Militares chamados ao conflito dos motoristas

Incumprimento de serviços mínimos levou Governo a concretizar a ameaça da requisição civil

A requisição civil dos motoristas esteve sempre em cima da mesa caso não fossem cumpridos os serviços mínimos decretados pelo Governo para a greve dos motoristas de matérias perigosas. Ao fim do dia, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Tiago Antunes, anunciou ao país que o Governo "não teve alternativa" e avançou mesmo com a medida. A requisição civil visa, para já, o abastecimento da Rede de Emergência de Postos de Abastecimento (REPA), as bombas do sul do país, a partir de Sines, os aeroportos e as unidades autónomas de gás natural.

A decisão saiu de um Conselho de Ministros Eletrónico, após 19 horas de paralisação, e obriga à publicação de uma portaria, acionando a requisição civil, e de uma outra para definir como serão mobilizados as Forças Armadas. Segundo Tiago Antunes, o abastecimento dos postos REPA "não ocorreu nas mesmas condições que no período homólogo", como definem os serviços mínimos, e no aeroporto de Lisboa foram contabilizadas 25 viagens até às 16 horas, quando deveriam ter sido realizadas 119. A requisição civil será "gradual e progressiva", adiantou ainda.

Avisos de Marcelo

Pardal Henriques considerou a medida "como um ataque à greve", porque - defendeu - os motoristas cumpriram os serviços mínimos. "O Governo não esteve aqui (...) estas pessoas saíram para trabalhar, simplesmente fizeram oito e não as 14 ou 15 horas que habitualmente fazem", defendeu o vice-presidente do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas.

Antes de acionar a requisição civil, o primeiro-ministro, António Costa, esteve reunido com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para lhe dar conta da situação. Após esse encontro, Marcelo Rebelo de Sousa alertou para a "responsabilidade de todos os envolvidos neste conflito entre entidades privadas, na procura de soluções justas, sem sacrificar, de modo desproporcionado os portugueses".

Guerra de números

A guerra entre o cumprimento ou não dos serviços mínimos estende-se também aos dados da adesão à greve. Os patrões, pela voz da ANTRAM (Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias) dizem que a adesão não chegou a 1%, mas os representantes sindicais dos motoristas atiram para 80%.

A ANTRAM, desde o fim da manhã, solicitava ao Governo o recurso à requisição civil, alegando vários incumprimentos.

"Em Sines, temos tudo parado, no aeroporto de Lisboa o incumprimento é de 75% e da Petrogal saíram apenas 48 das 225 cargas previstas", disse Matias de Almeida, porta-voz da ANTRAM. Já Pardal Henriques falou numa adesão "na ordem dos 80%" e frisou que a greve pode durar um dia, uma semana ou um mês. Desde as 23:59 de 12 de agosto (segunda-feira) que o país está em situação de crise energética, o que permitiu a definição da REPA com 54 postos prioritários e 320 de acesso público.

E se na região do Porto o abastecimento automóvel decorreu ontem sem qualquer dificuldade, nas regiões transfronteiriças, nomeadamente no norte e sul do país, registou-se um forte movimento de carros portugueses para abastecer em Espanha, havendo mesmo notícias de postos esgotados.

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?