Um dia nos bastidores do aeroporto. Sabe por onde andam as suas malas?

Num único dia, a Groundforce assiste em Lisboa 150 aviões, 55 mil passageiros, 400 toneladas de carga, 24 sobre 24 horas, em três turnos.

Tinha chegado o grande dia da viagem que os ia levar do frio do inverno português para paragens com temperaturas mais amenas, do outro do Atlântico. À chegada ao aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa - mais conhecido como Portela - a família Fernandes já tinha feito o check-in online e por isso dirigiu-se logo à novíssima zona de self check in - a mais recente joia da coroa do aeroporto da capital - onde, desde julho são os próprios passageiros (apenas os que viajam pela TAP, para já) que tratam de tudo: desde o check in propriamente dito, à escolha dos lugares, emissão dos cartões de embarque e impressão das etiquetas para colocar nas bagagens. O projeto é um exemplo para outros aeroportos, como o de Copenhaga ou Atenas.

Em caso de dúvidas dos passageiros, surge logo um dos 14 assistentes, ali presentes, da empresa de handling responsável pelas operações em terra. Depois foi só passar no drop off e encaminhar as malas que iriam para o porão do avião. Em menos de 10 minutos, talvez menos, a família Fernandes seguiu assim descansada para a zona de raio X e para a porta de embarque, sem se aperceber que toda aquela área, entre tantas outras do aeroporto, está sob a alçada da Groundforce e permite "um maior fluxo dos passageiros".

"Muitos pensam que nós só tratamos das bagagens. Mas na verdade somos responsáveis por tudo, exceto a comida a bordo e o combustível abastecido aos aviões", esclarece Paulo Neto Leite, CEO da empresa, que por este dias foi o anfitrião de uma visita guiada pelos bastidores mais recônditos do aeroporto de Lisboa, na qual foi possível ver tudo o que se passa "do outro lado da cortina", mais conhecido no meio aeroportuário como "lado ar", explica o responsável. Todo um trabalho cronometrado ao minuto, que os passageiros não vêm, mas sem o qual seria impossível ter 30 milhões de passageiros por ano a passar pela Portela. Num único dia, a Groundforce assiste 150 aviões, 55 mil passageiros, até 250 passageiros menores desacompanhados, e 400 toneladas de carga, 24 sobre 24 horas, em três turnos.

E enquanto as malas da família Fernandes já seguem o seu caminho para os terminais de bagagem (neste caso do lado das partidas, já lá iremos), através dos 10 quilómetros de passadeiras e carrosséis alinhados num sistema totalmente automatizado, o CEO da Groundforce chama à atenção para a chegada (pelas 12h10), do maior avião que aterra duas vezes por dia em Lisboa - o Boeing 777-300, da Emirates, um gigante dos ares com capacidade para 500 pessoas.

Em menos de nada, já a aeronave está junto à manga por onde sairão os passageiros e todo um frenesim de veículos e cerca de sete trabalhadores da Groundforce se instala à volta do avião: têm três minutos para colocar os calços nas rodas, quatro minutos para encostar a escada, outros três minutos para abrir os porões e, ao quinto minuto o primeiro passageiro tem de estar a sair do avião. Para quem está lá dentro parece sempre muito mais - uma eternidade, mesmo -, mas o responsável da empresa garante a meta dos cinco minutos em 90% dos casos, até porque cada minuto de atraso sai caro (não revela, no entanto, quão caro) à Groundforce e às 37 companhias aéreas que são suas clientes. Como a TAP, Iberia, Lufthansa, Air France, British Airways, KLM, entre muitas outras.

"É como uma orquestra a tocar uma sinfonia bem afinada. Um avião quando chega, temos um tempo muito cronometrado", explica Paulo Nuno Leite. Num abrir e fechar de olhos já há malas e paletes de carga a serem descarregadas, gruas a repor o catering para o voo seguinte, sem esquecer a limpeza da cabine e do depósito de águas sujas e o abastecimento de água limpa. "Num avião grande como este temos de fazer tudo para que em 90 minutos ele esteja de novo pronto para descolar", ou seja, às 13h40, refere o CEO, explicando que no caso de aviões mais pequenos este tempo reduz-se para cerca de 30 a 40 minutos.

