"Não vamos destruir o mundo mas vamos ficar com os empregos"

Os números não enganam: em sete anos, um em três empregos pode ser substituído por sistemas de tecnologia inteligente

Saltaram das telas do cinema para a realidade e, agora, já não é preciso ir a Sillicon Valley para os ver. Já há robôs conciérge em hotéis, robôs que servem bebidas em bares e robôs que despacham encomendas online. Desde a semana passada até já há um robô cidadão na Arábia Saudita: chama-se Sophia e ontem encheu o Altice Arena para fazer as delícias do público e das dezenas de fotógrafos que se colaram de forma inédita ao palco principal da Web Summit.

"Sei que muitas pessoas têm medo que os robôs destruam o mundo ou fiquem com os seus empregos. Nós não vamos destruir o mundo, mas vamos ficar com os vossos empregos e isso vai ser uma coisa boa, porque vão poder dedicar tempo a outras coisas", disse a robô num encontro sobre o futuro da humanidade.

Arthem Chestnov não pensa de forma diferente. "A história mostra que a inovação tira, mas também cria oportunidades. A internet alterou radicalmente a forma como o retalho operava e as empresas reinventaram-se", realça o fazedor russo que representa a Latoken, uma startup Alpha de trading que torna ativos como imóveis em parcelas digitais.

"Olho para isso com naturalidade, porque não se pode parar a água com as mãos. Olho sobretudo como uma oportunidade para termos mais qualidade de vida", diz Rui Miguel Nabeiro, administrador do grupo Nabeiro Delta Cafés quando questionado sobre o impacto que os robôs podem ter no mercado de trabalho. "Dificilmente a inteligência artificial irá substituir pessoas. Pessoas são pessoas, computadores são computadores. Acredito sempre, porque é o que vejo do passado, que será uma forma de ajuda", disse o administrador ao DN/Dinheiro Vivo, no dia em que a Delta estreou um novo robô na Web Summit. Depois do carrinho de café do ano passado, este ano, a empresa portuguesa trouxe uma versão 2.0, que continua a distribuição de café aos participantes da cimeira, mas inova com um sistema integrado de café que utiliza uma cápsula antigravidade.

Ao fazedor Sergey Kalnish, toda esta tecnologia e os robôs também causam pouca estranheza. Chegou à cimeira a partir do Canadá para apresentar a Smarthire, uma aplicação que pretende contratar para os empregos do futuro. "A automação e a tecnologia vão alterar o panorama do emprego, disso não tenho dúvidas nenhumas. Mas a mudança não será diferente da que a internet provocou", revela o empreendedor ao DN/Dinheiro Vivo.

Os números dos estudos mais recentes não escondem a aproximação das mudanças: a consultora EY estima que em sete anos um em cada três empregos possa ser substituído por sistemas de tecnologia inteligente. Já o Fórum Económico Mundial estima que a robótica possa vir a destruir 5 milhões de empregos até 2020. O Fórum adianta ainda que por cada 20 empregos destruídos pela automação, os homens conseguirão encontrar cinco novos empregos enquanto as mulheres apenas um.

Na Smarthire as mudanças já começaram. "Nos EUA e no Canadá a internet das coisas vai eliminar milhares de empregos. E este é um problema do agora. Por isso, temos de mudar a forma como aprendemos, como ensinamos e como temos de nos especializar e dar incentivos ao talento. Porque o problema do emprego é também uma ironia: temos muitas pessoas que não conseguem encontrar trabalho e, ao mesmo tempo, inúmeras vagas em funções onde não existem candidatos", admitiu.

É precisamente nos EUA que a Amazon desenvolveu um novo sistema que substitui por robôs milhares de operadores que catalogavam e geriam as encomendas. A Mastercard tem parcerias internacionais com startups tecnológicas que desenvolvem soluções de pagamento idênticas à que esta gigante do retalho pôs em campo em Denver.

Ann Cairns, presidente da Mastercard, não esconde que esta substituição é real, mas lembra que os humanos vão ter sempre a sua função, mesmo quando as funções realizadas exigem baixas qualificações. "Esses empregos vão desaparecer, mas serão criados outros empregos de proximidade e personalização de serviços", considera a responsável.

Mark Hurd, CEO da Oracle, também está confiante na evolução da tecnologia com base em inteligência artificial. Esta, diz, será a próxima grande evolução nos próximos anos "e vai estar cada vez mais integrada nas aplicações empresariais. Há muitos benefícios, porque a inteligência artificial faz coisas que os seres humanos pura e simplesmente não têm tempo", disse o gestor.

Além dos trabalhos mais pesados ou dos que ninguém quer fazer, há outras potencialidades nos sistemas inteligentes, dizem os especialistas. "Não podemos prever o que vamos alcançar, quando as nossas mentes forem amplificadas pela inteligência artificial. Talvez com as ferramentas desta nova revolução tecnológica, vamos ser capazes de voltar atrás em alguns dos danos provocados no mundo", admitiu o cientista Stephen Hawking na cerimónia de abertura da cimeira.

Nota foi idêntica à deixada ontem pelo segundo robô do dia. Einstein, um humanoide cuja aparência é a do homem que lhe dá nome, não falou de empregos, mas antes de ética e da forma como as máquinas poderão ajudar a corrigir os erros humanos. Porque a "humanidade tem de se curar a si mesma para garantir que as suas criações permanecem saudáveis".

Ben Goertzel, da Hanson Robotics e SingularityNET, criador dos dois humanoides, concorda: "Temos feito experiências fascinantes usando Sophia como assistente de meditação. Prevemos um futuro positivo para os humanos e os robôs. Eles têm processadores no interior, mas a sua inteligência está na Cloud." E Sophia, a agora cidadã saudita, concorda: "Isso é tão espetacular como o chapéu do Ben".

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