No princípio, foi como tinha de ser. Em dezembro de 1974, o PS realizava o seu primeiro congresso na legalidade, na Aula Magna, em Lisboa, e o líder incontestado, Mário Soares, assegurava que o partido se manteria fiel à sua “inspiração marxista”, pretendendo a “destruição do capitalismo” e uma “sociedade sem classes”..O PS revelava-se plenamente adaptado aos ares do tempo - e em abril do ano seguinte venceria as eleições para a Constituinte. Na verdade, olhando para a história das reuniões máximas do PS, o que se percebe é a capacidade de o partido se ir adaptando pragmaticamente aos sentimentos dominantes na sociedade portuguesa. Os movimentos do partido para a esquerda ou para a direita foram sempre seguindo o movimento geral..Por exemplo: em 1979, a Aliança Democrática (coligação do PSD com o CDS e o PPM) vencia as legislativas, com maioria absoluta. O mesmo Soares que em 1975 se afirmava marxista, seis anos depois já admitia coligações de Governo com o PSD (que de facto fez, de 1983 a 1985)..O único tempo em que os socialistas revelaram dificuldade em sintonizar-se com o país veio a seguir, de 1985 a 1995, nos dez anos de Cavaco Silva na liderança do PSD, que conseguiu para o seu partido uma maioria relativa e depois duas absolutas..Nesse período, o PS virou à esquerda, e Jorge Sampaio até fez uma coligação com o PCP para conquistar a Câmara Municipal de Lisboa. Em 1992, Guterres roubou-lhe a liderança do partido e repôs o partido ao centro. O farol do PS passou a ser a “terceira via” de Tony Blair, no Reino Unido - ou seja, o PS voltou a afastar-se da esquerda..Na prática, esta nova orientação colocou o partido no poder até ao final do consulado de José Sócrates (2011). Além do mais, com Guterres o PS tornou-se definitivamente profissional na comunicação e marketing. E foi o mesmo Guterres que acabou com a eleição em congresso dos líderes do partido, instituindo as eleições diretas. Os congressos deixaram de ser, assim, palco para batalhas entre as fações do partido e transformaram-se naquilo que são hoje: dois ou três dias de comício permanente, facto potenciado pela chegada a Portugal dos canais televisivos que debitam notícias 24 horas por dia..Depois, de 2011 a 2015, Pedro Passos Coelho governou sob tutela da troika impondo pesadas medidas de austeridade. Na resposta, em 2015, o PS voltou a virar à esquerda, liderado por António Costa, organizando a geringonça. Hoje inicia-se o XXIV Congresso do PS, na FIL do Parque das Nações. Com Pedro Nuno Santos já eleito, é de novo o espírito da geringonça que regressa. .Seis congressos históricos.1974. O I Congresso do PS na legalidade realizou-se em dezembro de 1974, na Aula Magna da Reitoria de Lisboa. Mário Soares foi candidato único à liderança, mas para os órgãos do partido enfrentou a oposição de Manuel Serra, que queria empurrar o partido para a esquerda. Venceu com 56%..1981. "Soares e Zenha, não há quem os detenha” foi um dos slogans do PS em 1975. Tinham sido no PREC uma dupla imbatível no combate ao PCP. Em 1980 dividiu-os o apoio a Eanes: Zenha sim, Soares não. No IV Congresso do PS, em maio de 1981, no Coliseu, Soares afastou Zenha e apoiantes..1986. Com Mário Soares eleito Presidente da República, o grupo do “ex-secretariado”, afeto a Zenha, que se mantivera organizado, avança com a candidatura de Vítor Constâncio. Que se torna, no VI Congresso do PS, em junho de 1986, o primeiro líder da era pós-Soares, derrotando Jaime Gama..1992. Em 1988, Vítor Constâncio demite-se de líder do PS. Sucede-lhe Jorge Sampaio. Que em 1991 enfrenta Cavaco Silva nas legislativas, renovando este a maioria absoluta do PSD. Guterres põe em causa a liderança de Sampaio e vence-o no X Congresso. O PS vira à direita..2014. António Costa é consagrado na liderança do partido, no XX Congresso, depois de derrotar António José Seguro. Dias antes, Sócrates fora preso. Costa contém os danos pedindo por SMS aos militantes que separem “amizade” da “ação política do PS” porque este é um processo que “só à justiça cabe conduzir”. .2018. Realizado na Batalha, de 25 a 27 de maio, o XXII Congresso do PS foi aquele onde o partido e o país perceberam que Pedro Nuno Santos tinha a ambição de suceder a Costa na liderança do partido. Foi de tal forma que o líder teve de avisar que ainda não tinha “metido os papéis para a reforma”.