Preço dos combustíveis já valorizou quase 7% face ao início do ano

Gasóleo deverá subir dois cêntimos e gasolina 2,5. Analistas temem efeito da guerra no Médio Oriente sobre as cotações e há quem estime já que o barril de crude possa chegar aos 150 dólares.
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O gasóleo simples deverá subir, em média, dois cêntimos e a gasolina 95 cerca de 2,5 cêntimos esta semana, naquele que é o 21º agravamento de preços do gasóleo e o 24º da gasolina desde o início do ano. Comparativamente aos preços em vigor a 2 de janeiro, o gasóleo está já 5,9% mais caro e a gasolina quase 7%. A recuperação da economia tem estado a impulsionar a subida das cotações do petróleo e o agravamento do conflito no Médio Oriente não vem ajudar e há já analistas que apontam para o risco do preço do petróleo poder subir até aos 150 dólares por barril.

"Embora Israel não seja um player importante a nível de produção de petróleo, a zona onde está a decorrer o conflito é relevante a nível estratégico nas trocas comerciais, tanto nas importações como nas exportações de petróleo e derivados", lembra Henrique Tomé, analista da XTB, sublinhando que o petróleo tem reagido às tensões entre Israel e a Palestina que ameaçam o comércio internacional nessa região e os riscos de existir uma escalada no conflito pode envolver os países vizinhos, o que provocaria um novo desequilíbrio na oferta.

"A reação do petróleo tem refletido os receios de que possam surgir novos problemas na oferta, o que agravaria ainda mais o atual desequilíbrio entre a oferta e a procura. É importante relembrar que os níveis de produção têm sido artificialmente limitados por vários membros da OPEP+ e um envolvimento de outros países vizinhos, como o Irão, poderia ter um impacto significativo nos preços da matéria-prima", frisa.

Já Paulo Rosa lembra que, pelo estreito de Ormuz, "o corredor energético e o ponto de estrangulamento mais importante do mundo para o petróleo e para o gás natural liquefeito", passam diariamente cerca de 21 milhões de barris de petróleo, correspondentes a aproximadamente 20% do consumo diário global.

O economista sénior do Banco Carregosa recorda que, há 50 anos, a guerra israelo-árabe, conhecida também como guerra de Yom Kippur, culminou no embargo petrolífero dos países da OPEP, na sua maioria países árabes na altura, aos países que apoiaram Israel, sobretudo ocidentais, como forma de retaliação. A cotação do barril de petróleo triplicou, arrastando a economia global para uma estagflação (estagnação económica, associada a elevada inflação, sobretudo importada, impulsionada pelos preços dos produtos energéticos mais caros).

"Atualmente, e caso o conflito no Médio Oriente se agudize consideravelmente, um embargo de petróleo pelos países da OPEP teria, muito provavelmente, pouca eficácia, justificado pelo peso cada vez menor do petróleo do Médio Oriente no consumo global, pela autossuficiência dos EUA, por interesses geopolíticos entre países da OPEP+ e Israel, e, sobretudo, porque este embargo já está implicitamente a ser executado pelos países da OPEP+ há mais de três anos", argumenta, apontando os cortes de produção, realizados a seguir ao primeiro confinamento da pandemia, em 2020, e que se têm mantido. Ainda em setembro a Arábia Saudita e a Rússia estenderam os seus cortes até ao final do ano.

E se é verdade que a Bloomberg Economics estima que o preço do petróleo poderia subir até aos 150 dólares por barril caso uma escalada do conflito levasse a uma conflito direto entre Israel e o Irão, que controla o norte do estreito de Ormuz, fazendo cair o crescimento da economia global para 1,7%, provocando "uma recessão que retiraria cerca de mil milhões de dólares à produção mundial", não é menos certo que uma escalada dessa ordem "poderia ser contraproducente para os países árabes produtores, contribuindo para acelerar a procura de energias alternativas, tais como as renováveis, incentivando ainda mais a produção de shale oil [petróleo de xisto], sobretudo nos EUA", sublinha Paulo Rosa.

Tal como a União Europeia, também Portugal é ainda muito dependente dos combustíveis fósseis, com o petróleo e o gás natural a corresponderem a cerca de 70% da matriz energética portuguesa. O Governo prevê, na sua proposta de Orçamento para 2024, uma cotação do petróleo à volta dos 81 dólares, que compara com os 83 dólares que previu para 2023. "Um cenário em que o preço do petróleo se situe 20% acima do assumido no cenário base, ou seja, um aumento para perto dos 100 dólares, teria um efeito negativo de 0,1 pontos percentuais no crescimento do PIB em 2024", refere o analista do Banco Carregosa, sublinhando que, perante uma eventual escalada do preço do petróleo, com a entrada direta do Irão no conflito, "o efeito no PIB português tenderia a ser exponencial e dificilmente Portugal escaparia a uma recessão com a cotação do crude nos 150 dólares".

Henrique Tomé aponta por seu turno que, em Portugal, independentemente das flutuações do preço do petróleo nos mercados internacionais, é esperada uma subida entre 6,2 a 6,8 cêntimos por litro. "O Orçamento do Estado divulgado recentemente mostrou o descongelamento da taxa de carbono, que foi suspenso no início deste ano para atenuar o impacto da subida dos preços dos combustíveis. Ainda assim, esta poderá ser uma medida sujeita a alterações, caso o preço do petróleo volte a disparar devido aos conflitos no Médio Oriente", frisa o analista da XTB.

Ricardo Marques, da IMF, ressalta, também, a incerteza sobre a evolução do conflito no Médio Oriente, sobre a postura da Arábia Saudita que, nos últimos meses, tem reduzido a sua produção em 20% para nove milhões de barris, e sobre a evolução do consumo global de combustíveis. "No caso particular do gasóleo há que acompanhar a evolução da margem de refinação, que numa situação normal está com um prémio entre15 e 20 dólares o barril acima do Brent, e nos últimos tempos tem negociado com um prémio perto de 35 dólares o barril", diz, acrescentando que "muito vai depender da quantidade de refinarias que a Europa terá a funcionar (nesta altura estão umas quantas paradas para trabalhos de manutenção), e do volume de importações deste produto pelos europeus que, em outubro, está a níveis muito abaixo dos de setembro".

Do lado das petrolíferas, António Comprido, secretário-geral da Apetro, mostra-se calmo. "Enquanto o o conflito se mantiver circunscrito, não antevemos grande impacto", diz. De qualquer forma, reconhece que não são esperados grandes movimentos no sentido da descida dos preços dos combustíveis, sobretudo se se mantiverem os cortes na produção por parte da Rússia e da Arábia Saudita e se a recuperação económica em alguns países, como os EUA for maior do que o esperado.

"Depois há a questão da incerteza sobre a parte fiscal [em Portugal]. Não sabemos se a taxa de carbono se vai manter congelada, ou não, se o ISP se vai manter nos valores atuais... tudo isso contribui para que as expectativas não sejam no sentido de grandes descidas", frisa.

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