Luís Onofre: preço da energia em Portugal tem de baixar para a indústria

Mais do de que debater o aumento do salário mínimo nacional, que considera inevitável, o presidente da associação do calçado quer que a competitividade da indústria seja tida em conta ao nível dos custos energéticos

Num mundo crescentemente globalizado, a competitividade das marcas é fulcral. Confrontado com declarações polémicas de um associado ao ministro do Planeamento sobre a necessidade de haver contenção salarial, Luís Onofre, presidente da associação portuguesa do calçado, contrapõe: o preço da energia tem de baixar.

O salário mínimo é um problema na indústria? Nelson de Souza foi surpreendido pelo pedido de contenção por parte de um dos empresários que visitou na feira de calçado de Milão. Rui Oliveira, da Fábrica de Calçado Mata, de Ovar, admitiu mesmo que em causa está a competitividade das empresas e o risco de despedimentos. Uma opinião que não é partilhada pela maioria dos industriais presentes na Micam. "Se queremos ter bons trabalhadores, temos de os remunerar bem", diz Carlos Abreu, da Perlato, de Vila Nova de Gaia. Raquel Santos, da Zarco, concorda: "Todos temos custos fixos, casas, carros, filhos, e as pessoas têm de viver com alguma dignidade. Luís Onofre corrobora, mas pede ao governo que tenha em conta os custos da energia, de modo a melhorar a competitividade das empresas portuguesas.

"Quem nos dera a nós, industriais, pagarmos mais às nossas pessoas para que elas possam viver felizes com o que estão a fazer", diz o empresário de Oliveira de Azeméis, que assume como inevitável que os salários aumentem. O problema é a "pressão dos clientes" sobre o preço do produto, o que obriga as empresas a "reagir de forma inteligente", envolvendo os seus colaboradores no aumento da produtividade. Do governo, Onofre, que é também presidente da APICCAPS, a associação portuguesa do setor, e líder da Confederação Europeia do Calçado, espera que haja abertura para discutir o tema da energia. "O preço da energia em Portugal tem de baixar. É um fator crucial. E é preciso dar novamente apoios a quem quiser investir em energias renováveis", argumenta.

Na Zarco, a empresa de São João da Madeira que detém a marca Carlos Santos, de calçado de luxo para homem, a maior preocupação é a falta de mão-de-obra especializada, sobretudo atendendo ao tipo de produção muito artesanal dos seus sapatos. "Temos contratado gente nova, muito dinâmica e muito pró-ativa, para substituir alguns dos nossos trabalhadores que se reformam, mas é difícil ensinar-lhes aquilo que os nossos mestres já sabiam de cor. Recebemos muitos currículos, mas tudo quer ir para a área administrativa", diz Raquel Santos. A empresa tem cerca de cem trabalhadores e garante que não tem ninguém a receber o salário mínimo. "Tentamos que, ao fim de algum tempo na casa, superem pelo menos essa barreira", frisa.

A APICCAPS, que em 2017 assinou um "acordo coletivo histórico" com os sindicatos, impondo a "igualdade remuneratória" para os trabalhadores que desempenham funções do mesmo nível de classificação profissional, independentemente de serem mulheres ou homens, acordou, já neste ano, um aumento de 5,3% na massa salarial do setor. "O bem-estar dos trabalhadores na indústria do calçado é, desde há muito, uma prioridade em Portugal", garante o diretor de comunicação da associação, Paulo Gonçalves, sublinhando que "o número de colaboradores na fileira aumentou mais de 20% na última década, com a entrada de dez mil novos profissionais".

E como encaram este tema algumas das outras indústrias? A metalurgia e a metalomecânica garantem que as preocupações dos seus empresários "têm mais que ver com a dificuldade em contratar os trabalhadores de que precisam" do que propriamente com as questões salariais, até porque, garante Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP, "nenhum trabalhador das empresas associadas aufere atualmente o salário mínimo nacional". A própria dificuldade em arranjar mão-de-obra tem obrigado o próprio setor a tornar-se "mais atrativo" em termos de remuneratórios. A retribuição mínima do grau mais baixo da tabela salarial no contrato coletivo de trabalho em vigor nesta indústria é de 605 euros.

Mas Rafael Campos Pereira reconhece que isso não significa que a metalurgia e a metalomecânica sejam indiferentes ao tema. "Caso venha a verificar-se um aumento significativo [no salário mínimo nacional], de 5% ou mais, poderá haver um impacto indireto, obrigando a subir outros salários de uma forma superior ao que seria desejável e, nesse caso, poderemos, efetivamente, sentir algumas dificuldades", diz. Já se os aumentos forem da ordem de grandeza dos dois últimos anos, "a nossa indústria irá acomodá-los", promete.

Para o diretor-geral da ATP - Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, a questão nada tem que ver com o valor do salário mínimo, mas com a competitividade das empresas. "Uma indústria que não tem os seus fatores de base competitivos, como o custo do trabalho, o custo do dinheiro, o custo da energia ou o custo ambiental, acaba por não conseguir vingar, especialmente se concorrer em mercado aberto e global", lembra. Embora reconheça que há, obviamente, "outros elementos que mitigam estas considerações, como a inovação ou o contexto fiscal, amigo dos negócios, que permitem que países com elevados custos em termos salariais sejam, apesar disso, competitivos".

Paulo Vaz assume que o tema "é delicado", desde logo porque se confunde o salário com o custo do trabalho, este, sim, "penalizado pela fiscalidade, tal como todas as atividades produtivas, seja no que concerne às empresas como aos trabalhadores". Mas, também, porque, quando alterado, o salário mínimo "não afeta apenas os salários mais baixos, mas repercute-se em toda a grelha salarial", para continuar a distinguir quem tem mais qualificações e responsabilidades.

Significa isto, acrescenta, que, mesmo que uma empresa tenha apenas 5% dos seus trabalhadores a ganhar o salário mínimo, se este aumentar 5% como aconteceu nos últimos anos, tal implica uma subida, "na mesma medida e proporção", de toda a massa salarial, com um "forte agravamento no custo do trabalho". Ou seja, nos últimos quatro anos, com os aumentos do salário mínimo na casa dos 5% anuais, "muitas empresas acabaram por ver os seus custos salariais penalizados em cerca de 15%, muito acima da inflação registada e da produtividade que, em alguns casos, até foi negativa".

* A jornalista viajou a convite da APICCAPS.

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