Se observarmos os principais rankings académicos mundiais (QS, Xangai, THE) percebemos que o Top-50 é ocupado, em grande medida, por universidades americanas. Essas são praticamente as mesmas universidades que constam no Top-50 do Pitchbook, onde estão listadas as organizações reconhecidas por formarem empreendedores de sucesso. É interessante perceber também que universidades de outros países como o Canadá, China ou Israel que aparecem na lista do Pitchbook, são também as que têm melhor performance nos principais rankings académicos. Os rankings não estão isentos de controvérsia, mas não deixam de ser úteis para tirarmos algumas ilações..Desta análise, podemos inferir que uma parte significativa das universidades de topo afirmam-se hoje não só pela qualidade do ensino e investigação, mas também e cada vez mais pelo impacto social e económico que geram, designadamente através do fomento de uma cultura empreendedora e dos efeitos positivos que daí advêm..Na Europa o cenário é paradoxal: temos instituições de Ensino Superior de excelência, mas continuamos com dificuldades em traduzir de forma consistente os resultados de investigação científica em valor socioeconómico. Se é verdade que o empreendedorismo na Europa evoluiu consideravelmente nos últimos 5 anos - estamos a produzir mais unicórnios que estão a escalar mais rapidamente -, é também factual que há um caminho importante a percorrer para termos mais empresas baseadas em tecnologias científicas e universidades em destaque na liga do empreendedorismo..Mas porque é que é tão importante a relação entre universidades e empreendedorismo?.Para mim é óbvio. Sabe-se que a inovação é fundamental para ampliar a criação de valor. É também sabido que as tecnologias e soluções mais disruptivas nascem do conhecimento produzido nas universidades. Como tal, falar de empreendedorismo e inovação sem mencionar o papel das instituições de Ensino Superior na promoção deste binómio é retirar da equação um elemento crucial para o progresso e prosperidade de um país ou região..Para sermos verdadeiramente transformadores e endereçarmos os problemas mais prementes da sociedade, precisamos de fomentar e densificar o empreendedorismo de base científica, incorporando ciência e tecnologia no desenvolvimento de soluções de alto-valor acrescentado, mais sustentáveis e mais resilientes. Portugal deve ambicionar passar a competir por produtos sofisticados e únicos no panorama global, baseados em tecnologia proprietária, que fortaleçam a economia e contribuam para a melhoria de vida da comunidade. Para tal, precisamos de mais cientistas-empreendedores, bem como de incentivos claros para a criação de valor nas universidades. Isto deve estar na agenda da gestão de topo universitária, devidamente alicerçada em políticas públicas de âmbito nacional..Não obstante algum progresso registado nos últimos anos neste domínio em Portugal, fruto de iniciativas inovadoras como o Programa Interface, o Startup Portugal e mais recentemente as agendas mobilizadoras para a inovação empresarial, é crucial densificar e ampliar as condições de base para não nos desviarmos do ponto de viragem para o qual caminhamos. Reforçar e densificar estas políticas, capacitando os gabinetes de apoio à inovação e transferência de tecnologia e as incubadoras tecnológicas para que possam atuar como verdadeiros agentes catalisadores desta transformação é fundamental..Afinal de que adianta termos capital de risco para investir se não temos pipeline suficiente de projetos inovadores e estruturas de apoio que permitam identificar e apoiar atempadamente estas equipas? As tendências atuais estão fortemente relacionadas com setores que muito dependem da ciência e da sua evolução: cibersegurança, engenharia genética, biotecnologia, condução autónoma, energias limpas ou materiais inteligentes são apenas alguns exemplos. Assim, o futuro da inovação na Europa e em Portugal terá que emergir necessariamente das suas universidades e da sua nova centralidade intimamente ligada ao papel de orquestrar redes multi-stakeholder..Nova rubrica Countdown to WebSummit 2022 é uma nova rubrica no Diário de Notícias, que antevê algumas das tendências que vão marcar o próximo encontro mundial das startups no final de outubro, em Lisboa. Até à semana do evento, estarão em análise as oportunidades e os desafios dos investidores, os exemplos inspiradores e as novidades que vão marcar a agenda dos empreendedores nacionais e mundiais. O palco passa por aqui, com a reflexão de especialistas numa nova série de artigos de opinião. O artigo hoje publicado tem a assinatura de Hélder Lopes, chefe da Divisão de Apoio à Investigação e Inovação da Universidade Nova de Lisboa