Oportunidades de 13 mil milhões de euros para as exportadoras portuguesas

O economista-chefe da Euler Hermes, acionista da COSEC, admite que indústria voltará a crescer neste ano mas não para níveis pré-crise. "A pandemia teve um impacto psicológico claro no comportamento dos consumidores que está provado ser prejudicial para a procura por vestuário".

Portugal tem 13 mil milhões de euros em oportunidades de exportação em 2021. A estimativa é apontada por Ludovic Subran, economista-chefe da Euler Hermes, acionista da COSEC, seguradora no ramo dos seguros de crédito, que explica ao Dinheiro Vivo que, em 2020, os exportadores de mercadorias perderam cerca de seis mil milhões de euros face ao ano anterior. "No entanto, no total, e devido à forte queda nas exportações de serviços (maioritariamente relacionadas com transportes e viagens, devido aos confinamentos) estimamos que as exportações tenham caído 24 mil milhões de euros face a 2019", acrescenta.

Perante esta estimativa, o economista acredita que as empresas exportadoras podem neste ano "recuperar apenas parcialmente as perdas de 2020, com ganhos de 13 mil milhões de euros". O setor dos serviços deverá ser o motor desta recuperação, embora a comercialização de bens também deverá desempenhar um papel importante. A Euler Hermes acredita que os serviços de transportes e os produtos do agroalimentar vão liderar a tabela das exportações nacionais, seguido pelo têxtil.

O ano passado foi um dos piores de que há memória para o setor têxtil à escala mundial, tendo a atividade caído cerca de 15%, de acordo com os dados citados pelo acionista da COSEC. Este setor divide-se em várias áreas, sendo que o vestuário terá sido um dos que sofreu uma fatura mais pesada, "com as vendas a retalho a caírem na casa dos 90% durante o confinamento em alguns mercados europeus". "Também foi o segmento que teve a recuperação mais lenta depois do alívio nas restrições ao retalho", diz ainda.

Neste momento, em que o país atravessa um segundo confinamento geral, a indústria do calçado e do vestuário estão praticamente paradas. Mas Ludovic Subran defende que o têxtil pode ser um dos setores que pode aumentar as suas vendas ao exterior ao longo deste ano. Isto porque, em primeiro lugar, foi precisamente uma das áreas com uma queda mais expressiva em 2020 e "quando a queda é tão brutal, a recuperação é frequentemente impressionante, especialmente na medida em que prevemos um crescimento robusto neste ano". E, em segundo lugar, o elevado nível de poupança um pouco por toda a Europa, "o que significa que há potencial para libertar essas poupanças e impulsionar o consumo".

O economista não tem dúvidas de que, em 2021, "vamos assistir a indústria a voltar a crescer, mas a continuidade apenas da atividade do retalho não vai ser suficiente para [fazer] regressar aos níveis pré-crise no curto prazo". Notando que a "pandemia teve um impacto psicológico claro no comportamento dos consumidores, que provou ser prejudicial para a procura por vestuário", Subran acrescenta que uma subida do desemprego vai "também pesar na procura", sendo que as "vendas de vestuário estão fortemente correlacionadas com as mudanças nos rendimentos dos consumidores".

Apesar destas eventuais mudanças, as poupanças acumuladas de muitas famílias podem ser o elemento determinante nas exportações de têxtil. As estimativas da Euler Hermes sugerem que as famílias em Portugal, em termos agregados, acumularam poupanças na casa dos nove mil milhões de euros. Mas nos principais parceiros comerciais de Portugal, as poupanças serão muito mais elevadas: 36 mil milhões de euros no Reino Unido, 40 mil milhões de euros em Espanha e 93 mil milhões em França. "Isto significa que há potencial para estimular a procura doméstica e externa, quando as restrições forem levantadas e a incerteza reduzida dramaticamente com a imunidade de grupo", acrescenta.

A Espanha, Alemanha e os Estados Unidos, indicam, deverão ser os três principais destinos das exportações nacionais.

Retoma do turismo não será este ano

O turismo em Portugal tem sido um dos motores da economia. Em 2019, direta e indiretamente, contribuiu com 15% para o produto interno bruto (PIB) e as receitas turísticas superaram os 18 mil milhões de euros. No ano passado, o setor foi fustigado pelo contágio do vírus, tendo atravessado um dos piores anos de que há memória. Os players do setor acreditam que 2021 pode ser melhor que o ano anterior, mas a evolução da pandemia e da vacinação vai ser a pedra fundamental para determinar a evolução do setor.

O economista-chefe da Euler Hermes defende, tal como outras entidades internacionais, que a retoma das viagens não vai acontecer antes de 2022 e, admite, "possivelmente não haverá uma recuperação total antes de 2023". "Apenas o turismo doméstico vai atingir níveis pré-crise em 2022", acrescenta.

Quanto ao setor da construção, antecipa que "vai atingir os níveis pré-crise no final deste ano ou início do próximo".

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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