O que vai dominar as apostas das empresas em 2021: ambiente é vencedor

Planos das companhias de diferentes áreas passam muito pela transição digital e energética, mas as exigências da economia circular contagiaram todos os setores. Questões como a mão-de-obra qualificada continuam a representar um desafio para muitos.

Se 2020 foi um ano difícil para as empresas, 2021 promete ser igualmente desafiante, independentemente do setor em que atuem. Quanto mais não seja, como destaca o CEO da Efacec, "a perspetiva de arranque da vacinação contra a covid-19 no início do ano é uma boa notícia na resposta a esta crise sanitária, mas os impactos económicos e sociais vão perdurar por um período ainda não quantificável". Mas mesmo nas áreas mais afetadas pela crise, designadamente o da moda, os investimentos não param. Conheça aqui algumas das empresas que prometem ser relevantes em 2021.

Portugal tem vindo a dar cartas no mundo das duas rodas e a equipa da Carbon Team, a mais recente unidade industrial no país nesta área, assume-se "ansiosa" por começar a contribuir para este sucesso. A joint-venture, que alia capital nacional (da Rodi, da Miranda & Irmão e da Ciclofapril), alemão e chinês (de Taiwan), vai produzir quadros de bicicleta em fibra de carbono, um negócio de alto valor acrescentado que, em ano cruzeiro, deverá gerar vendas de 15 a 20 milhões de euros.

Instalada em Vouzela, distrito de Viseu, para beneficiar dos apoios mais generosos no Interior, mas, também, da maior disponibilidade de mão-de-obra, a nova fábrica representa um investimento de 8,4 milhões e vai dar emprego, quando operar em pleno, a 120 pessoas. Deverá, então, produzir 25 mil quadros de bicicletas ao ano, uma meta que espera alcançar em quatro anos. E pôr Portugal no mapa mundial da fibra de carbono, compósito tecnologicamente avançado e de grande procura no mercado, substituindo grande parte das importações que atualmente se fazem. "Vem tudo da Ásia, na Europa não há nada desta dimensão, apenas pequenas unidades que não dão conta das necessidades", diz o diretor geral da Carbon Teams. E-bikes, bicicletas de estrada, de BTT ou de suspensão total são as prioritárias de aposta, num segmento de mercado de gama média-alta.

Mas a intenção é continuar a crescer e alargar a produção a outros componentes das duas rodas, caso de guiadores, selins ou rodas, mas, sobretudo, a outros domínios. "A fibra de carbono tem um uso vastíssimo, das canas de pesca aos drones, passando pela indústria automóvel, etc, e garantidamente que, quando tivermos o know how consolidado, vamos estender a produção para outras áreas", sustenta Emre Ozgunes. A unidade começa a laborar em janeiro, numas instalações com nove mil metros quadrados, mas já há espaço preparado para "crescer outro tanto" logo que seja necessário.

Se há setor em que a procura disparou em ano de pandemia foi, sem dúvida, o do retalho alimentar. Não admira, por isso, que o volume de negócios da Sonae MC tenha "evoluído favoravelmente", com a empresa a "reforçar a sua posição de liderança". E apesar da covid-19, a holding abriu 65 novas lojas entre janeiro e setembro, um investimento de 345 milhões que permitiu criar 740 empregos. E no último trimestre do ano foram mais seis unidades Continente e sete Meu Super, que acrescentaram mais 350 novos postos de trabalho.

Para 2021, e apesar do "contexto de incerteza" e da "postura cautelosa" que a empresa implementou relativamente a "todas as despesas de capital", a Sonae MC mantém o plano de expansão previsto para 2019-2021, período em que o grupo previa abrir 50 a 60 novas lojas Continente Bom Dia, 4 a 8 novos espaços Continente Modelo e cerca de 150 novas lojas de "negócios complementares de crescimento", ou seja, relativos às insígnias Go Natural, Baga, Well"s, Arenal, Home Story ou Note, entre outras.

"Em termos estruturais, apesar das fortes restrições e do cenário competitivo globalmente desafiante, o mercado retalhista português continua a apresentar indicadores de área de venda per capita e de venda per capita abaixo dos referenciais dos mercados mais desenvolvidos", diz a empresa, sublinhando que "este fator contribui para explicar a elevada dinâmica na abertura de lojas alimentares em Portugal".

A área da sustentabilidade é uma das de maior aposta no grupo, quer através do combate ao desperdício, quer estabelecendo que, até 2025, todas as embalagens de plástico da marca Continente serão "reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis". Irão, ainda, no mesmo prazo, incorporar pelo menos 30% de plástico reciclado na sua composição.

2020 foi um ano desafiante para qualquer empresa, mas mais ainda para a Efacec, já que a indefinição acionista gerou graves dificuldades de financiamento. Situação ultrapassada com a nacionalização, em julho, dos 71,73% detidos pela Winterfell 2 de Isabel dos Santos e que permitiu o acesso a uma linha de financiamento de 70 milhões com garantia do Estado.

A empresa vive, agora, uma "nova etapa", e diz-se "empenhada" em "recuperar totalmente" a normalidade, mas, também, em preparar-se para o futuro. E o futuro será verde, com a empresa focada no desenvolvimento de produtos e soluções tecnológicas nas áreas da energia, mobilidade e ambiente que possam contribuir para a descarbonização. "As oportunidades da Economia Verde e o posicionamento estratégico da Efacec, e o contexto de resposta da Europa à crise pandémica, nomeadamente através do Fundo de Recuperação, do Pacto Ecológico Europeu e da transição digital, criam um quadro claramente favorável ao desenvolvimento da nossa atividade", diz o CEO da empresa, Ângelo Ramalho.

O "Modular System patented by Efacec" será uma das linhas de atuação em 2021, um conceito "inovador" de modularidade que será aplicado numa "vasta gama de produtos", designadamente no domínio dos transformadores de energia, mas não só. O objetivo é tornar a capacidade de produção da empresa e a sua estrutura de custos "mais consentânea com o mercado", aumentando a competitividade da companhia.

Além disso, a Efacec promete novidades na mobilidade elétrica e uma atenção especial a novas oportunidades de negócio na área de metro e ferrovia. A instabilidade e imprevisibilidade não ajudam. "Teremos de ter uma forte capacidade de adaptação e de ajustamento, aliada a uma grande capacidade de resiliência, ao mesmo tempo que teremos de desenvolver competências e competitividade. É nesta altura que se revelam os princípios e os valores éticos, de responsabilidade social, fundamentais para ultrapassar os desafios em conjunto e tentando proteger os que se encontram em situações de maior fragilidade", frisa.
2021 deverá, também, marcar a reprivatização da empresa. Ângelo Ramalho não tece grandes considerações sobre o tema, lembrando que a reprivatização foi anunciada logo no momento da nacionalização e que este é um processo que "está em curso e é gerido" pelo acionista maioritário.

A anulação da transferência anual habitual para o Fundo de Resolução injetar no Novo Banco foi uma pedrada no charco que veio trazer muitas dúvidas sobre como vai ser capitalizado o banco em 2021. A verba de 476 milhões de euros estava inscrita na proposta de Orçamento do Estado para 2021 mas não passou no Parlamento. Bloco de Esquerda e PSD admitiram a possibilidade de poderem vir a apoiar um Orçamento retificativo para poder aprovar essa transferência do Tesouro, mas só se existirem respostas na altura sobre como têm sido feitas as vendas de ativos do banco, cujas perdas são assumidas e cobertas pelo Fundo de Resolução - que está na esfera pública.

Alguns bancos estavam também a preparar uma operação para fazerem um empréstimo ao Fundo de Resolução e completar a verba necessária para ser injetada no Novo Banco em 2021, de cerca de 900 milhões de euros. A instituição continua a registar perdas. Acumulou um prejuízo de 853,1 milhões nos primeiros nove meses de 2020, um agravamento face aos 572,3 milhões de euros obtidos em igual período do ano passado.