O CEO desabafa que os "stands para operar cada aeronave são pequenos", queixa-se das fissuras no pavimento que danificam os aviões e também os veículos da empresas, e defende também que a melhoria das condições dos 10 mil trabalhadores do aeroporto deve ser uma prioridade para a ANA. Na calha está já um investimento de 650 milhões de euros para modernizar a Portela.

"O maior constrangimento que o aeroporto tem é ter-nos tirado essa margem de manobra para quando há atrasos nos voos e outras falhas, porque estamos a levar a infraestrutura ao limite. Os constrangimentos e cancelamentos têm impacto nas contas da empresa. Nós estamos preparados para os movimentos que estão previstos. Se há voos cancelados temos de garantir alojamento às pessoas, e tudo isso vai somando prejuízos. Por isso temos equipamentos para podermos responder mais rapidamente, investimos em pessoas mais preparadas para operar novas tecnologias, permitindo que o processo seja o melhor possível num um aeroporto que está em crescimento", disse o CEO.

A visita segue então para o centro de operações da Groundfource - o Handling Operations Center - uma espécie de sala de controlo onde tudo acontece. "Não há espaço para falhas em aviação. É lá que, no fundo, nós gerimos a operação no dia-a-dia, porque não existe um dia perfeito, há sempre alterações, constrangimentos, chove, há nevoeiro. E é lá que é feita a distribuição de cerca de 75% do trabalho: não só a alocação das bolsas de trabalhadores disponíveis (no total são 3430, mas vão crescer para 3600 em 2019), mas também de equipamentos, autocarros", explica.

Ainda mais longe dos olhares dos passageiros, do outro lado do aeroporto, fica a área de carga da Groundforce, dividida entre importações e exportações. Por ali há paletes de mangas maduras que viajaram de avião desde países exóticos, pintos vivos que vão seguir para engorda, nos Açores, mas também já por lá passaram cavalos, imagens de Nossa Senhora em peregrinação, órgãos humanos para transplantes, partes de carros e aviões.

De regresso ao terminal de bagagens, Paulo Nuno Leite explica que esta é uma área core onde são processadas todas as bagagens dos passageiros: por dia são mais de 200 mil, e muitas delas (35 a 45%) estão apenas de passagem para outros destinos. "Há que garantir que não se perdem. Garantir que os passageiros apanham a sua ligação para o voo seguinte e as malas também", refere. Em cada mil, apenas duas malas ficam para trás e não chegam ao destino, sendo encaminhadas para os perdidos e achados. Graças ao "google das bagagens, não há malas perdidas em definitivo", garante.

Quanto o tempo de escala entre voos é grande a situação complica-se mais e centenas de malas têm de ser separadas à mão pela Groundforce e armazenadas (leia-se empilhadas) onde houver espaço, numa espécie de "chega para lá". Nas chegadas, as malas levam 6 a 7 minutos do avião até aos 12 tapetes do termina de bagagens. Do avião ao passageiro: o tempo médio de chegada da primeiara mala é de 17 minutos e da última mala é de 22 minutos.

Já nas partidas, são 60 tapetes (quatro de circulação) que permitem a operação de 60 voos ao mesmo tempo. O CEO da Groundforce explica que carregar as malas para o avião é um trabalho "muito criterioso". "O peso tem de ir equilibrado no avião, para garantir o mínimo de consumo de combustível durante o voo, uma variável de extrema importância para as companhias aéreas".

Antes da visita acabar há ainda tempo para o CEO explicar que a Grounforce é responsável por dar resposta aos passageiros dos seus clientes: "Se um voo é voo cancelado, vamos tratar da vida deles, marcar alojamento, marcar novos voos, etc. De um minuto para o outro é preciso hotel para 200 pessoas. Lisboa está sempre esgotada e já tivemos de enviar pessoas para Fátima ou Sesimbra, por exemplo". Já a família Fernandes teve mais sorte e lá seguiu a tempo e horas, com todas as malas, para o seu destino de sonho, no mar das Caraíbas.

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