Têxteis receiam a nova estratégia de sustentabilidade

Industriais temem que a União Europeia seja demasiado exigente nas metas ambientais dentro de portas, mas continue a facilitar a entrada de novos produtos de países terceiros sem as mesmas obrigações

A União Europeia arrancou esta semana com uma consulta pública para definir a futura estratégia para os têxteis sustentáveis. O setor foi identificado - tanto no Pacto Ecológico Europeu quanto no Plano de Ação para a Economia Circular e na Estratégia Industrial - como "prioritário na preparação da UE para uma economia circular e neutra em carbono". Bruxelas promete ter em conta as "necessidades de recuperação" e as "fragilidades atuais e esperadas", do lado da procura e por parte da oferta, na sequência do impacto da pandemia, mas os empresários temem que "uma boa intenção possa resultar num tiro no pé que dê cabo, de uma vez, com o que resta da indústria na Europa".

"No passado, as indústrias que poluíam foram mandadas para a Ásia, em vez de se fomentar a tecnologia e a inovação na Europa. Espero que se tenha aprendido a lição e que não se venha, com esta nova estratégia, amplificar o erro. É que não podemos ter uma Europa limpa e um mundo sujo, porque a terra é só uma", diz o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP).

No entanto, Mário Jorge Machado teme também que, na tentativa de impor à indústria a obrigatoriedade de não poluir, se venha a colocar em causa a competitividade dos artigos made in Europe, sobretudo face aos produtos vindos da Ásia e que entram no mercado europeu sem as mesmas exigências. "A única forma de se fazer isto é seguir o exemplo da indústria automóvel, ou seja, qualquer fabricante extracomunitário que queira vender os seus carros na Europa tem de cumprir os mesmos critérios de segurança que aqui se praticam. Na fileira têxtil a situação tem que ser a mesma. Se queremos ter uma economia circular na Europa, temos de obrigar todos os que queiram vender no espaço europeu a cumprir as mesmas regras."

Até porque, ao não o fazer, as autoridades europeias estão a pôr em causa a saúde e bem-estar dos consumidores. "Tomemos por exemplo a questão dos produtos químicos, em que a legislação europeia é muito exigente, e muito bem. O problema é que os artigos importados não têm de cumprir as mesmas exigências e, à medida que se institui a economia circular, estaremos a introduzir na cadeia todos esses têxteis importados com metais pesados", sublinha o presidente da ATP. Mário Jorge Machado lembra que, a partir de 2025, não será mais permitida a incineração de têxteis, o que significa que tudo o que deixa de ser usado terá de ser reciclado. "Corremos o risco de pegar no problema que era de um só consumidor, que comprou aquela peça com produtos químicos nocivos, e de o espalhar por centenas de outros."

A consulta pública está a decorrer até à meia-noite (hora de Bruxelas) de 4 de agosto. Bruxelas reconhece que o inquérito é direcionado, em particular, aos intervenientes ao longo da cadeia de valor dos têxteis, mas está aberto a autoridades públicas, cidadãos, consumidores, parceiros sociais e investigadores.

A intenção é "contribuir para a transição da UE para uma economia circular com um impacto neutro no clima, na qual os produtos são concebidos para serem duradouros, reutilizáveis, reparáveis e recicláveis", mas também "assegurar que a indústria têxtil recupere da crise da covid-19 de forma sustentável e competitiva, aplicando os princípios da economia circular à produção, aos produtos, ao consumo, à gestão de resíduos e às matérias-primas secundárias", devendo, nesse sentido, apoiar "o investimento, a investigação e a inovação".

O objetivo é que a nova estratégia seja conhecida até ao final do ano.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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