Petróleo barato está para durar. E há muita gente a sofrer com isso

Com o brent colado aos 40 dólares, a exploração não convencional deixa de ser rentável. Investidores em fuga pressionam mais

O Natal está estragado para quem investe em petróleo. Depois de a organização dos países produtores (OPEP), à boleia do maior membro do grupo, a Arábia Saudita, ter decidido subir as quotas de produção de 30 para 31,5 milhões de barris por dia, o preço bateu mínimos de nove anos, afundando além da barreira dos 40 dólares. Mantendo-se a produção alta apesar de haver excesso de oferta e de a economia global estar a crescer mais lentamente, o preço está, mesmo agora, poucas décimas acima desse valor, tendo sofrido uma queda de 35% nos últimos 12 meses (ver gráfico).

"Tudo indica que este nível vai manter-se nos próximos meses", diz ao DN o especialista em petróleo Agostinho Pereira de Miranda. O sócio presidente e fundador da sociedade de advogados Miranda & Associados estabelece um paralelo entre este contrachoque e o de 1985-86 - quando também existia um conflito no mundo árabe, mas realça uma diferença fundamental. "Há 30 anos, o crude chegou a pouco mais de dez dólares mas o então presidente americano Ronald Reagan ameaçou Riade com a imposição de taxas à importação de petróleo da Arábia Saudita e dos vizinhos da OPEP." Desta vez, apesar dos danos feitos ao negócio norte-americano - nomeadamente no campo da exploração de crude e gás de xisto -, ainda não houve ultimato.

Efeitos vão além da indústria

Não é só a indústria petrolífera que é afetada. De acordo com o especialista em petróleo, este setor tem impactos diretos ou indiretos de 40% na economia mundial. E se, para o consumidor final e algumas indústrias, como químicas e farmacêuticas, os preços baixos são vantajosos, esta tendência também traz problemas, nomeadamente no desenvolvimento e na utilização das energias renováveis - o crude barato desincentiva a procura de alternativas limpas. E nos mercados financeiros.

Barris de papel valem 9 vezes mais

"Os barris de papel (posições financeiras que negoceiam petróleo e seus derivados) têm hoje uma dimensão que é nove vezes o mercado físico e alguns países e fundos soberanos investiram muitíssimo nesse setor. Por outro lado, os futuros, hedging ou opções também condicionam profundamente o preço do crude", diz Pereira de Miranda.

Os preços baixos não são da exclusiva responsabilidade dos produtores, que não querem reduzir quotas, mas também dos investidores, que se têm afastado nos últimos meses. "O caso Volkswagen vai pressionar cada vez mais o diesel, cuja utilização tende a reduzir-se muito, e isso, conjugado com as metas vinculativas da cimeira do clima de Paris e com as investigações lançadas sobre a indústria petrolífera (sendo a mais recente a do procurador de Nova Iorque à Exxon-Mobil) vai desencorajar ainda mais este tipo de investimentos", explica Pereira de Miranda. "O tempo do investimento em paper barrels ao nível dos 600 mil milhões de dólares acabou." E mesmo neste momento o desinvestimento só não é maior porque as commodities alternativas não têm estado muito interessantes.

Do lado das petrolíferas também há uma mudança de paradigma. Com a tecnologia de conservação de energia cada vez mais desenvolvida, "o nome do jogo passou a ser eficácia: há hoje uma busca obsessiva por ganhar o máximo por barril". O que altera também a lógica da exploração: a preços tão baixos, há muitas jazidas, nomeadamente na América do Sul, em África e no Ártico, cuja exploração, em águas demasiado profundas, deixa de ser viável. "Muito petróleo já descoberto não será explorado."

Uma estratégia lógica

A pergunta a que falta responder: se os preços estão tão baixos, que interesse têm os países da OPEP em manter a produção nos 31 milhões de barris por dia? Todo. Os sauditas têm o menor custo de produção do mundo: cinco dólares por barril. Se cortassem a produção sem que os países de fora da OPEP os acompanhassem, arriscavam perder quota para quem oferecesse melhor preço, como sucedeu nos anos de 1980.

Por outro lado, mantendo os preços baixos, Riade consegue conter o boom de petróleo e gás de xisto nos EUA. Já antes do verão, a Agência Internacional de Energia avançava que, com os preços abaixo dos 60 dólares, o número destas plataformas em funcionamento fora reduzido a menos de metade (uma queda de 60%). Com o brent a 40 dólares, as explorações não convencionais ficam demasiado caras para fazerem sentido.

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