Ricardo Salgado. "Penso todos os dias nos lesados"

"Não fui eu que provoquei os lesados, não fui eu que causei esta resolução. Não sou responsável por isso", diz o antigo homem forte do BES, em entrevista à TSF

Ricardo Salgado diz que pensa "todos os dias" nos lesados do BES. "Todos os dias. E sofro com isso", garante o antigo homem forte do Banco Espírito Santo, em entrevista à TSF. Mas não por admitir responsabilidades próprias na situação que levou ao descalabro da instituição. "Não fui eu que causei os lesados. Os lesados foram causados pela resolução [decidida pelo Banco de Portugal]", diz Salgado.

"O Banco Espírito Santo tem 150 anos e nunca lesou ninguém. Agora, quem desencadeou este processo do cerco à área não financeira do grupo é que acabou por fazer cair empresas como a Tranquilidade e outras. Não fui eu que provoquei os lesados, não fui eu que causei esta resolução. Não sou responsável por isso", argumenta o ex-banqueiro, dizendo que apesar de ter a "consciência tranquila" quanto à queda do banco não dorme "totalmente descansado" exatamente por causa dos lesados.

"Não fui eu que causei os lesados. Os lesados foram causados pela resolução"

Na entrevista à TSF, Ricardo Salgado recusa ter manchado a reputação dos Espírito Santo. "Eu não manchei a reputação da minha família. A minha família, se considera que a reputação foi manchada pelo desaparecimento do BES, tem que ir cobrar essa responsabilidade a quem a teve. Mas não a mim", refere Salgado, acrescentando que até ao dia 13 de julho de 2014 "ninguém falava de resolução" - "E não havia lesados. Portanto, o que aconteceu a seguir ao dia 13 não é comigo. É com quem de direito que deve ser conversado".

Ricardo Espírito Santo é, atualmente, arguido na Operação Marquês, acusado de 21 crimes - de corrupção ativa de titular de cargo político, corrupção ativa, branqueamento de capitais, abuso de confiança, falsificação de documentos e fraude fiscal qualificada. É também arguido no caso Monte Branco, no processo da queda do BES e no caso EDP, mas nestes processos não foi ainda deduzida acusação.

O ex-banqueiro admite "falhas" na gestão do BES, mas defende que nem foram intencionais nem constituíram qualquer crime. "Houve falhas? Houve certamente, na área não financeira, na contabilidade da ES International onde se veio a verificar um passivo oculto", diz Salgado, para acrescentar a seguir que "uma boa parte da dívida portuguesa internacional está oculta". "Não é expressa. Mas não é só [a de] Portugal. Outros países fazem isso. Nós não fizemos isso de propósito. Houve um lapso que se introduziu, enfim, inexplicável... ", prossegue, antes de apontar baterias ao Banco de Portugal.

"A causa primeira do facto de a área não financeira do grupo ter soçobrado resulta de uma análise transversal que o Banco de Portugal decretou, em 2013, a todo o sistema bancário, denominado ETTRIC. A análise do ETTRIC feita pela PricewaterhouseCoopers mostra que a área não financeira, apesar da dívida oculta, e apesar das dificuldades que estava a passar, (...) continuava positiva. Portanto, o que nós pedimos ao Banco de Portugal foi tempo. E o que é que o Banco de Portugal faz? Pura e simplesmente aplica o ring fencing, a que o governador chama aperto do cerco". " Esta política foi progressivamente reforçada ao longo do último ano e foi no quadro do aperto do cerco que o Banco de Portugal estabeleceu que as empresas do GES começaram a entrar em incumprimento", argumenta.

Um "erro" do banco central - "Aquilo é típico do médico que mata um cliente porque lhe aplicou um remédio que não é apropriado".

"Eu não manchei a reputação da minha família"

Adiante, Salgado volta ao tema dos erros. "Não sacudi a água do capote e quando fui à Comissão Parlamentar de Inquérito, disse com certeza que houve erros que foram praticados, 22 anos sem qualquer erro é impossível. Mas erros que, quanto a mim, considero de julgamento. Não são erros de princípios. Houve escolhas de quadros que foram ocupar posições importantes, que provavelmente foram erradas. Provavelmente não, hoje em dia tenho a certeza de que foram erradas, nomeadamente aqueles que foram para Angola", conta Salgado, apontando os nomes de Álvaro Sobrinho e Hélder Bataglia.

Já sobre o BES Angola, o antigo líder do BES diz que apresentou ao então Presidente da República, Cavaco Silva, e ao governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, uma garantia soberana de 4200 milhões de euros que assegurava 70% do crédito concedido por aquela instituição."Conhece algum Estado que tenha desprezado uma garantia de outro Estado? Conhece?", contesta o banqueiro, defendendo que "é uma coisa inacreditável o que fizeram".

A resolução do BES, um "balde de água fria" e um "erro monumental"

"Enquanto estive no banco, até 13 de julho, nunca se tinha falado em resolução alguma. Apareceu como um balde de água fria, de repente", conta Salgado sobre o último dia passado no banco. "Havia outras soluções para salvar o Banco Espírito Santo. Uma das coisas que me leva a pensar que não houve vontade política foi o facto de o senhor Governador e o Banco de Portugal terem recusado três hipóteses de recapitalização do banco", disse aos microfones da TSF, classificando a resolução como "um erro monumental", um "erro gravíssimo" - "Não há memória de ter havido outras resoluções de bancos com o peso que o Banco Espírito Santo tinha na economia nacional. As resoluções foram aplicadas a pequeníssimos bancos na Grécia e em Itália".

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