Jimmy Wales: "A Wikipédia tornou-se algo mágico"

A Wikipédia faz 20 anos e Jimmy Wales, o seu fundador, fala na evolução e no futuro do projeto colaborativo, na desinformação das redes sociais e modelos de negócio online não só da Wikipédia, mas também do jornalismo - onde tem um projeto chamado WT.Social.

"Imagine um mundo em que cada pessoa no planeta tem livre acesso à soma de todo conhecimento humano. Isso é o que estamos a fazer." - Mensagem de Jimmy Wales presente no portal de acesso dos editores da Wikipédia em português.

É um dos lados mais saudáveis e importantes da internet atual e nasceu há precisamente 20 anos - a Wikipédia é de janeiro de 2001, enquanto a versão em português nasceu a 12 de maio do mesmo ano. Jimmy Wales, o seu fundador - um norte-americano de 54 anos de uma família de empreendedores do Alabama que vive desde 2012 em Londres - admite que do sucesso inicial, o projeto teve de melhorar bastante para ganhar a confiança global que tem hoje. "Hoje temos um reconhecimento internacional, até a nível académico que faz a diferença e que não tínhamos há 15 anos", admite em entrevista no podcast do DV, Made in Tech.

Numa era em que a desinformação parece mais atrativa nas redes sociais, "onde vemos uma influencia algorítmica preocupante na sociedade que consegue de alguma forma hackear os nossos cérebros com conteúdos que radicalizam as pessoas para nos manter por lá e vender publicidade direcionada", Wales congratula-se com a decisão de manter a Wikipédia sem publicidade.

"Sempre me opus até por questões estéticas no início, não queríamos anúncios estúpidos e como desde a primeira vez que angariámos dinheiro, em 2003, tivemos sucesso, nunca foi preciso e tornou-se mantra", explica o empreendedor que estudou finanças e também era programador, mas desde a faculdade que queria fazer a diferença na internet com vários projetos.

Na base da Wikipédia está o desejo, desde 1997, de fazer uma enciclopédia colaborativa para potenciar "a revolução da internet" e "mal lançámos, em 2001, percebemos que era o projeto certo na altura certa pelo entusiasmo dos voluntários". Até 2003, os servidores da Wikipédia eram pagos pelo próprio Wales, que nunca quis enriquecer, daí criar nesse mesmo ano a Fundação Wikimédia, como organização sem fins lucrativos para permitir o crescimento do projeto.

"Éramos um grupo de geeks a tentar construir algo divertido e que fizesse a diferença online, algo que pudesse dar a cada pessoa do planeta acesso gratuito e livre à soma de todo o conhecimento humano e não tomasse partido em temas controversos, preferindo sempre explicar", revela.

Ao longo dos anos tem sentido que o objetivo de contribuir para uma sociedade informada, passo a passo, tem sido cumprido. Katherine Maher, CEO da Fundação Wikimedia desde 2016 e que saiu em abril para novos projetos de carreira - estão em busca de um novo líder - foi "peça fulcral" já que conseguiu duplicar as receitas com donativos - 140 milhões de dólares esperados este ano -, mas também o número de editores e lançar uma plataforma de edição visualmente mais apelativa. A satisfação da comunidade é a prioridade número um.

Já viu a enciclopédia fazer a diferença em várias vidas em 20 anos, mas lembra uma visita a um bairro pobre da República Dominicana, que três anos depois de passar a ter eletricidade estreou um espaço com computadores para os mais novos. "Senti ser uma celebridade junto dos miúdos que passaram, de repente, a ter o mundo inteiro e o conhecimento de gerações nas pontas dos dedos, senti que era algo mágico para eles - a forma como a internet abriu um novo mundo de possibilidades".

Wikipédia em português tem mais de 1,06 milhões de artigos (18º na lista de Wikipédias mundial), 3 mil editores ativos em abril (10 mil no total) e nesse mês teve mais de 35 milhões de visualizações só a partir de Portugal. Existem 71 administradores e só 13,3% das edições de artigos são oriundas de Portugal, 81,3% são do Brasil

Caridade para o mundo, não para Big Tech

Wales admite que a Wikipédia é e sempre será gratuita para todos e, embora não se importe que seja usado pelas Big Tech, como a Google na sua pesquisa ou os assistentes digitais por voz, lembra que "somos uma caridade para o mundo, não para as Big Tech". Daí que estejam a criar este ano o Wikimedia Enterprise, "em que ajudamos a nível técnico a que usem melhor a informação da Wikipédia, mas cobramos valores para suportar os custos da infraestrutura e financiar o movimento". Ainda não há previsões de quanto isso poderá render, "mas será sempre menos do que o valor de donativos", até porque não querem "que compita com essa área de receitas que é a ideal para que a Wikipédia não fique cativa de ninguém".

