Nas ruas do Bairro Alto os negócios fazem-se ao copo

Um grupo destaca-se no meio da multidão. Carmen Barber garante que ninguém se perde e vai repetindo gestos frenéticos para o grupo que vem atrás. "É por aqui, vamos! Temos de subir."

Numa das mãos, segura uma placa com o número 78. É seguida por cerca de duas dezenas de pessoas, de copo na mão e sorrisos no rosto. As ruas do Bairro Alto estão cheias de gente como eles. E ainda não são dez da noite.

Os 60 mil participantes da Web Summit foram convidados pela organização a conhecer a noite de Lisboa. Por cada dia da semana, uma paragem diferente na movida da capital, depois de as luzes dos palcos se apagarem, no Parque das Nações. Ao todo, organizaram-se 120 grupos para os chamados Pub Crawls, ou seja, para o entra e sai dos bares.

"Alistei-me como voluntária para receber as pessoas que se inscreveram para participar nesta noite", explica ao DN/Dinheiro Vivo Carmen Barber. "Calhou-me uma malta animada. Bastante heterogénea. Não veio foi nenhum investidor. É uma pena", lamenta.

Os membros do grupo parecem não se importar. Cantam, brincam, conversam. "Não estou focado em angariar investimento", assume o norueguês Klaus Hatle, da startup EnlightAID. "A nossa empresa traça o rasto dos donativos que as pessoas entregam às instituições de caridade. Isto porque de todo o dinheiro que se angaria, há cerca de 30% que se perde para corrupção." A ideia é nobre mas Klaus assume que, pelo menos esta noite, não quer pensar nela. "O trabalho fica para a luz do dia. Agora quero conhecer pessoas. Passar um bom bocado."

Os dias são preenchidos. Os participantes da Web Summit têm de saber dividir-se entre o sem fim de corredores de empresas em exposição e os palcos onde as estrelas de cada área trocam ideias. "Estou curioso para ouvir o CTO da Amazon e o Al Gore a falar das alterações climáticas", afirma o sérvio Nemanja Memanja. Mas o pensamento politicamente correto não dura muito. "Posso dizer a verdade? O que me interessa é o que se passa aqui nas ruas. Os debates podemos vê-los mais tarde no YouTube. É muito bom que a organização da Web Summit promova estes momentos de socialização. Aqui é que tudo acontece", afirma o participante, encostado numa esquina da Rua do Norte.

A noite continua pela Rua da Barroca, onde não cabe nem mais um empreendedor. No site oficial da Web Summit há uma lista com mais de uma centena de espaços, só no Bairro Alto e Príncipe Real. São parceiros da conferência tecnológica e oferecem descontos a quem trouxer a acreditação ao peito. "Fazemos uma pequena atenção. É um agrado. Vale muito a pena. Estas noites compensam--nos imenso", admite Júlio César, do Side Bar. No ano passado, a semana da cimeira tecnológica aumentou-lhe drasticamente as receitas. "É o mundo inteiro aqui em Lisboa. Notámos muita diferença. Vendemos bastante mais. Também começa cedo. A noite lisboeta não arranca antes da madrugada e nestes dias, às oito já tenho gente."

Ainda não bateu a meia-noite e já é quase impossível circular naquele pequeno cruzamento do Bairro Alto. De um lado, o Side Bar, enfeitado com balões e música latina. Do outro, o Clube da Esquina, também com lotação esgotada. "Desculpem, não consigo falar convosco agora. Estou no período crítico. Muita gente", lamenta o gerente, sem mãos a medir para atender todos os participantes da Web Summit que se alinham junto ao balcão à espera de uma bebida.

"Novembro é um mês fraco. E desde a chegada da Web Summit que tudo mudou. É um balão de oxigénio, ainda por cima durante a semana, que é quando temos menos faturação. Os lucros disparam mais de 50%", sublinha João Barrigó, do estabelecimento Oito Nove. E vai mais longe. Há poucos eventos que se comparem a esta iniciativa da Web Summit. Nem os já habituais festivais da cerveja como os Santos Populares ou o fim do ano letivo nas universidades. "Melhor do que a Night Summit só os europeus e mundiais de futebol. Queremos que fiquem durante muitos anos."

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