualmente, "os fatores convergentes afetarão a cadeia de abastecimento global de fertilizantes".E porquê? "Porque a região do Golfo Pérsico alberga algumas das maiores fábricas de fertilizantes do mundo, e cerca de 25% a 35% do comércio global de matérias-primas para fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz"."O seu encerramento irá, assim, interromper o transporte de amoníaco e azoto [nitrogénio], o que tenderá, por sua vez, a aumentar os custos de produção de fertilizantes e a restringir a cadeia de abastecimento global de azoto e fosfato".Neste estudo, assinado por cinco especialistas da DBRS, divulgado esta semana, lembram que "Israel e Egipto — grandes fornecedores — são afetados pelo conflito"."Além disso, o próprio Irão é o quarto maior exportador mundial de ureia (a seguir a Rússia, Egito e Arábia Saudita), um produto derivado do azoto e o fertilizante mais utilizado no mundo", avisam.Várias potências agrícolas mundiais, como Brasil, Índia ou Austrália, estão já sob alto stress, referem outros especialistas."Após os ataques às infraestruturas energéticas iranianas, que começaram em junho de 2025 e foram retomados durante os atuais ataques aéreos, várias instalações de produção de ureia e amoníaco no país foram forçadas a encerrar ou a reduzir significativamente a sua produção. Isto poderá agravar ainda mais a escassez global de azoto e aumentar o seu preço", acrescentam os analistas da agência de ratings.Um problema em escadinhaMas um mal nunca vem só, vem em escadinha, como se costuma dizer.Segundo o mesmo estudo, "a produção de azoto depende do fornecimento de gás natural, portanto, o encerramento das centrais de gás natural na região do Golfo terá também um impacto significativo na cadeia de abastecimento de matérias-primas e nos respetivos preços".Recorde-se que o Qatar, um dos maiores produtores e gás do mundo, já fechou a maior fábrica de gás natural liquefeito (GNL) após um ataque direcionado com drones vindo do Irão. Assim, "qualquer interrupção prolongada no fornecimento de GNL do Qatar pode aumentar os preços do gás natural entregue, elevando, consequentemente, os custos da produção de fertilizantes".Maria Mosquera, analista da consultora agrária Argus e editor da revista especializada Argus Media, sublinha que "a Qatar Energy (QE) anunciou que vai interromper a produção de enxofre, bem como a de GNL e de todos os produtos associados". "A capacidade de produção de enxofre da QE é de cerca de 3,8 milhões de toneladas por ano, prevendo-se que as exportações para 2025 totalizem 3,4 milhões de toneladas". Para a especialista isto representa o cancelamento (para já temporário "de cerca de 8% do comércio global de enxofre por via marítima, segundo as estimativas da Argus".Mosquera acrescenta ainda o perigo que esta disrupção representa para várias nações asiáticas, mas também para o Brasil e a Austrália."A Adnoc, empresa petrolífera e química estatal de Abu Dhabi, fixou o preço oficial de venda de enxofre para março no subcontinente indiano nos 530 dólares por tonelada"."Mas estes preços já estão muito acima da gama de preços spot da semana passada, estimada em 494-496 dólares por tonelada a 26 de fevereiro, antes do ataque dos EUA e de Israel ao Irão".Além disso, outros observadores reparam que a escalada do conflito e o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz levaram a um aumento dos preços do combustível marítimo e dos prémios de seguro, bem como a atrasos na movimentação de navios ou mesmo a interrupção da maioria dos fretes agendados para o transporte de mercadorias."Quase metade das exportações globais de enxofre por via marítima estão retidas e os preços propostos para mercados com entrega direta aumentaram substancialmente, com algumas ofertas para a China, Indonésia e Índia indicadas na faixa de 570-600 dólares por tonelada".Como referido, esta quinta-feira, o preço do barril de petróleo estava colado aos 85 dólares, mais 18% do que antes do conflito com o Irão e 31% acima da média que o governo português usou no Orçamento do Estado para este ano (65,4 dólares).Com este salto registado desde sábado, a média do preço do petróleo Brent desde 1 de janeiro já vai em quase 70 dólares, e ainda só vamos na quinta-feira, em seis dias de guerra..Governo faz desconto extraordinário de 3,55 cêntimos/litro no ISP do gasóleo. Montenegro admite mais medidas