Jornada Mundial da Juventude: Turistas atrás do Papa Francisco já esgotam hotéis

Falta um ano para Portugal receber mais de 1,5 milhões de crentes para aquele que será o maior evento alguma vez acolhido pelo país. Turistas dos quatro cantos do mundo estão já a lotar hotéis em Lisboa e Fátima, mas a procura estende-se a outras regiões. Capacidade aeroportuária é apontada pelos empresários como um dos constrangimentos.

Dentro de um ano Lisboa será a casa de milhares de crentes movidos pela fé. As artérias da capital servirão de palco ao maior evento já realizado no país e aos visitantes de mais de 40 nacionalidades que têm encontro marcado com o Papa Francisco, durante uma semana. Faltam 338 dias para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) , que decorre entre 1 e 6 de agosto de 2023, e os preparativos já avançam a ritmo acelerado em vários setores.

O turismo está sem mãos a medir e na hotelaria em particular é possível, por estes dias, antever o gigante impacto que o evento terá no país, com hotéis já completamente cheios para as datas do evento. O encontro entre os milhares de jovens e o mais alto representante da Igreja Católica está agendado para Lisboa mas os estilhaços da fé vão alastrar-se a todo o país, sendo Fátima a segunda cidade mais impactada pela JMJ e a agitação não se cingirá apenas à semana do evento. Muitos turistas, principalmente os que chegarão de destinos mais longínquos, vão estender a estadia ao longo do mês de agosto para conhecer o país.

"A procura é muito elevada para o período das JMJ, de Lisboa até Fátima, e irá crescendo mesmo noutras zonas. E não apenas para a semana em si, mas também para os períodos antecedente e posterior. E há, inclusivamente, hotéis esgotados para essas datas", garante a vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira. São esperados turistas de todos os cantos do mundo mas, para já, além da Europa, onde se destacam Espanha, Itália ou Polónia, assumem expressão os mercados dos Estados Unidos, da América Latina e da Ásia.

As contas não estão fechadas mas, olhando para os exemplos do passado, é possível antever um cenário de peso em todas as frentes. A responsável da associação dos hoteleiros relembra que em 2011 Madrid recebeu dois milhões de pessoas para este evento. Para já, são esperados 1,5 milhões de jovens em Portugal, mas os números não se ficam por aqui. "Estamos a falar ainda de milhares de famílias, jornalistas, representantes do clero e ordens religiosas da Igreja nos cinco continentes", enumera Cristina Siza Vieira que espera um impacto de peso na hotelaria do país. "Ficando a taxa de ocupação a 100%, o impacto será seguramente enorme, mas também em termos de exposição mediática que Portugal e Fátima terão. O cálculo da cidade de Cracóvia para o equivalente de publicidade durante as JMJ de 2016, sem social media, foi de 140 milhões de euros", refere.

Hotéis lotados

A doze meses do evento somam-se os pedidos de reservas para assegurar as dormidas e, principalmente na capital, há já hotéis totalmente esgotados. É o caso do Lisbon Marriott Hotel que já encerrou as vendas para a primeira semana de agosto de 2023, mas as solicitações não param de chegar.

"Temos reservas já confirmadas desde 2019, uma vez que a JMJ estava confirmada para 2022 e foi depois alterada para 2023, devido à pandemia. Continuamos a receber bastantes pedidos para estas datas mas, de momento, já não estamos a aceitar qualquer reserva. Só passaremos a aceitar caso haja algum cancelamento", revela o diretor-geral do quatro estrelas. Elmar Derkitsch explica que a forte procura está também a fazer disparar as tarifas. "Há um grande aumento de preços tanto para grupos como para clientes individuais. Como os grupos são negociados com muita antecedência, devido aos serviços associados, não será registado um aumento tão grande. Os clientes individuais provavelmente evitarão Lisboa durante esses dias", adianta.

