Quem ganhava bem passou a ganhar mais, os que ganhavam mal passaram a ganhar menos

Um estudo da Organização Mundial do Trabalho conclui que as desigualdades entre quem ganha muito e quem ganha pouco aumentaram nos últimos anos. E, em Portugal, os trabalhadores viram diminuir a parcela dos salários no PIB

Dez por cento dos trabalhadores de todo o mundo ficam com quase metade do total dos rendimentos do trabalho (48,9%). Significa isto que os rendimentos estão mal distribuídos, concluem os técnicos da Organização Mundial do Trabalho (OIT), num relatório apresentado esta quinta-feira em Genebra.

Se há 10% que recebem quase metade dos rendimentos do trabalho, aqueles que têm os salários baixos ficam apenas com 6,4% desse bolo. E cerca de 650 milhões de trabalhadores, ou seja, 20% dos que têm os salários mais baixos, ficam com menos de 1% da remuneração mundial. Aliás, os mais mal pagos precisariam de trabalhar mais de 300 anos para ganhar o mesmo que os mais bem pagos fazem num ano.

Os mais mal pagos precisariam de trabalhar mais de 300 anos para ganhar o mesmo que os mais bem pagos fazem num ano

A nível global, diminuiu a parte do investimento atribuído ao trabalho, de 53,7% em 2004 para 51,4 % em 2017. E, sublinha Steven Kapsos, da OIT, esta diminuição não acontece em todos os níveis salariais. "Os dados mostram que, em termos relativos, as melhorias dos ordenados mais altos são acompanhadas por perdas em todos os outros patamares", desde a classe média à classe baixa.

A parte destinada à classe média (corresponde a 60 % dos trabalhadores) recuou entre 2004 e 2017, de 44,8% para 43%, respetivamente. Já os 20% das pessoas mais bem pagas viram aumentar os seus rendimentos, de 51, 3% para 53,%.

Os maiores aumentos dos salários do topo verificaram-se na Alemanha, Indonésia, Itália, Paquistão, Reino Unido e Estados Unidos.

O Relatório Trabalho e Remuneração Salarial faz uma comparação dos salários entre 2004 e 2017, através das estatísticas da OIT, com dados de 189 países. Propõe dois novos indicadores para avaliar as tendências remuneratórias ao nível nacional, regional e mundial: o primeiro diz respeito ao peso do custo da mão-de-obra no PIB; o segundo avalia a forma como estes rendimentos são distribuídos.

Menos 11 % no PIB

Portugal é o segundo país europeu que regista a maior quebra dos salários face ao PIB, menos 11,1 % entre 2004 e 2017, só atrás da Irlanda (menos 11 %).

A Grécia, também intervencionada pelo FMI, reduziu os ordenados em 3,3 % comparativamente ao PIB. E os nossos parceiros do sul, a Espanha e a Itália, ficaram-se por uma diminuição de 2,1 % e 2,2 %, respetivamente.

E, quanto à distribuição desses rendimentos, Portugal está mais próximo dos países do Leste da Europa do que dos vizinhos. Num mapa que pinta o mundo de acordo com os valores auferidos pelos 10% que mais receberam em 2017, seria uma utopia pensar-se que estes ganhariam 10% dos rendimentos salariais. Mas o inverso deve ser combatido, defendem os responsáveis da OIT. Ou seja, que os 10 % mais bem pagos recebam metade do valor do trabalho. Portugal é um dos países europeus onde a fatia do total que os mais bem pagos levam para casa é mais alta: recebem 40% do total dos salários.

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