Outro banco que pode dar que falar em 2021 é o Millennium bcp. O banco liderado por Miguel Maya confirmou que o seu segundo maior acionista, a angolana Sonangol, está atento a eventuais movimentos de consolidação bancária na zona euro e em Portugal" e irá analisar "eventuais oportunidades de criação de valor" para o banco e os acionistas. Com uma participação de quase 20% no maior banco privado português, a Sonangol é o segundo maior acionista do BCP, depois da chinesa Fosun.

A indústria da moda é das que mais duramente está a ser atingida pela pandemia. O clima de incerteza, a crise e o crescimento do desemprego não são fatores que incentivem à compra de roupa, muito menos, quando grande parte dos europeus e americanos continuam semiconfinados. Mas como em tudo, há o reverso da medalha. A Europa percebeu que estava demasiado dependente da Ásia e há cada vez mais empresas que olham para Portugal como uma alternativa de confiança e proximidade. E a Polopique, referência mundial no setor têxtil, está a tirar partido disso.

"Temos sido procurados por muitas empresas e o facto de sermos uma unidade vertical, das poucas que ainda existem, dominando todas as fases produtivas, desde a fiação até à confeção, proporciona-nos outra rapidez que, a par da oferta de design e de um serviço completamente diferenciado, tem sido a nossa mais-valia", diz Luís Guimarães, responsável da empresa.

O grande problema é a falta de mão-de-obra obra e, por isso, a Polopique tem vindo a investir crescentemente na automatização dos seus processos e tem já quase 50% da parte da confeção digitalizada. Mas, mesmo as máquinas precisam de trabalhadores para as controlar e são difíceis de arranjar. Dos 50 postos de trabalho que queria ocupar, antes do verão, conseguiu 10 ou 12. E, por isso, Luís Guimarães defende fusões e parcerias estratégicas que assegurem dimensão à indústria portuguesa.

"Não precisamos de grandes empresas, precisamos que as pequenas se transformem em médias e as micro em pequenas. Já seria um salto suficiente para termos outra capacidade de resposta. Senão, vamos ficar reféns, na área do produto acabado, de outros países, designadamente do Magrebe", diz.

A própria Polopique, que tem na Inditex, a dona da Zara, o seu principal cliente, produz em Marrocos, mas quer reduzir, cada vez mais, essa exposição. Os investimentos que tem feito, 30 a 40 milhões nos últimos cinco anos, a que se juntam os 10 a 12 milhões orçamentados para 2021, irão ajudá-lo nisso. E espera arrancar com a fábrica de fiação de linho, um projeto que atrasou por causa da covid-19, mas que espera ter em produção no final do próximo ano.

A TAP é uma das empresas que vai fazer correr muita tinta ao longo de 2021. O contágio da pandemia à atividade da transportadora aérea vai continuar e o efeito da vacina poderá ajudar a minimizar as perdas, mas não vai ser uma imunização total.

O plano de reestruturação está já em Bruxelas e o governo acredita que as negociações vão estar concluídas durante o primeiro trimestre de 2021. Mas nem por isso a situação ficará mais simples. Mesmo que Bruxelas não obrigue a grandes mudanças no plano, a reestruturação vai ser dura em termos laborais e possivelmente alvo de contestação dos trabalhadores. Está aberto um programa voluntário para saídas - rescisões por mútuo acordo e trabalho a tempo parcial, etc - que pode minimizar os despedimentos, mas a verdade é que o objetivo é que saiam cerca de duas mil pessoas (pilotos, tripulantes e pessoal de manutenção e engenharia e outros serviços) da TAP de forma a encurtar os encargos com salários. E os trabalhadores que ficarem vão ter um corte salarial de até 25%, reduzindo também a despesa com pessoal.

Por outro lado, a TAP vai começar o processo de redução da sua frota. A expectativa é que termine 2021 com 88 aeronaves, menos que as 108 que tinha no ano passado. A TAP vai continuar a precisar do suporte público, estando estimado que em 2021, companhia precise entre 970 milhões de euros e 1164 milhões de euros. Em princípio em forma de garantias públicas e não por forma de desembolso de verbas.
Os apoios vão continuar até 2024, sendo que é expectável que que apenas em 2025 a companhia comece a devolver a ajuda ao Estado.

*Com Ana Laranjeiro e Elisabete Tavares, jornalistas do Dinheiro Vivo

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