Luís Onofre. "Todos teríamos a ganhar em antecipar já o aumento salarial de 2023"

Presidente da APICCAPS mostra-se preocupado com a falta de matérias-primas, a escalada de preços e, sobretudo, a falta de mão-de-obra para suportar um novo fôlego de desenvolvimento do setor. Mas acredita na capacidade da indústria para superar as novas barreiras.

À margem da Micam, em Itália, Luís Onofre, líder da associação do calçado APICCAPS, diz que os empresários estão já a antecipar parte dos aumentos salariais que deveriam acontecer para o ano, por força da inflação, mas pede especial atenção à vertente comercial, para se evitar a assunção de preços finais a prazo, para que as fábricas não se venham a debater mais à frente "com um grave problema".

Como está a correr o ano para o calçado?
Há uma procura enorme das grandes marcas pela produção em Portugal. Mas não só. Itália, Espanha, Grécia, está tudo a abarrotar de trabalho, as fábricas já não têm para onde se virar com tantos pedidos de encomendas. É uma coisa boa, claro, mas não quer dizer que vá continuar para o ano. Tenho receio que o futuro possa ser complicado, principalmente com a continuação da guerra e todas estas contingências relacionadas com a falta de materiais. Não me lembro, em toda a minha vida, de uma falta de materiais desta ordem. Está a ser uma catástrofe.

Em que medida?
Em condições normais, estaríamos a abrir a coleção em finais de julho, princípios de agosto, este ano, já vamos a meio de setembro e a maior parte das coleções ainda não saíram para a rua. O que é um sinal claro que não estão a receber a mercadoria como seria habitual. Eu tive, neste primeiro semestre, nas lojas Luís Onofre, provavelmente o melhor ano de sempre. Chegou uma altura em que não tinha produção [para repor stocks]. Em julho e agosto já se sentiu uma quebra brutal no consumo. Em setembro melhorou um bocadinho, mas temos falta de produtos para pôr nas lojas porque os materiais tardam em chegar.

O aumento do private label (subcontratação) não é um risco?
Acho que a criação de uma marca própria e o private label são duas estratégias que se complementam na perfeição. Para mim, é muito positivo que tenhamos trabalho, porque isso permite-nos dar aumentos salariais aos nossos trabalhadores. Que é aquilo que vai ser necessário fazer para o ano, embora muitos já o estejamos a fazer antecipadamente. E espero que isso seja um incentivo para que os jovens se possam sentir atraídos para o calçado. A falta de mão-de-obra é o principal fator de preocupação da indústria. Se não tivermos gente jovem dentro em breve nas nossas empresas isto vai ser um descalabro.

Já aumentou os seus trabalhadores?
Vou fazê-lo para o próximo mês, não sei dizer ainda em quanto, mas julgo que todos teríamos a ganhar em anteciparmos o aumento do ano que vem já para este.

E o calçado, quanto tem de aumentar para fazer face ao aumento do custo das matérias-primas?
Eu já fui criticado por dizer que os sapatos deviam aumentar quase 30%, mas em alguns casos e em algumas marcas já aumentou até mais. A verdade é que há ainda empresários que acreditam que conseguem manter os preços atuais, mas isso pode até ser prejudicial para a credibilidade da nossa indústria. Ainda há clientes que vêm da China e chegam a Portugal à procura de preços baixos. Precisamos de mudar esse chip de uma vez por todas. Temos que fazer ver aos clientes internacionais que Portugal produz qualidade e a qualidade tem que ser paga ao preço justo.

Este é o momento certo das empresas para ajustarem preços, agora que estão a apresentar a nova coleção?
Sempre fui apologista que as revisões de preços têm de acontecer quando são necessárias para dar respostas aos aumentos das matérias-primas e outros custos. Uma empresa existe para dar lucro, sem lucro não faz sentido e hoje há muitas empresas que preferem não aumentar os seus preços, existindo só por existirem, e isso é um perigo iminente. Não podemos dar preços definitivos quando não sabemos se, daqui por seis meses, a matéria-prima vai custar o dobro. Isso pode criar um problema gravíssimo para quem assina contratos com preços pré-estabelecidos. Não se podem dar preços definitivos, têm de ser valores condicionados ao não aumento das matérias-primas.

Quanto aumentou já os preços do seu calçado?
Andará à volta dos 15 a 20%, mas tudo depende do tipo de produto. O importante é estarmos atentos e não cairmos no logro. Acho que há um aproveitamento claro de muitas indústrias e produtos que aumentaram sem justificação aparente e isso é algo que me chateia. Há casos em que nos dão preços válidos por uma semana. Não me lembro nunca de tal ter visto.

Teme falências e encerramentos?
Sou um otimista, penso que não. Já passámos por tanta coisa, e bem pior... Veja-se a deslocalização completa das multinacionais para a Ásia no início dos anos 2000. Deve ter sido o maior embate que sofremos e sobrevivemos. Já passámos por várias crises, temos uma resistência admirável. Acredito que também esta seja passageira.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS

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