T-Roc obriga Autoeuropa a impor laboração contínua já em fevereiro

Fábrica de Palmela espera 240 mil encomendas do novo modelo em 2018. Sem laboração contínua, a fabricante alemã admite desviar parte da produção para outros países

Está perto do fim o impasse na Autoeuropa. Os trabalhadores vão mesmo ter novos horários, e é já a partir de fevereiro. Ao que o DN/ /Dinheiro Vivo apurou, a fábrica de Palmela vai passar a funcionar durante 24 horas, para responder à elevada procura pelo novo modelo da Volkswagen. A decisão será oficializada na próxima semana e surge ao fim de um ano de negociações entre a administração e a Comissão de Trabalhadores. E vai avançar apesar do chumbo de dois pré-acordos pelos operários .

Numa nota interna que a empresa fez chegar ontem aos trabalhadores, a que o DN teve acesso, a administração sublinha a necessidade "indiscutível" de se encontrar "um modelo de trabalho que responda às encomendas dos clientes para a primeira metade de 2018". A Autoeuropa avisa que, caso não seja encontrada uma solução, a fábrica corre o risco de entrar "em incumprimento com o programa de produção" do T--Roc.

A laboração contínua foi a fórmula encontrada pela empresa para que a gigante automóvel alemã não desvie parte da produção do T-Roc para outras fábricas do grupo na Europa. Os receios sobre este cenário já tinham sido manifestados ao DN por Daniel Bernardino, coordenador das comissões de trabalhadores do parque industrial da Autoeuropa.

Nas próximas semanas, deverá intensificar-se o braço-de-ferro entre os trabalhadores e a administração liderada por Miguel Sanches. Em causa estão as compensações que a Autoeuropa terá de dar aos operários em troca da laboração contínua.

Na nota enviada aos trabalhadores, a administração destaca que, "ao longo de vários meses, foram elaboradas várias propostas de turnos e compensação", e "foi possível ultrapassar a maioria dos pontos levantados pelos trabalhadores". O último pré-acordo incluía "a introdução de uma quarta equipa, mais folgas consecutivas, não haver turno da noite ao fim de semana e a redução do tempo trabalhável".

A proposta, que já previa a laboração contínua da fábrica em 17 turnos semanais, mas só a partir de agosto, acabou chumbada por 63% dos trabalhadores no último referendo da semana passada. Além do funcionamento da fábrica durante 24 horas, os funcionários contestaram o trabalho aos sábados e o respetivo pagamento, que deixaria de contar como extraordinário.

Já em julho os trabalhadores tinham rejeitado uma primeira proposta sobre a introdução de novos horários. A esse chumbo seguiu-se a demissão da anterior Comissão de Trabalhadores e uma greve histórica dos operários, que teve lugar a 30 de agosto.

O DN apurou ainda que, no próximo dia 12, os sindicatos da fábrica da Volkswagen serão recebidos pela administração, mas o encontro servirá apenas para que os trabalhadores escutem a posição da empresa, e não para negociações. O DN tentou, sem sucesso, obter a reação da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa à decisão.

O Presidente da República, já ontem, apelou ao "clima de paz social". Para Marcelo Rebelo de Sousa, a Autoeuropa deve continuar "a ser um exemplo não apenas de excelência e qualidade, mas também de convivência social".

Para satisfazer o ritmo de produção do T-Roc, a Autoeuropa recebeu um investimento de 667 milhões de euros e contratou já 2120 funcionários desde o início do ano. A criação de um quarto turno irá levar a Autoeuropa a contratar mais 400 pessoas.

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