Kristian Ruby: "Impor tetos nos preços da eletricidade penaliza as renováveis"

Associação Eurelectric alerta para os riscos de uma reforma "muito confusa" e "prejudicial para a estabilidade" do investimento.
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A Eurelectric acredita que há um "potencial enorme de crescimento" das renováveis, mas alerta que será uma "grande frustração" se houver questões regulatórias a impedir a tão necessária transição energética. "A indústria quer mesmo contribuir para as metas muito ambiciosas que foram traçadas, mas se o negócio não aparecer no curto prazo, o capital não se mobiliza e os projetos não arrancam", alerta o secretário-geral da associação que representa os industriais europeus de eletricidade.

Em causa está o processo de reforma do mercado elétrico, em discussão na União Europeia, no âmbito do qual Kristian Ruby considera que a tentativa de impor tetos máximos nos preços da eletricidade significa "penalizar as renováveis".

O secretário-geral da Eurelectric foi um dos oradores da conferência "We choose earth", organizada pela EDP em Madrid, e falou ao DN/Dinheiro Vivo à margem do evento. Diz que a reforma do mercado da eletricidade na Europa partiu de uma proposta "razoavelmente equilibrada" da Comissão Europeia, que pretende "reter a maior parte do que construímos nestes 30 anos de liberalização do mercado, protegendo os consumidores de volatilidades extremas dos mercados, e dando sinais [positivos] aos investidores". O problema, defende, é a vontade de introduzir "uma série de conceitos que estão por testar e que podem parecer interessantes à partida, mas que ainda não foram devidamente escrutinados".

E explica: "Pôr um teto nos preços da eletricidade quando eles sobem muito numa determinada tecnologia, porque estão a gerar grandes proveitos, até pode parecer uma boa ideia à partida, mas, na verdade, significa que estamos a penalizar as energias renováveis". O que leva a que se penalize e torne menos atrativo o estabelecimento de acordos de compra de energia. "Mesmo que fosse uma boa ideia, como é que a íamos implementar? Quem é que vai avançar com esse dinheiro, com que sistema? Há uma série de perguntas muito complexas ainda por responder", considera.

Apesar destas "ideias sedutoras", o responsável considera que o importante é não perder de vista o quadro geral. "Partimos de uma proposta de reforma razoável, com alguns pequenos pormenores que podiam ser resolvidos, mas, agora, com o processo político, que tem uma grande componente de entropia, estamos a olhar para algo muito mais confuso e potencialmente prejudicial para a estabilidade dos investidores. Temos mais de mil emendas propostas pelos eurodeputados. É muito complicado", sublinha.

Kristian Ruby fala mesmo numa "curiosa obsessão" pelo papel da eletricidade na crise energética que o mundo vive, lembrando que foram os combustíveis fósseis que a provocaram e as petrolíferas as que mais ganharam com ela. "Parece-me um paradoxo político que tenhamos uma situação em que a indústria dos combustíveis fósseis, dos quais nos queremos livrar, esteja a ganhar dinheiro como nunca. E a consequência política que tiramos disto é decidir regular a eletricidade, que devia ser a solução para substituir os fósseis? É um paradoxo que pode atrasar os investimentos nesta área", alerta.

E acrescenta: "Todos os investidores que têm estado à espera que os projetos verdes surjam - e que estão a avançar lentamente por causa dos licenciamentos e de todas essas questões - estão a ver lucros gigantescos e dividendos generosos a serem pagos pelas petrolíferas e, portanto, é aí que estão a pôr o seu dinheiro. E há um recuo em muitas das grandes companhias nos seus investimentos fósseis. Vimos isso com a BP, vimos isso com a Shell e não hão de faltar outros exemplos".

ilidia.pinto@dinheirovivo.pt

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