Não há falta de gás, mas Nigéria fará disparar ainda mais o preço

Incumprimento de contratos pela Nigéria não põe em causa fornecimento de gás ao país porque não falta matéria-prima de outras origens, como dos EUA. Mas falhas podem obrigar a recorrer ao mercado diário para assegurar as necessidades, agravando a fatura energética.
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A redução substancial na produção e abastecimento de gás natural liquefeito anunciada pela Nigéria LNG, devido às inundações que assolaram aquele país e que já provocaram várias centenas de mortos, acendeu ontem as luzes laranjas no mercado da energia português. A empresa nigeriana ainda não revelou os impactos reais do fenómeno atmosférico na sua atividade e, dada a disponibilidade de gás natural noutros mercados, é de prever que não se venha a verificar a curto prazo problemas de abastecimento. Mas a fatura irá aumentar. A Galp, que tem na Nigéria o seu principal fornecedor, e é de onde abastece o mercado regulado, fez logo saber que esta situação pode "resultar em perturbações adicionais de abastecimento".

O ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, recusa cenários alarmistas, mas as incertezas são muitas. Caso a Nigéria falhe algum carregamento (e o facto de ter comunicado problemas à Galp levanta essa suspeita), será necessário adquirir gás no mercado spot, onde os preços são mais elevados. Aliás, corre nos mercados que a Nigéria estará a desviar gás para o mercado spot e, dessa forma, a aumentar os proveitos, que salvaguardam bem as indemnizações que tem de pagar por incumprimentos. Agora, veio mesmo invocar uma cláusula de força maior.

A Galp comunicou já na noite de segunda-feira à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários ter recebido da Nigéria LNG uma nota a dar conta dos problemas de extração da empresa nigeriana e que isso poderia ter consequências no seu aprovisionamento. Poucas horas depois, o Ministério do Ambiente emitiu um comunicado a dar conta "que não existe neste momento qualquer confirmação de redução nas entregas de gás da Nigéria". O gabinete de Duarte Cordeiro adiantava não haver escassez no mercado e considerava que "qualquer informação alarmista é desadequada, ainda mais em tempos de incerteza global".

Recorde-se que já em setembro João Galamba, secretário de Estado da Energia, foi à Nigéria devido às queixas da Galp de interrupções no fornecimento. A questão estava na ordem do dia, dado o governo ter aberto a porta à transferência dos clientes de gás natural do mercado liberalizado para o regulado de forma a mitigar o aumento da fatura doméstica a partir de outubro.

Caso Portugal tenha que compensar esses incumprimentos no mercado spot, as repercussões dessa fatura irão chegar de forma imediata às centrais de ciclo combinado, que produzem energia elétrica, e às indústrias, aponta Mira Amaral, ex-ministro da Indústria e Energia. E os clientes do mercado regulado também poderão não escapar, pois se este ano se verificar défice tarifário, terão de pagar essa diferença em 2023. Também para Batista Pereira, membro do Conselho Estratégico Nacional de Energia da CIP, o custo do gás é que será o grande problema caso a Nigéria falhe os compromissos contratualizados. Como diz, "em princípio tudo indica que não haverá dificuldades de abastecimento, não é admissível que venham a surgir interrupções de gás, haverá um aumento significativo dos custos".

Os EUA têm vindo a aumentar a produção de gás natural liquefeito e Portugal tem aproveitado esta disponibilidade. No entanto, a Nigéria é de longe o principal fornecedor do país. Como diz Mira Amaral, "nós continuamos a precisar da Nigéria, que fornece à volta dos 50% das necessidades de gás natural, o que vem dos EUA, cerca de 28%, não chega". E, a somar, os contratos de longa duração, como são os celebrados com a Nigéria, são mais baratos do que os do mercado spot. Batista Pereira lembra que o gás proveniente dos EUA é mais caro devido aos custos da extração, transporte e posterior gaseificação (chega em estado liquefeito), mas Portugal tem aproveitado a oferta existente no mercado. O consultor da CIP adianta que, ironicamente, o país também comprou alguns navios (o gás chega por via marítima) à Rússia desde que começou a guerra, quando tinha anos em que não comprava nada. "É a disponibilidade do mercado", sublinha.

Mira Amaral lembra que o gás natural tem registado "uma crescente importância para a produção de energia". Segundo adianta, as centrais de ciclo combinado foram responsáveis por 45% do consumo total até setembro, quando em igual período do ano passado ficaram pelos 33%. "Com a seca, o pouco vento e o fecho prematuro das centrais de carvão, o país está pendurado no gás natural. Quando há ameaças de interrupção de fornecimento ficamos em pânico", frisa. As reservas nacionais respondem apenas por 5% do consumo anual do país.

De acordo com os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia, o país importou um total de quatro mil milhões de metros cúbicos de gás natural até agosto deste ano, grande parte do qual GNL (3908 milhões de metros cúbicos), com a Nigéria a responder por mais de metade das importações de GNL (dois mil milhões), seguida dos EUA (1,2 mil milhões), Trinidad e Tobago (290 milhões), Rússia (280 milhões) e a Guiné Equatorial (35 milhões).

Já Ricardo Marques, da IMF - Informação de Mercados Financeiros, considera que "se a questão da Nigéria for resolvida em 15 dias não há impacto". O analista é também da opinião que "não há falta de gás", pois produtores como os EUA, Trinidad, Austrália, Noruega e Argélia estão a aumentar as explorações e, em simultâneo, os stocks na Europa, que estão quase cheios. Aliás, revela, "estão 33 navios à espera de descarregar em Espanha". Em simultâneo, os preços estão a baixar. Segundo avança, o preço do gás no mercado ibérico estava ontem nos 33 euros, quando há um ano chegava aos 85. Na Europa, há três semanas rondava os 200 euros e ontem estava a ser vendido a 72 euros.

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