Cerca de 5% da população residente em Portugal, aproximadamente 570 mil pessoas, está a mais de cinco quilómetros (5 km), por estrada, de um ponto onde se pode levantar dinheiro, de uma ATM (Automated Teller Machine ou caixa automática), de uma caixa do tipo Multibanco, estima o Banco de Portugal (BdP), num novo estudo divulgado esta segunda-feira.Em todo o caso, o banco central governado por Álvaro Santos Pereira considera que Portugal até é dos países da Europa mais bem servidos de pontos de acesso a numerário e onde a perceção de dificuldade em chegar a uma ATM é mais baixa."A cobertura da rede de acesso a numerário continuava a ser quase integral em Portugal" e "Portugal mantinha-se, deste modo, entre os países da área do euro com níveis de cobertura de acesso ao numerário mais elevados", considera a autoridade monetária.Segundo o novo estudo, "95% da população dispunha de um ponto de acesso a numerário a menos de cinco quilómetros, por via rodoviária, da residência", o mesmo que dizer, que 5% tinha de andar mais de 5 km para levantar dinheiro.De acordo com cálculos do DN e recorrendo às novas estimativas do INE para a população residente (cerca de 11,4 milhões de habitantes), isto corresponde a aproximadamente 570 mil pessoas que residem a mais de 5 km de uma ATM.O BdP usou as quilometragens medidas através do serviço Waze e concluiu ainda que "99% da população" morava "a menos de 10 quilómetros" de uma ATM, ou seja, no ano passado, 1% (cerca de 114 mil pessoas) tinha de percorrer mais de 10 km para chegar a uma caixa do tipo Multibanco.No estudo sobre a cobertura da rede de acesso a numerário em 2025, o BdP indica que há "desafios" importantes, na medida em que várias regiões do interior do País estão a perder imensa população e a que fica está a envelhecer (os casos mais problemáticos apontados são o distrito de Beja e a região transmontana, do nordeste do país, junto à fronteira com Espanha).No entanto, continua o Banco, feita uma avaliação geral da situação e apesar da cobertura ser das melhores e "quase integral", é preciso monitorizar o aumento de situações em que a população, sobretudo a do interior do país, possa ficar demasiado distante de uma ATM.O BdP refere ainda que "93% da população dispunha de um ponto de acesso alternativo a menos de 5 quilómetros, e 98% a menos de 10 quilómetros", o que "atenua o impacto de eventuais indisponibilidades, falhas operacionais ou decisões de racionalização da rede".Seja como for, o Banco adverte que "persistiam áreas onde a cobertura da rede de acesso a numerário era mais reduzida, sobretudo zonas periféricas, com baixa densidade populacional, povoamento disperso e menor atividade económica".40% das freguesias portuguesas sem multibanco"Do total de 3092 freguesias do país, 1241 (40%) não dispunham de nenhum ponto de acesso a numerário. Nessas freguesias habitavam 700 mil pessoas (7% da população nacional), que tinham de sair da área de residência para levantar dinheiro", refere o mesmo estudo, uma publicação que costuma sair de três em três anos (a última foi em 2023 sobre a situação da rede ATM em 2022).O BdP indica também que "a maioria (90%)" das freguesias sem ATM "situava-se em áreas rurais", sendo que "nos distritos de Bragança e Vila Real, mais de 40% da população vivia em freguesias naquelas condições".A freguesia mais remota nesses termos, portanto, é a da União de Freguesias de Quiraz e Pinheiro Novo, no município de Vinhais (distrito de Bragança, Trás-os-Montes), onde a caixa do tipo Multibanco mais próxima está a 30,6 quilómetros de distância.O retrato atualizado feito pelo BdP conclui que "os concelhos com maiores desafios no acesso a numerário eram Beja, Boticas, Bragança, Carrazeda de Ansiães, Chaves, Mirandela, Mogadouro, Montalegre, Torre de Moncorvo, Vimioso e Vinhais", pois "concentravam o maior número de freguesias sem ponto de acesso a numerário e com células populacionais a mais de 20 quilómetros da rede".São, portanto, 11 concelhos com mais freguesias excluídas da redes de ATM, podendo afetar um total de "174 mil pessoas" (total de residentes), cerca de 1,7% da população nacional.Outros haverá que se podem juntar a estes (têm apenas uma caixa multibanco a funcionar atualmente, se esta fechar, o acesso próximo ou a nível de freguesia desaparece). Pelas contas do BdP, há mais 36 freguesias em situação vulnerável."Embora as dificuldades se mantenham circunscritas e a situação não aparente ter-se agravado nos últimos anos, é importante ter presente que o numerário continua a ser um instrumento de pagamento essencial e um instrumento de inclusão financeira e, como tal, é fundamental assegurar que a população dispõe de condições adequadas de acesso", defende o Banco.Assim, "os resultados deste estudo sugerem que eventuais respostas beneficiarão de uma abordagem geograficamente direcionada".Notas e moedas estão na moda e são usadas de forma "predominante"O Banco de Portugal defende que "a realidade contradiz a percepção no que respeita ao abandono da utilização de notas e moedas e à velocidade a que a mudança ocorre" porque as notas e moedas são "o instrumento de pagamento dominante nos pontos de venda", respondendo por 54% do total de operações feitas no ano passado.Em valor, a mesma coisa: o numerário representa quase metade (47%) dos total movimentado na economia portuguesa.Além disso, "a maioria da população considera ser importante ou muito importante ter a opção de pagar com numerário" na medida em que este "garante liberdade de escolha, autonomia e privacidade, promove a inclusão financeira e reforça a resiliência do sistema de pagamentos".Em 2025, "o montante levantado em caixas automáticos totalizou 29 mil milhões de euros, correspondentes a 358 milhões de operações de levantamento". O valor levantado em 2025 está estabilizado em termos anuais.Além disso, afirma o BdP, "Portugal é o país da área do euro com mais caixas automáticos por habitante".Atualmente (2025), existem 14.654 mil caixas automáticas no país, 2.732 balcões com serviços de numerário e 547 estabelecimentos comerciais (tipo quiosques, tabacarias) com o serviço cash-in-shop (dinheiro na loja, na tradução literal, onde as pessoas podem fazer compras com cartão e na troca, em vez de mercadorias, recebem dinheiro). No total, somando tudo, em Portugal existem cerca de 18 mil pontos de acesso a numerário.Em 2024, ano do último inquérito Space sobre a perceção da dificuldade de acesso a numerário nos países da Zona Euro conduzido pelo Banco Central Europeu, os portugueses eram dos que consideravam mais fácil ou mesmo muito fácil encontrar uma caixa ou um ponto para levantar dinheiro: cerca de 93% do total de inquiridos, recorda o BdP.