Procura por ouro e prata sobe 28,6%, à boleia de turismo, batizados e casamentos

Retoma: Setembro foi o melhor mês de sempre, com ourives nacionais a certificar 4,5 milhões de joias em 2021. Investimento também ajuda.

As empresas portuguesas de ourivesaria e joalharia enviaram, no ano passado, 4,5 milhões de peças para os serviços de contrastaria, mais um milhão de peças do que em 2020, o que representa um crescimento de 28,6%. E se é verdade que, no total do ano, os números ficaram ainda aquém de 2019, quando foram contrastadas 5,7 milhões de peças, não é menos certo que, no segundo semestre, se assistiu a uma "clara recuperação do setor", que não só conseguiu já enviar para a contrastaria 3,2 milhões de joias, número equivalente ao segundo semestre de 2019, como obteve, em setembro de 2021, um recorde mensal absoluto, com um total de quase 700 mil peças contrastadas.

"Estes são números muito bons e que nos permitem acreditar num processo de retoma. Porque as empresas só vão certificar peças quando têm expectativas de negócios e as lojas estão a comprar. É o que nos dá indicação que o mercado está a mexer", diz o presidente da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP), Nuno Marinho.
Uma retoma assente no regresso dos turistas, e das cerimónias religiosas, como os casamentos e batizados. "Denota também alguma vontade do consumidor de voltar, de novo, a investir em joias como reserva de valor. E a valorização dos metais preciosos - desde 2000, as cotações do ouro subiram 600% - ajuda aqui a este sentido de entesouramento", defende, por seu turno, Fátima Santos, secretária-geral da associação.

Recorde-se que, com a pandemia, o setor perdeu quase 35% das suas vendas, passando de mais de 1011 milhões de faturação em 2019 para 663 milhões em 2020. As exportações caíram 50% para 11,7 milhões de euros. Dados de 2021 não há, ainda, mas os números da certificação dão novo alento.

"Apesar da dor, o setor sai reforçado da pandemia. Houve tempo para repensar modelos de negócio e estratégias industriais, até porque se seguem tempos mais exigentes, e, por isso, estamos a notar algumas necessidades de investimento a nível industrial e de capacitação de trabalhadores", defende Nuno Marinho.

Já Fátima Silva fala em dores de crescimento, de um setor familiar, formado por micro e pequenas empresas, e com uma "grande resiliência" perante as dificuldades. "As empresas não fecham, apertam o cinto. Mas têm uma grande elasticidade para voltar a crescer, que é o que sentimos agora. Todas as semanas recebemos pedidos de procura de trabalhadores e de potenciais parcerias entre empresas para dar resposta a encomendas", frisa.

Para ajudar a dar resposta às necessidades de mão-de-obra qualificada, a AORP está já a trabalhar com o Cindor - Centro de Formação Profissional da Ourivesaria e Relojoaria. "As necessidades das empresas são voláteis e há que ajustar a formação a elas. Há que ter uma capacidade de readaptação muito rápida sempre que muda o tipo de produto ou o que o mercado exige", explica Nuno Marinho.

No total, e incluindo os empresários em nome individual, o setor conta com quatro mil empresas e mais de dez mil trabalhadores. A transição digital e a Indústria 4.0 são grandes desafios. "O investimento em tecnologia é vital e, por isso, estamos a explorar possibilidades nesse sentido no PRR e no Portugal 2030. É urgente que consigamos candidatar investimentos ao nível da inovação produtiva", diz Fátima Santos.

"O caminho crescente de internacionalização que o setor vai fazendo traz oportunidades, mas gera também desafios e o investimento nas tecnologias mais recentes terá que ser constante. E, por isso, é essencial uma aposta, a nível de fundos, para alavancar a capacidade produtiva e de investimento das empresas", corrobora o presidente da AORP.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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