Luanda pede ajuda ao FMI para reformar economia angolana

Governo justifica opção com necessidade de "reforçar estabilidade macroeconómica". Dirigente empresarial fala em "boa notícia"

O Ministério das Finanças angolano justificou ontem o pedido de ajuda externa ao FMI (o segundo em sete anos) com a necessidade de aplicar políticas macroeconómicas e reformas estruturais que diversifiquem a economia e respondam às necessidades financeiras do país. "Com o objetivo de desenhar políticas macroeconómicas e reformas que restaurem o crescimento económico forte e sustentável, de fortalecer a moldura institucional que suporta as políticas económicas, de lidar com as necessidades da balança de pagamentos, e manter um nível adequado de reservas internacionais, o governo pediu o apoio do FMI para complementar a atempada resposta ao declínio dos preços do petróleo", lê-se na nota.

O documento não refere o valor da assistência financeira (segundo o economista chefe da consultora Eaglestone, especializada em mercados africanos, pode chegar aos 1,5 mil milhões de dólares), centrando-se na assunção de um conjunto de compromissos políticos que passam pelo aumento da transparência das contas públicas, maior diversificação económica e pela promessa de um reforço da aposta nas áreas da agricultura, pescas, minas, educação, serviços financeiros, água, serviços básicos e saúde. "O governo está (...) empenhado nos objetivos da diversificação económica expostos no Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 e considera que a preservação da estabilidade macroeconómica e a implementação de uma agenda de reformas estruturais ambiciosa são elementos essenciais para a estratégia de obtenção destes objetivos", lê-se no comunicado.

O texto assume que "o governo está consciente da forte dependência que o setor petrolífero representa para a vulnerabilidade das finanças públicas e para a economia", sublinhando que "os esforços sustentados desde há muitos anos para promover a diversificação económica já resultaram num significativo aumento da contribuição do setor não petrolífero no PIB de 68,1% hoje, comparado com os 40% dos anos 80, mas o petróleo representa ainda mais de 95% das receitas das exportações e 52% da receita fiscal em 2015". O documento indica o empenho em realizar um conjunto de reformas para reforçar a estabilidade macroeconómica e financeira, a transparência no setor bancário e nas finanças públicas, além de melhorias na tributação. As discussões deste empréstimo e do apoio institucional às políticas macroeconómicas de Angola deverão começar no final da próxima semana, em Washington, seguidas de mais negociações em Angola, em que será definido o "âmbito das medidas políticas necessárias dado os requisitos do Programa de Financiamento Ampliado".

Numa reação à notícia, o dirigente da Associação Industrial de Angola, José Severino, disse à Lusa que o pedido de assistência só peca por tardio e que a petrodólar mania acabou no país. "É uma boa notícia, que vem atrasada. Mas mais vale tarde do que nunca", disse José Severino, recordando que a quebra da cotação do barril de crude desde 2014 e o arrefecimento do crescimento económico da China - que compra metade do petróleo angolano - tornaram a "chamada do FMI" a Angola "inevitável".

Empresas perdem na Bolsa

BPI, BCP e Mota-Engil - três das empresas cotadas na Bolsa com maior exposição a Angola - perderam ontem 200 milhões de euros num único dia, depois de Luanda ter pedido ajuda ao FMI. Escaparam a Galp e a Nos. A petrolífera, que explora poços em Angola, valorizou 38,4 milhões (+0,47%), impulsionada pela subida dos preços do petróleo; a operadora de telecomunicações, onde Isabel dos Santos está presente através da Zopt, ganhou 21,6 milhões (+0,62%).

Quanto às perdas, mais de metade veio do BPI. O banco presidido por Fernando Ulrich tem quatro dias para negociar com a Santoro, a holding de Isabel dos Santos, uma solução que permita reduzir a exposição ao mercado angolano, como exige o Banco Central Europeu (leia mais na página 17). O BPI vale agora menos 104,9 milhões na Bolsa (-5,83%). O BCP perdeu 82,6 milhões (-4,08%). O banco liderado por Nuno Amado tem como principal acionista a Sonangol, a petrolífera angolana que atravessa dificuldades financeiras.

Com a construção a perder gás, África já não é o que era para a Mota--Engil, que só em 2015 viu os negócios neste continente caírem 20%. A construtora perdeu ontem 12,1 milhões em Bolsa (-2,83%), uma vez que mantém ainda importantes obras em Angola. LUSA

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG