Os salários vão subir 2% em 2016. Gestores e operários levam menos

Efeito de arrastamento do aumento do salário mínimo deverá ser reduzido. Reposição de cortes na função pública e descida da sobretaxa do IRS deverão contribuir para melhorar o orçamento das famílias.

Os salários dos trabalhadores portugueses, apesar dos sinais de retoma da economia, deverão aumentar apenas 2% no próximo ano. Menos nos gestores e nos operários; um pouco mais nas chefias intermédias e nos comerciais. É poucochinho, mas a reposição dos cortes na função pública e a redução da sobretaxa deverão ajudar a melhorar o rendimento.

"Podemos esperar um aumento que ronde os 2%", prevê Eugénio Rosa. A "reposição mais rápida dos cortes na função pública" explica porquê, segundo o economista da CGTP. A subida pode até ser superior, "entre 2% e 3%", acredita João Cerejeira, professor da Universidade do Minho. Em grande parte devido "ao regresso das portarias de extensão" nos contratos coletivos de trabalho, explica o economista em declarações ao DN/Dinheiro Vivo.

A subida, no entanto, não deverá ser uniforme. As categorias mais altas e as mais baixas deverão ser as menos beneficiadas: os cargos de direção-geral e administração deverão ter aumentos médios de 0,79%; os operários só deverão ter o vencimento melhorado, em média, em 1,07%, de acordo com o estudo "Total Compensation Portugal", realizado pela Mercer.

Nas restantes categorias, acrescenta a consultora, os aumentos salariais deverão ser de 1,23%. "As expectativas de incremento salarial sofreram uma diminuição", em relação ao ano passado, em praticamente todas as categorias, considera a Mercer. Não explica bem porquê. A Comissão Europeia antecipa um ganho médio nos salários de 1,2%.

A taxa de inflação em Portugal "está muito baixa" e a economia "está na expectativa; saímos de uma situação em que estávamos em velocidade de cruzeiro, parámos e ainda não sabemos muito bem o que vai acontecer em 2016", lembra Amândio da Fonseca. O presidente executivo da empresa de recursos humanos Egor avança outra explicação para o baixo aumento dos salários em Portugal. "As empresas estão a apostar mais nos incentivos de produtividade aos trabalhadores". O rendimento no final do mês pode subir "não com aumentos salariais automáticos mas sim com prémios e bónus", refere.

João Cerejeira reforça que o clima de atividade económica "não está nos melhores dias e que é necessário dar mais condições de estabilidade "e "transmitir confiança às empresas". Mesmo assim, o economista acredita que "com o regresso das portarias de extensão poderemos assistir a uma subida das remunerações previstas nos contratos coletivos de trabalho (CCT) acima dos valores dos últimos anos".

Eugénio Rosa lamenta que mais uma vez "não se deverá verificar qualquer recuperação do poder de compra das remunerações em Portugal". Seja como for, os aumentos salariais em 2016 deverão ficar um pouco acima da taxa média de inflação, que o Banco de Portugal calcula em 1,1%.

Salário mínimo pouco influente

Governo e parceiros sociais voltam já amanhã à mesa das negociações para discutir o aumento do o salário mínimo nacional (SMN) para 530 euros, mais 4,7% do que os atuais 505 euros.

Paulo Vaz, diretor-geral da Associação dos Têxteis de Portugal (ATP), teme que esta subida do salário mínimo tenha um efeito de arrasto em muitas categorias profissionais. Mas os economistas não estão convencidos. "Os efeitos só deverão ser sentidos nos níveis de rendimento mais próximos do salário mínimo", prevê João Cerejeira. Para Amândio da Fonseca também "não é expectável" que o aumento possa afetar os restantes rendimentos. Eugénio Rosa garante que o impacto será "insignificante", recordando que no final de 2014, quando foi determinado um aumento do SMN dos 485 para os 505 euros, "o efeito da subida e do arrastamento nos outros salários foi desprezível".

O economista da CGTP defende por isso a proposta da central sindical: 600 euros de salário mínimo para que quem receba este vencimento possa "ter o mesmo poder de compra" que tinha quando este foi criado em 1974.

Seja como for, a realidade é que desde o início de 2014 o vencimento médio mensal líquido dos trabalhadores portugueses tem vindo a subir, acompanhando a saída da crise (ver infografia). No terceiro trimestre deste ano, o salário médio atingiu 829 euros, de acordo com os dados do INE. São mais 11 euros (+1,34%) do que há um ano e o montante mais elevado desde final de 2012.

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