As novas fontes de investimento vão servir para apoiar o "necessário crescimento das comunidades da Wikipédia nos países em desenvolvimento". Embora Jimmy Wales lembre iniciativas recentes importantes pela igualdade, como o ProjetoWiki Mulheres de Vermelho - para aumentar as biografias de mulheres proeminentes na enciclopédia (há prevalência de 70% de homens nas biografias), o foco nos próximos anos é chegar a mais lados do planeta. "Vamos ajudar países em desenvolvimento com desafios técnicos e a espalhar a palavra para usarem e contribuírem para a Wikipédia local, apoiando também universidades nos seus esforços de terem uma maior presença", explica.

"Somos uma caridade para o mundo para que o conhecimento chegue a todos, mas não caridade para as Big Tech, mesmo que nos usem sem custos"

Futuro da internet

O problema da radicalização nas redes sociais "é real e preocupante, especialmente ver como os algoritmos incentivam a divisão": "como seres humanos somos complicados e tanto queremos refletir e chegar a algo verdadeiro, como clicar em algo apelativo ou que nos provoca algo online".

Apesar de não ter solução milagrosa, admite que além de Facebook ou YouTube puderem fazer melhor e serem mais transparentes e pensar na qualidade da informação que mais difundem, será importante apostar numa melhor educação mediática dos novos e nos mais velhos "para percebermos como os algoritmos funcionam e não sermos tão permeáveis à desinformação e teorias da conspiração", embora esta "seja uma tarefa difícil".

"Já falei com pessoas no Facebook que devem perceber que será péssimo para o seu futuro até como negócio serem vistos como a raiz da quebra da democracia do século XXI", daí que admita que a concorrência seja saudável até para dar alternativas - "infelizmente em tecnologia há pouca".

Dá ainda o exemplo da Apple, mais focada no hardware e que facilmente dificultou o rastreio da apps como o Facebook "para maior satisfação dos seus utilizadores".

Apesar de tudo, vê esperança no futuro, com "a era dourada dos programas televisivos em streaming sérios e reflexivos, alguns com 12 horas, bem como o fenómeno dos podcasts que mostram que a era do imediatismo e do foco curto de atenção que vimos no TikTok e afins não tem de ser a regra".

Regulamento com buracos

Embora admita que a Europa tem as intenções certas com os regulamentos para a internet, Jimmy Wales explica que o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) europeu fez que com que os europeus perdessem acesso a mais de 800 jornais nos EUA, "são efeitos colaterais em que não se pensou e que não protegem ninguém, até porque o RGPD não impede que o Facebook faça muita coisa com os nossos dados, parece haver ingenuidade".

Sobre o futuro do jornalismo online e a crise nos seus modelos de negócio, prefere ver a adesão às subscrições pagas do que o modelo australiano "que parece só servir para enriquecer magnatas dos media como Rupert Murdoch com dinheiro das Big Tech". Também é contra "que os Estados subsidiem o jornalismo diretamente, porque é isso que se vê na China e eu não iria querer o Donald Trump a decidir que jornais recebem mais ou menos dinheiro nos EUA".

Jornalismo colaborativo

O seu projeto de jornalismo colaborativo, WT.Social, lançado em 2017 não correu como esperado e foi preciso mudar a sua fundação. "Percebemos que é bem mais fácil qualquer um participar num enciclopédia do que fazer jornalismo, até porque é todo um ecossistema que está quebrado, já que é mais fácil ter tráfego com algo peculiar escrito em dois minutos do que com uma peça séria e importante", explica Wales.

Por isso estão agora a montar "um novo ecossistema que premeia a informação pensada e de qualidade, sem algoritmos a decidir, mas sim um grupo de membros especializados da comunidade". O projeto-piloto global (embora com maior participação em língua inglesa e alemã) já arrancou "e parece-me que vamos ter algo interessante em mãos nos próximos anos".

Como conselho para a internet dos próximos anos, sugere que se deixa em muitos dias as redes sociais e o imediatismo de lado e deixa um exemplo: "com a pandemia passei de falar pouco com a minha irmã e colocar de vez em quando um Gosto na foto do cão dela no Instagram, para criar um Quizz semanal de perguntas por videoconferência entre a família que têm sido uma boa surpresa".

João Tomé é jornalista do Dinheiro Vivo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG