"A probabilidade de recessão está agora muito mais presente no horizonte", o desemprego pode subir e há uma "preocupação" com estas ameaças, disse ontem Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), no dia em que anunciou uma nova subida de grandes dimensões das taxas de juro diretoras..Ontem, apesar de ter proferido pela primeira vez durante esta crise a palavra "recessão", o BCE apertou ainda mais o custo do dinheiro, colocando, por exemplo, a taxa principal da zona euro nos 2%..É este custo de refinanciamento aplicado aos bancos sempre que estes precisam de ir buscar fundos normais aos bancos centrais. Se este custo sobe, os bancos repercutem mais cedo ou mais tarde esse aperto nos clientes..E é o que está a acontecer, especialmente desde o final primavera, quando se tornou claro que o BCE iria iniciar um ciclo de subidas de taxas de modo a deter a inflação que, segundo as palavras de Lagarde (também ontem) está "demasiado elevada"..Terceira dose da 'vacina' contra a inflação .Portanto, mesmo com "recessão" e mais desemprego a espreitar no horizonte, o BCE subiu ontem a referida taxa principal para os 2%. Em junho ainda estava em 0%, patamar onde se quedou durante mais de seis anos. Em julho, a autoridade monetária procedeu à primeira subida (para 0,5%), em setembro somou-se mais 0,75% (a taxa ficou em 1,25%) e agora repetiu a dose (mais 0,75%)..Uma taxa de juro diretora de 2% na zona euro representa um regresso aos níveis que vigoravam em janeiro de 2009, estava a Europa a tentar recuperar da grande crise financeira de 2007/2008, mas já a caminho da grande crise das dívidas públicas que ia fazendo desmoronar o projeto da moeda única..Estas três subidas combinadas em 2022 formam o ciclo de subida de taxas de juro mais musculado da história da zona euro e do BCE (desde 1999 que as taxas são definidas em Frankfurt)..Além da preocupação verbalizada com o risco de recessão (a Alemanha, o maior país do euro, já assume uma contração em 2023), Lagarde acrescentou que o desemprego, até aqui baixo, também deve começar a subir, ainda que "ligeiramente". "Estamos particularmente preocupados com quem tem rendimentos mais baixos", acrescentou a antiga chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)..Mas, a inflação na zona euro está tão alta que Lagarde disse de várias formas e feitios que as taxas de juro vão continuar a subir..E que em dezembro serão revelados os critérios para começar a despejar nos mercados os valores enormes que o BCE detém em obrigações do tesouro e dívida privada.."Ainda não terminámos".No que toca às subidas de taxas de juro, Lagarde disse que "ainda não terminámos, há mais terreno para percorrer"..Em setembro, a inflação da zona euro atingiu um máximo de quase 10% (variação anual em setembro), o que é cinco vezes mais do que a média de 2% de inflação no médio prazo que o BCE persegue e tem no seu programa político.."O conselho do BCE baseará a trajetória futura das taxas de juro diretoras na evolução das perspetivas de inflação e económicas, seguindo a sua abordagem reunião a reunião", disse a instituição..E para já, a única certeza é que "a inflação permanece demasiado elevada e continuará a ser superior ao objetivo do BCE durante um período prolongado"..Portanto, o banco central poderá subir juros ou muito em valor, ou durante muito tempo. Questionada na conferência de imprensa, Lagarde não se compromete com quaisquer ritmos de subidas.."Abrandar a procura" para que a inflação não se "enraíze".Recordou sim que "em setembro, a inflação na área do euro atingiu 9,9%" e que "nos últimos meses, a escalada dos preços dos produtos energéticos e dos produtos alimentares, os estrangulamentos da oferta e a recuperação pós‑pandemia da procura resultaram numa generalização das pressões sobre os preços e num aumento da inflação.".Com estas subidas vigorosas de taxas de juro, o BCE diz frontalmente que pretende travar a procura de modo a que a inflação não se "enraíze" na zona euro, para que não persista durante muito tempo..Sendo "provável que a atividade económica na zona euro tenha abrandado significativamente no terceiro trimestre do ano" e "sendo esperado novo enfraquecimento no resto deste ano e no início do próximo", Lagarde avisou que o que está agora a pesar nos orçamentos é mesmo a inflação.."Ao reduzir o rendimento real das pessoas e fazer subir os custos das empresas, a inflação elevada continua a travar o consumo e a produção", atirou..Portanto, o enraizamento da inflação alta seria ainda mais destrutivo uma recessão agora, parece ser esse o entendimento do conselho do BCE, embora haja quem pareça divergir..Mário Centeno, o governador do Banco de Portugal, defende subidas de juros, mas tem apelado a ritmos mais moderados, que induzam uma sensação de maior estabilidade junto de empresas e famílias. Tem sido acompanhado nisso pelo primeiro-ministro, António Costa, e pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa..Já o governador alemão, Joachim Nagel, do Bundesbank, tem sido o grande defensor de aumentos significativos das taxas, tendo mesmo defendido recentemente um salto equivalente a 1% nas taxas..Banca financia danos da inflação e menos o investimento.Os bancos, portugueses incluídos, já estão a passar, desde junho/julho, custos claramente superiores no caso dos novos empréstimos, seja para compra de casa ou atividades empresariais..No caso de Portugal, as empresas mais pequenas (PME) têm sido mais sobrecarregadas, disse o Banco de Portugal esta semana..Na zona euro, Christine Lagarde notou que, apesar do custo crescente, o fluxo crédito às empresas permanece "robusto" e está a ir para "financiamento dos custos de produção elevados" e de acumulação de existências (stocks). Já a procura de empréstimos para financiar investimento "continuou a diminuir"..Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo