Segunda-feira negra tira 5200 milhões à Bolsa de Lisboa. Petróleo cai 20%

Bolsa cai mais de 8%, a maior descida desde 2008, o ano do colapso do Lehman Brothers. Guerra de preços afunda petróleo e combustíveis deverão baixar 10 cêntimos na próxima semana.

9 de março de 2020 vai ficar marcado nos calendários com um dia negro para os mercados financeiros. As bolsas, um pouco por todo o mundo, sofreram quedas históricas, depois de a Arábia Saudita e a Rússia terem iniciado uma guerra de preços no petróleo, agravando os receios de uma recessão à escala mundial. Em Lisboa, o principal índice (PSI20) deu um tombo de 8,66%, a maior queda diária desde 2008, aquando da falência Lehman Brothers. Ao todo, evaporaram-se da bolsa 5270 milhões de euros num só dia, com os investidores a procurarem refúgio na segurança da dívida soberana dos países mais fortes.

Com todas as empresas em terreno negativo, o BCP e a Galp Energia terminaram o dia com a queda mais profunda. As ações do banco liderado por Miguel Maya desceram 15,18%, chegando a negociar a um mínimo histórico de 12,01 cêntimos; a petrolífera terminou o dia com uma desvalorização de 16,52%, tendo chegado a cair 25% nas primeiras horas de negócios.

E nas restantes praças da Europa, o dia não foi melhor. Em Madrid, o IBEX35 terminou o dia com uma queda de 7,96% e em Paris, o CAC40 desvalorizou 8,39%. Do outro lado do Atlântico, logo no arranque das praças norte-americanas, o índice S&P500 afundou 7%, tendo a sessão sido interrompida durante 15 minutos para travar as perdas. Durante o intervalo, houve uma acalmia e a meio da sessão o índice a regista uma desvalorização na casa dos 5%.

Se a epidemia de coronavírus, que chegou em força à Europa na última semana, já tinha agravado o nervosismo dos investidores, penalizando particularmente o turismo e a aviação, a guerra de preços entre a Arábia Saudita e a Rússia - o segundo e o terceiro maiores produtores mundiais - lançou o pânico entre os investidores.

Depois de, na sexta-feira, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) não ter convencido a Rússia a reduzir a produção mundial de petróleo, na tentativa de travar a queda dos preços abalados pela quebra da procura devido ao coronavírus, a Arábia Saudita anunciou, de surpresa, a decisão de aumentar a sua produção já a partir do próximo mês e descer os preços para os seus clientes. Objetivo inundar o mercado e esmagar a concorrência, forçando, assim, uma redução da oferta. A resposta de Moscovo não se fez tardar. A Rússia já anunciou que também poderá aumentar a sua produção, lembrando que dispõe de um fundo no valor de 170 mil milhões de dólares e que a sua economia pode resistir a baixos preços de petróleo durante seis a dez anos.

Uma queda acentuada dos preços do petróleo irá penalizar, sobretudo, os pequenos produtores mundiais, em especial países como a Venezuela, Angola, Brasil e o Irão, economias muito dependentes das receitas do crude. A Agência Internacional de Energia (AIE) já alertou que o novo coronavírus provocará em 2020 a primeira contração da procura global de petróleo desde a recessão de 2009.

Após o fecho dos mercados na Europa, o petróleo transacionado em Londres, estava a cair cerca de 20% para 36,12 dólares por barril, depois de ter chegado a perder 30%. Notando que a OPEP e a Rússia deverão chegar a um entendimento, Pedro Lino, administrador na Optimize Investment Partners, acredita que os preços da matéria-prima devem estabilizar na casa dos 30 dólares, até porque um não entendimento "é um jogo muito perigoso".

Donald Trump, o presidente dos EUA, através do Twitter, considerou que a crise petrolífera "é boa para os consumidores, [já que] os preços da gasolina vêm por aí abaixo". Na realidade, os efeitos desta descida poderá aliviar a carteira das famílias já na próxima semana. "Os contratos negociados hoje terão efeito na próxima segunda-feira. Esta quebra de 30% em dois dias resultará na maior queda de sempre de preços nas bombas de gasolina, em média entre 10 a 15 cêntimos, no mínimo, podendo ser um pouco maior na gasolina", antecipa Pedro Lino.

Paul O"Connor, da Janus Henderson Investor, numa nota citada pelo Market Watch, explica que "o coronavírus representa para os investidores um problema mundial sem precedentes. Os investidores estão inseguros quanto à natureza do vírus, quanto aos seu potencial impacto económico e resposta política. O choque petrolífero apenas acrescentou confusão e incerteza. Uma coisa sabemos: os mercados estão agora em modo pânico". A curto prazo, os consumidores poderão ganhar com esta nova guerra; a longo prazo todos vão perder se a economia entrar em recessão.

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