Saldos: Há sinais animadores, mas o comércio está alerta

Os saldos em loja começaram mais tarde em 2022. Mas, para já, isso não está a atrapalhar os planos de muitos consumidores. Para o comércio, duas semanas de atraso é sinónimo de prejuízos num ano que se espera "desafiante" e ainda com pontos de interrogação.

Está aberta a época de saldos. Se nos canais digitais, as campanhas começaram mais cedo, nas lojas físicas só desde o início desta semana foi possível usufruir de descontos. Os primeiros sinais parecerem ser animadores para o comércio, mas o setor também deixa alertas: 2022 vai ser mais um ano desafiante para a atividade.

"Os saldos de inverno são, por excelência, uma das campanhas mais importantes para o comércio, logo a seguir ao Natal. O facto de não podermos realizar promoções em loja imediatamente a seguir ao Natal causou-nos prejuízos que dificilmente podem ser recuperados na totalidade", refere fonte oficial do El Corte Inglés. Ainda assim, e após os primeiros dias, a cadeia espanhola - que comercializa vários tipos de produtos, desde vestuário a tecnologia e eletrodomésticos - assume que o balanço "tem sido positivo, apesar das restrições ainda em vigor. As lojas voltaram a ter algum movimento, ao contrário das primeiras semanas do ano. Na loja online, os saldos começaram mais cedo e começámos a notar algum aumento das vendas".

Num outro segmento de retalho, a FNAC - que vende por exemplo tecnologia, livros e pequenos eletrodomésticos - está otimista. "As vendas nestes primeiros dias, após a determinação do governo [de proibir saldos em loja], são positivas, acima do registado em 2019, que serve de barómetro comparativo, dado que é o ano pré-pandemia. As nossas expectativas são elevadas, esperando manter este ritmo de crescimento até final de janeiro", diz Pedro Falé, diretor comercial da FNAC Portugal.

O comércio foi um dos setores mais afetados pelas medidas para tentar travar a pandemia de covid-19. Nestes quase dois anos, muitas empresas navegaram entre períodos de encerramento total, de limitações de vários géneros, desde lotação a horários, e de alguma normalidade. No final de novembro, o governo determinou medidas restritivas para dezembro, alargando-se algumas ao início de janeiro. Os saldos foram proibidos em lojas físicas, até dia 9 de janeiro, e os lojistas tinham de respeitar limites à lotação dos espaços. As campanhas já são permitidas, mas os critérios de lotação continuam. O interesse dos consumidores também se mantém.

Rodrigo Moita de Deus, CEO da Associação Portuguesa de Centros Comerciais (APCC), diz que "a afluência está em linha com o que esperávamos e a expectativa é chegarmos aos números de pré-pandemia até ao final do mês. Isto apesar da reserva que alguns portugueses ainda sentem". A associação não esconde a satisfação com "a abertura do período de saldos nas lojas físicas" e aponta o dedo à proibição de saldos até dia 9. "A APCC duvida dos efeitos na contenção da pandemia com a proibição dos saldos, mas relembra que a mesma causou prejuízos para os consumidores e para as empresas, criando situações de concorrência desequilibrada com o grande comércio online internacional".

Que saldos?
Os últimos meses foram marcados pela disrupção das cadeias de abastecimento, o que se traduziu numa escassez e subida de preços de algumas matérias-primas e aumento dos custos dos transportes. Se no Natal houve escassez de alguns bens, com as empresas a terem dificuldade em repor stocks, o mesmo cenário não pode ser descartado na totalidade agora.

O El Corte Inglés garante que, apesar dos constrangimentos ao nível das matérias-primas, pelo facto de pertencer a um grupo, as eventuais "necessidades têm sido colmatadas com o seu apoio". E asseguram que a campanha de saldos "visa, sobretudo, escoar o stock da temporada que agora termina. Os stocks de anos anteriores têm, habitualmente, outros destinos".

Já a FNAC sustenta que "a campanha de saldos é constituída por produtos que já temos em stock e que procuramos escoar com apoio dos parceiros de negócio. Neste caso, não é uma questão de escassez derivada de compra, mas sim, do stock disponível de períodos transatos para efetuar a campanha, pois a escassez advém desse período". No entanto, vê o copo cheio: "Temos stock robusto na campanha de saldos que findam no final de janeiro para crescer acima dos dados registados em 2019".

Miguel Pina Martins garante que, "na generalidade, foi possível colocar à disposição dos portugueses os mesmos bens de sempre". Não esconde que "houve dificuldades" em ter alguns bens, mas houve "um enorme aumento dos custos no fornecimento de todo o tipo de bens, além do custo energético", algo que preocupa muito, até porque afeta o comércio "imenso".

"Num contexto de redução abrupta de receitas, este aumento de custos é mais uma enorme preocupação que pressiona negativamente as contas e a saúde financeira das empresas", remata.

Comércio em alerta
Os primeiros meses do ano passado foram de limitações e de confinamento, traduzindo-se numa quebra de faturação para muitas empresas. A incerteza da pandemia não permite traçar muitos planos a longo prazo, mas o retrato do passado está feito para Miguel Pina Martins: "Não apenas 2021, mas o biénio que abrange também 2020, foram seguramente os piores anos de que há memória para o retalho não alimentar e para a restauração".

Rodrigo Moita de Deus aponta, por sua vez, que 2021 "foi um ano que se divide em dois momentos distintos. O primeiro semestre, onde tivemos o confinamento e o encerramento dos espaços físicos, e um segundo semestre onde foi possível recuperar até números muito equiparáveis com 2019". Para se ter uma ideia, recentemente, a SIBS divulgou os dados do consumo em dezembro de 2021. E, no mês passado, houve um aumento total de compras (físicas e online) de 26% face a dezembro de 2020 e de 19% face a 2019. A gestora da rede Multibanco detalhava ainda que, no que diz respeito a compras físicas, houve em dezembro passado uma subida de 26% face ao mesmo período de 2020.

Para a AMRR, a palavra que define este ano de 2022, pelo menos para já, é "desafiante". "Começou mal, não vale a pena esconder", diz Miguel Pina Martins, acrescentando: "A capacidade dos empresários de resistir é muito grande, a sua capacidade financeira é que vai ficando cada vez mais exangue. Importa dizer que nem todos os setores económicos foram afetados por igual. Mas no que ao retalho diz respeito, e embora haja naturalmente subsetores menos maus, todos os que dizem respeito ao retalho não alimentar foram significativamente afetados".

Rodrigo Moita de Deus considera que 2022 "é, certamente, o ano das grandes transformações, em que veremos uma renovação da oferta e profundas mudanças na experiência de consumo com a integração definitiva do digital".

Para tentar perceber como serão as contas deste ano é necessário considerar ainda dois fatores. Por um lado, a inflação, que já levou à subida do preço de muitos bens, mas, por outro, também as cadeias de abastecimento e os preços dos transportes.

Paulo Rosa, economista-sénior do Banco Carregosa, admite que ainda são visíveis nos mercados financeiros as perturbações nas cadeias de fornecimento, mas é esperado que essas dificuldades "abrandem ao longo do ano".

"O preço de algumas matérias-primas estabilizou, como é o caso de um dos principais metais industriais, o cobre. A escassez de semicondutores tende gradualmente a estabilizar também ao longo do ano", sublinha o economista, acrescentando que "a vida nos portos regressa gradualmente ao normal e os preços tendem a estabilizar ao longo de 2022. No entanto, os preços do transporte por contentor, apesar de terem estabilizado nos últimos seis meses, estão muito acima do seu normal pré-covid", remata.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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