Também o grupo Luna Hotels & Resorts, que detém um portefólio de 26 hotéis de Norte a Sul do país, confirma a subida das tarifas estimulada pelo frenesim da procura. "O aumento do preço médio já está refletido na grande maioria das unidades, seja em Lisboa ou Fátima. Contamos que a elevada procura por Lisboa transborde para as áreas onde temos unidades, como é o caso de Abrantes", antecipa a diretora comercial do grupo, Sónia Coixão.

Em Fátima o cenário otimista é confirmado pelo maior grupo hoteleiro da cidade. "Esperamos um forte impacto nas semanas antes e pós-jornada. Alguns turistas ficarão simplesmente por estas razões logísticas. Outros ficarão porque têm origem em países longínquos e esta será uma grande oportunidade para conhecerem o país. Outros ainda simplesmente porque existe uma curiosidade fortíssima sobre Portugal", garante Alexandre Marto Pereira, CEO do grupo Fátima Hotels.

O Eurostars Hotel Company conta com oito hotéis em Lisboa e um em Cascais e a previsão é de ocupação total. O grupo internacional, com presença em 17 países, explica que o impacto do evento está também a ser sentido fora da esfera nacional. "As JMJ estão também a ter um impacto muito positivo noutras cidades fora de Portugal, em destinos emblemáticos de peregrinações como Santiago de Compostela, Roma ou Sevilha, uma vez que muitos participantes farão uma paragem e aproveitarão a viagem para os visitar".

Capacidade aérea é desafio

Ainda não há estudos nem cálculos no papel sobre os impactos económicos da JMJ no país, nem no turismo. A Associação Turismo de Lisboa (ATL) não consegue adiantar números mas defende que o impacto será musculado. "Todos os serviços turísticos terão procura acrescida. As pessoas consumirão nos restaurantes, lojas, supermercados, serviços de transporte, oferta cultural. O evento tem um efeito estruturante, que se traduz na reconversão urbanística que permanecerá para além dele e também na enorme projeção de Lisboa e de Portugal", explica Vítor Costa, diretor-geral da ATL.

Também no Centro do país as expectativas são elevadas. A visita do Papa Francisco a Fátima já está a agitar não só a cidade mas as regiões em redor. O Turismo do Centro está confiante no estímulo das contas na região. "Esperamos que o impacto económico seja bastante significativo. Essencialmente, esperamos ganhos de notoriedade do destino Centro de Portugal, mais dormidas e mais receitas turísticas", explica.

Apesar das perspetivas otimistas, há constrangimentos para o setor que podem beliscar a organização da JMJ. A falta de capacidade do aeroporto da Portela volta a ser assunto em cima da mesa. "A verdade é que muitos visitantes irão entrar por Madrid e Barcelona, até por falta de capacidade de resposta aérea em Lisboa, e daí partem para o tour ibérico. Acresce que o evento ocorre em plena época alta, e agosto é sempre um mês forte em todo o país", relembra Cristina Siza Vieira.

Já Alexandre Marto Pereira não esconde as dúvidas que começam a surgir. "Quantos passageiros podem os aeroportos de Lisboa e do Porto receber? A TAP pode aumentar o número de voos? Haverá autocarros e comboios?", questiona o empresário, pedindo respostas ao governo.

"Espero que o governo esteja a estudar formas de atenuar as limitações que temos, nomeadamente no acesso aéreo ao país", apela o CEO da Fátima Hotels. Já a presidente da direção da Associação Empresarial Ourém - Fátima (Aciso), Purificação Pereira Reis, relembra o problema da falta de mão-de-obra que o país enfrenta, nos mais variados setores. "O défice de recursos humanos será o maior desafio. Por exemplo, serão necessários muitos autocarros, mas existe grande dificuldade em encontrar motoristas certificados e, sem eles, a oferta será insuficiente. Este tipo de dificuldades são transversais a várias áreas de atividade", alerta.

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