Preço dos combustíveis em máximos desde 2012

Desde o início do ano, as cotações do petróleo cresceram quase 50%. O preço ao consumidor subiu à volta de 15%. O alargamento da produção por parte da Opep e dos seus aliados poderia fazer baixar a pressão, mas o acordo não parece fácil.

É preciso recuar a 2012 para encontrar preços de combustíveis em Portugal mais elevados do que os que hoje se praticam. E que vão continuar a subir nos próximos tempos, acreditam os analistas. Esta segunda-feira, a gasolina deverá subir um cêntimo, empurrando o preço médio da gasolina simples 95 para os 1,66 euros o litro. Já o gasóleo deverá ficar inalterado, nos 1,448 euros em média da última semana. A "culpa" é da subida das cotações do petróleo nos mercados internacionais, mas também do elevado peso que os impostos têm no preço final dos combustíveis em Portugal.

Desde o início do ano, as cotações do Brent, a referência para os mercados europeus, já subiram quase 50% e fecharam, na sexta-feira, nos 76,17 dólares o barril. Em contrapartida, o aumento dos combustíveis rondou os 15% apenas. O problema está na parcela dos impostos, já que cerca de 60% dos preços dos combustíveis são encargos fiscais. O que significa que o aumento da matéria-prima só influi sobre os restantes 40%.

Isso mesmo mostra um estudo da Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (Apetro) divulgado esta sexta-feira. Especula-se bastante porque é que estando a cotação do petróleo e dos refinados muito abaixo dos valores de pico de 2008, os preços de venda nas bombas são superiores a esse período, reconhece a Apetro, sublinhando que "a explicação para o aumento do preço está no sobrecusto da incorporação de biocombustível e sobretudo na carga fiscal" (ISP - Imposto Sobre Produtos Petrolíferos e ao IVA - Imposto sobre o Valor Acrescentado).

A OPEP+, a aliança que junta a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e outros produtores relevantes, em especial a Rússia, reuniu esta semana, mas, por duas vezes, não houve acordo sobre o aumento da produção. As negociações serão hoje retomadas, mas, alerta a Bloomberg, a falta de um acordo poderá pressionar um mercado já de si apertado, potencialmente elevando os preços de petróleo de forma acentuada. Mas a verdade é que o cenário oposto também pode ocorrer. Recorde-se que, no início de 2020, a falta de acordo entre a Arábia Saudita e a Rússia abriu uma guerra de preços que atirou o crude para valores muito próximos dos 20 dólares o barril.

"O atual impasse é um sinal claro das intenções dos Emirados Árabes Unidos: eles têm um claro mandato para aumentar a produção e querem ter uma influência maior", afirmou Amrita Sen, consultora da Energy Aspects Ldt, em Londres, citada pela Bloomberg.

Abu Dhabi lançou a ideia de deixar a OPEP no final de 2020, já que pretende produzir mais petróleo para aproveitar os biliões de dólares de investimento que fez na expansão da sua capacidade. O impasse registado esta semana - e a recusa dos delegados dos Emirados Árabes Unidos em fazer quaisquer concessões - sugere que as tensões persistirão, refere, por seu turno, a Lusa.

Paulo Rosa, analista do Banco Carregosa, lembra que, o ano passado, a OPEP e os seus aliados cortaram a produção para compensar a forte descida da procura ditada pela pandemia, em especial pelo primeiro confinamento e pela interrupção da economia durante a primavera de 2020. "Gradualmente a economia reabre, impulsionada pela evolução dos programas de vacinação, mas a oferta de petróleo não regressou aos níveis pré-covid e se os países da OPEP mantiveram a disciplina nos atuais níveis de produção o petróleo tem ainda espaço de valorização", defende.

Também Ricardo Evangelista, da ActivTrades, acredita que o agravamento de preços se irá manter. "Com a continuação do regresso à normalidade, e consequente aumento da procura, a tendência será para que os preços se mantenham pelo menos nos níveis atuais, podendo até subir se os países da OPEP+ não chegarem a um acordo entre eles para aumentar as contas de produção. Assim, tendo em conta o cenário de maior procura e de continuação de dificuldades na oferta do petróleo, não ficaria surpreendido com novos agravamentos dos preços dos combustíveis", sublinha.

Já Henrique Tomé, da XTB, considera que há probabilidades elevadas de que os membros da OPEP + poderão avançar com um aumento da produção já em agosto, no entanto acredita que esses aumentos "não deverão limitar a continuação da subida dos preços a médio e longo prazo". Más notícias para os consumidores portugueses: "Pode-se esperar uma continuação dos aumentos nos preços dos combustíveis, uma vez que se espera que o petróleo continue a valorizar", frisa.

ilidia.pinto@dinheirovivo.pt

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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